Livro de prêmio Nobel traz testemunhos de crianças que viveram a Segunda Guerra Mundial

Livro de prêmio Nobel traz testemunhos de crianças que viveram a Segunda Guerra Mundial

Em ‘As últimas testemunhas’, a jornalista bielorrussa Svetlana Aleksiévitch, prêmio Nobel de Literatura de 2015, dá voz a quem cresceu entre a fome, o frio, o desamparo, o absurdo – e a solidariedade

Renato Prelorentzou

09 Novembro 2018 | 17h25

“Não está com medo de mim? Das minhas palavras?”, pergunta uma senhora que tinha 12 anos na tarde em que a guerra chegou à sua aldeia. “Quando começo a contar, nem todo mundo quer ficar escutando”.

Os cem relatos colhidos por Svetlana Aleksiévitch em As últimas testemunhas são mesmo perturbadores, difíceis de ouvir.

A criança que ficou grisalha do dia para noite. A que foi salva da forca pelos partisans. A que viu um fascista jogar água fervente no irmãozinho que lhe pedira comida. A que foi dedurada por vizinhos colaboracionistas e torturada por oficiais alemães. A que se voluntariou na Marinha aos 14 anos, a que entrou para a resistência aos 12, a que foi trabalhar na fábrica de munição aos 10. A que depois de anos de guerra encontrou um livro de aritmética e o leu como se fosse poesia.

Cada testemunho dá uma dimensão quase palpável do que era ser criança naqueles dias: brincar em abrigos e trincheiras, brincar de prender e fuzilar, andar entre soldados, parentes e animais mortos.

Ter medo e ter fome. Comer capim, carvão, cascas de árvore, casacos de couro, comer só água quente. Beber água de valas e pântanos, de baldes com excrementos. Sentir, ainda, o cheiro das flores, da fumaça, dos alemães, do verniz de suas botas e da boa lã de seus casacos. Jovens fortes e bonitos, metralhando e rindo.

Ver pais e mães no chão e não entender a morte, não entender quase nada do que se passa. Ver adultos chorando, ser o único sobrevivente de toda uma aldeia fuzilada, cavar sepulturas com as mãos para enterrar a família. Querer fugir para encontrá-la, para ir ao front vingá-la.

Querer esquecer palavras difíceis e guardar memória viva: da cor de um vestido, do nome de um amigo ou de alguém que se sacrificou para salvar uma criança desconhecida. “Quero que todos saibam o nome da mulher que me salvou”, diz uma testemunha sobre aquela que colocou os próprios filhos em risco para acolher a menina judia que fugira dos pogroms no gueto. “Que coração grandioso é preciso ter. Um coração desumanamente humano”.

Entre a solidariedade e a brutalidade, há sempre algo que confunde e que distingue cada um dos testemunhos. E fica sempre a certeza de que essas crianças, hoje entre seus 70 e muitos e 90 e poucos, só sobreviveram graças a adultos que resistiram a ideias e tempos terríveis.

‘As últimas testemunhas’, na edição da Companhia das Letras.

Talvez se possa questionar a própria existência do livro: mais um sobre guerra? Para quê?

“Aconteceram muitas guerras e muito se escreveu sobre elas”, Aleksiévitch diz no prefácio de A guerra não tem rosto de mulher, em que reúne testemunhos de soldadas soviéticas que lutaram contra os fascistas. “E são sempre homens escrevendo sobre homens”.

Mas, na voz das mulheres e, agora, das crianças, a guerra ganha outras “cores, cheiros, luzes e sentimentos. Outras palavras”. Não é feita por grandes mitos e heróis, mas por coisas concretas, mínimas, humanas. A guerra como uma experiência íntima, inscrição de tragédias históricas no cotidiano e no sofrimento de gente comum.

“E não só das pessoas”. Nesses testemunhos “sofrem também a terra, os pássaros, as árvores, todas as vidas que estão conosco”. Vidas quaisquer, em toda sua força e desamparo. Contando suas muitas histórias, enquadram a História numa escala pessoal, microscópica, enlaçam seu destino ao de todo o mundo.

“Não escrevo sobre guerra, mas sobre seres na guerra”, diz Aleksiévitch. “Não escrevo a história de uma guerra, mas a história dos sentimentos. Sou uma historiadora dos sentimentos”.

Extraordinários, feitos de monólogos também extraordinários, seus livros formam coros de vozes que expressam algo para cada um e todos nós. São palavras de resistência das últimas testemunhas. Precisam ser ouvidas.

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