Literatura para compreender o Brasil

Literatura para compreender o Brasil

Uma conversa sobre o projeto literário do escritor e coordenador da primeira pós-graduação em criação literária do País sobre seus livros, em que sugere uma nova maneira de enxergar a literatura brasileira

Renato Prelorentzou

14 de dezembro de 2018 | 14h55

Roberto Taddei, paulistano, nascido em 1975, é jornalista e passou por algumas das maiores redações do país antes de fazer mestrado em criação literária na Universidade de Columbia, em Nova York.

De lá para cá, colaborou em peças teatrais, traduziu e resenhou inúmeros livros, publicou os romances Terminália (Prumo/ Rocco, 2013) e Existe e está aqui e então acaba (Dobra/E-galáxia, 2014) e ajudou a criar a pós-graduação em Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz, da qual é coordenador.

Na conversa abaixo, entre tantas outras coisas, Roberto fala sobre seus romances, sobre a história, a cultura e a literatura do Brasil e sobre o desafio de tentar compreender a especificidade brasileira por meio das palavras.

 

Em seus romances, você parece perseguir um projeto que, além de literário, é etnográfico, histórico, sociológico…

Meu primeiro romance, Terminália, trata de uma questão de identidade. Tento investigar isso na figura da Elena, que é descendente de indígenas do Norte do Brasil, que não sabe mais a que tribo pertencia a família, indígena que cresceu na cidade, em Belém, mas que carrega no corpo essa memória. Este elemento é importante, o corpo. O corpo sofre por uma impossibilidade de negociação com o meio que sustentaria sua existência. Elena passa por isso ao se ver casada com um militar, que tem um código rígido, uma forja de identidade martelada o tempo inteiro. Talvez a instituição militar seja, no Brasil, a que mais intensamente cultive isso até hoje, a identidade brasileira. A história do Exército, por exemplo, é contada à revelia dos processos de formação do Brasil, é anterior inclusive à independência do Brasil. Talvez seja a única instituição brasileira que atravessa a história e continua forjando a sua identidade. Os militares, hoje, ao lado de Bolsonaro, não têm nenhuma dúvida de sua missão. Na época da escrita do Terminália, ouvi isso de vários militares na Amazônia: índio bom é índio que joga futebol e que tem a bandeira do Brasil hasteada no centro da tribo. Para eles, é o que bastaria para considerá-los brasileiros.

Elena se casa com esse militar, Marcelão, também seduzida pela ideia do outro, do diferente, essa figura masculina que se revela como uma sedução urbana, ainda em Belém. Com o passar do tempo ela vai perdendo a capacidade de se reconhecer nessas relações, negociações, e vai perdendo sua essência, sua capacidade de se reconhecer. Porque o que se exige dela, dentro da estrutura militar, como esposa de um capitão do Exército, não é aquilo que ela parece ser capaz de oferecer.

Nesse livro procuro discutir a identidade nacional como uma questão insolúvel. A personagem mais brasileira ali, Elena, acaba se reconhecendo apenas ao final, quando se muda para Paris, lugar que supostamente a aceita. É uma contradição, mas a contradição ideal dos personagens complexos. Nas entrelinhas, o que se está dizendo ali é que o brasileiro só pode ser brasileiro longe do Brasil. Que, dentro do território nacional, as conjecturas de força são tão violentas que essa identidade é sempre ameaçada. Tanto mais quando a personagem se encontra num arranjo de pouca mobilidade. Aqui eu talvez prefira usar o termo negociação, em vez de mobilidade.

É a ideia, um tanto modernista, de que só se vê o Brasil de fora?

Não há como fugir. E é preciso enfrentar esse mito modernista paulista também. Veja, Oswald de Andrade publica o seu “Poesia Pau-brasil” em Paris. Acho que a ideia é do Paulo Prado, que escreve o prefácio: “Oswald de Andrade, numa viagem a Paris, do alto de um atelier da Place Clichy – umbigo do mundo – descobriu, deslumbrado, a sua própria terra”. É um movimento óbvio, você está lá, em Paris, onde ninguém questiona se você é brasileiro ou não. A sua identidade, nesse momento, pode se dar a partir do gentílico. Ao passo que, dentro do Brasil, essa identidade é sempre uma negociação, nunca está dada.

Eu estava lendo o livro novo do Joca Terron, Noite dentro da noite, e acho que ele faz isso muito bem. É um livro incontornável para essa discussão. Um livro do qual ainda vamos falar muito. Tem ali uma personagem índia, Lora-y, que se torna, já velha, pianista famosa em Buenos Aires. Um dos personagens do livro a reencontra, numa cena marcada por um tom noir, e então Lora-y pergunta: “você é brasileiro?”. E ele responde: “como a senhora sabe, nenhum brasileiro branco ou negro tem condições de responder essa pergunta”. Veja a sofisticação da resposta: nenhum brasileiro pode responder isso. Pois quem poderia, os ameríndios, esses é que não são mesmo brasileiros. São outra coisa, anterior ao Brasil.

Talvez esta seja uma questão importante, que vemos apontada por quem, de fora do país, parece querer nos enxergar melhor: democracia racional, país do futuro, essas histórias. Durante a Copa do Mundo, lembro de ter lido umas aspas de um diplomata francês dizendo que o Brasil era o país da trolagem. Outra maneira perspicaz de nos enxergar. Somos a maior fábrica de memes do planeta. Isso se dá, me parece, um pouco pela fluidez da construção da identidade que experimentamos. Basta você se relacionar com alguma coisa do Brasil para se considerar brasileiro. Mas ninguém sabe dizer o que é isso. O mito de fundação no Brasil é nebuloso. A forja dessa identidade parece ter se perdido em algum momento. O que acho muito curioso é que continuamos nos dizendo brasileiros. Mesmo quem é excluído, passa fome, na seca do sertão, mesmo quem se sabe explorado pela política, pelas oligarquias, pelo patronato. Mesmo o milionário do Jardim Europa que resolve se mudar pra Miami. Todos se dizem brasileiro. Mas é só quando você se vê fora do Brasil que se pergunta: que coisa é o brasileiro? É preciso sempre lembrar do Drummond, dizendo: “Precisamos esquecer o Brasil! / … / O Brasil não nos quer! Está farto de nós! / Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil. / Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?”

Quando estava morando em Nova York, fazendo o mestrado em escrita em Columbia, e, naquela obsessão norte-americana por origem e raça, sempre me perguntavam de onde eu vinha, as reações à minha resposta sempre eram: “ah, você é brasileiro!”. Como se o simples fato de ter vindo do Brasil significasse alguma coisa que me escapava. Depois descobri que Gilberto Freyre pensou o Casa-grande e senzala durante um doutorado em Columbia. E tem o Oswald, mas também o Gonçalves Dias, como sua Canção do Exílio escrita em Coimbra.

Hoje procuro organizar esse incômodo de outra maneira: o que me faz brasileiro não é uma vinculação à tradição ocidental, não é uma vinculação à cultura greco-romana, embora isso também exista, não é uma vinculação à Revolução Francesa, ao Iluminismo, embora isso também exista, não é uma vinculação aos ideais da Guerra Civil americana, embora isso também exista, mas há algum elemento de fundo, tem de haver… e acho interessante pensar que Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Holanda, Darcy Ribeiro, Oswald de Andrade, todos, ao tentar responder a essa pergunta, consigam propor uma versão mais satisfatória, convincente, quanto mais se aproximam do simples, de um traço de simplicidade da cultura.

Em meu segundo romance, Existe e está aqui e então acaba, na família do dono da pousada onde o narrador se hospeda no agreste Pernambucano, todos têm nomes estranhos. São nomes retirados do Raízes do Brasil. Nomes de grandes donos de terra de São Paulo no período colonial: Bixira e Tripoí, por exemplo. Os donos de terra, que eram portugueses, escravocratas, eram também bandeirantes, tinham muitos índios escravizados, e assumiam ou se deixavam ser chamados por nomes indígenas. Há uma negociação aqui que me interessou investigar ficcionalmente. Os escravos indígenas moravam dentro dessas propriedades, mesmo quando não havia violência física. Por que eles estão lá? E por que o escravocrata recebe um nome indígena e o assume? Você pode dizer, é uma estratégia de poder, para que ele tenha algum poder sobre aquela população. Isso está em boa parte da explicação das relações comerciais nos primeiros momentos da colonização, com os vínculos familiares entre portugueses e os caciques. O Jorge Caldeira fala sobre isso no seu História da riqueza no Brasil. Me parece haver aí o que eu estou chamando de negociação. É uma relação de sobrevivência, para se entender como lidar com a terra, como se curar das doenças, obter nutrientes, ser minimamente feliz num espaço em que você não sabe como ser feliz.

Vamos pensar aqui numa diferença radical com a colonização norte-americana. O Thanksgiving, que é um dos feriados mais importantes dos EUA, comemora essa associação entre os colonos protestantes da Nova Inglaterra e os indígenas. São os indígenas que mostram aos imigrantes como plantar, como utilizar elementos da própria terra para fazer crescer as plantações. Esse mito, essa história de fundação, carrega uma mensagem avessa à do Brasil. Ali não houve negociação. Houve um acordo, uma troca. Passado o segredo, os indígenas foram assimilados ou descartados na formação do novo país. Mas, no Brasil, a sensação que tenho é de que essas negociações nunca se encerraram. Não porque os imigrantes não aprenderam o que deviam ter aprendido, como cultivar a terra, encontrar a água, curar-se de algumas doenças. Mas porque o que de fato aprenderam, o que talvez seja o nosso maior legado, foi que a única coisa que precisavam aprender era negociar a existência de maneira constante.

Posso tentar formular isso de outra maneira. Se nos EUA, a exemplo da Europa, essa colonização se dá a partir da afirmação do sujeito como instância capaz de transformar e conformar o mundo ao seu redor, aqui, no Brasil, o que se dá é a conformação de que a existência só é possível num estado de permanente negociação. Negociação com o espaço, com a natureza, com os outros, numa rede muito complexa e instável. Mas que não é um pandemônio, não é um caos, porque todos se protegem nessa rede complexa que vai suavizando os impactos, se conformando em novos equilíbrios a todo momento. Sobre isso, a frase do Oswald me parece muito feliz: “A alegria é a prova dos nove”. Isso explicaria em parte um modo de vida muito particular do Brasil, do qual muitos se aproveitam, onde outros tantos são explorados, mas num jogo em que novos equilíbrios são sempre propostos. Em muitas situações é possível perguntar: quem é o explorado e quem explora?

Essa negociação não se dá a partir de um códice, de um conjunto de códigos de conduta. Esses códices existem aos montes no Brasil, e estamos vendo, veremos, no governo Bolsonaro, novos códices, ou reedições de códices antigos sendo impostos mais uma vez. Mas nem sempre eles surtem efeito. Há a prova dos nove, a prova do dia a dia, das negociações que são necessárias para que os vínculos de afeto, de identidade, de existência, afinal, se deem na sociedade. Essas negociações fogem e reagem a todas as formas de contingência e constrangimento que os grupos que detêm o poder querem impor à sociedade. E também esses grupos entendem que precisam, em alguma medida, dessa rede incontrolável de negociações para existir.

Por isso o risco de se ter militares no poder mais uma vez. Porque, talvez, eles componham o grupo que melhor resiste a esse traço característico do Brasil. O positivismo que marcou as Forças Armadas no Brasil é o que mais distante temos do Brasil. E, veja como são as coisas, são esses mesmos militares que defendem a ideia de uma Amazônia brasileira, que se sentem recompensados heroicamente quando fazem assistencialismo a tribos indígenas, quando vão lá cuidar dos dentes dos habitantes de tribos afastadas, ou quando pegam um helicóptero numa missão urgente para resgatar um índio picado por uma cobra. Já ouvi isso de mais de um militar, que pensava estar reclamando do atraso das populações indígenas, mas enchia o peito de orgulho por poder ir lá salvá-los.

 

Mas como você lida com isso como romancista? Digo, seus livros não são romances de ideia, como fazia Thomas Mann. São livros que, poderíamos dizer, se encaixam no gênero realista, não?

Sim, absolutamente. Mas a ideia do corpo, da qual falávamos há pouco, me interessa aqui. Como considerar uma cultura que não é impressa, que não produziu registros materiais ou grafados? Só para compararmos, a primeira obra judaica, a primeira coisa que um judeu fez depois de receber a palavra de Deus, foi colocar uma pedra no lugar onde ele a recebera, construiu um monumento físico que não será apagado. Essa pedra está lá em algum lugar, ninguém sabe qual é, mas está lá até hoje. Toda a cultura judaica – e depois a cristã – é toda ela preocupada com esse registro: a leitura e o acúmulo. Ao passo que as culturas africanas e ameríndias abriram mão disso desde sempre. Isso está nos meus livros, não como discussão conceitual, mas como presença física, por meio dos corpos dos personagens. Não é que essas culturas ágrafas sejam atrasadas porque não desenvolveram o alfabeto. Mas sim porque nunca houve a necessidade do alfabeto entre elas.

 

Não precisaram se impor ao meio a ponto de demarcá-lo com uma pedra, uma escrita…

Porque a negociação com o espaço sempre dizia isso: não adianta, o que você escreve não altera o real, não se impõe ao real. Em outras palavras, não há real maior do que a natureza. E esse real implica tudo, numa rede de negociações, ou, se quisermos atrair para esse campo de forças termos menos vagos, numa rede de metamorfoses à la Ovídio, que ultrapassa qualquer dimensão do real empírico ou filosófico. Mas, ainda assim, acredito que o romance realista como gênero é eficiente para se relacionar com esse estado do real, um real, se quisermos, quântico, e não mecânico.

Eu me lembro de quando estava em São Gabriel da Cachoeira, há três anos, e vi ali na parede de uma associação de organizações indígenas um calendário tucano de plantação composto por três esferas intercaladas. Em cada esfera havia um grupo referencial na natureza: uma era dos animais, a outra de plantas, e a terceira de sementes, se não me engano. Como funcionava o calendário? Para descobrir a época do ano para plantar determinada semente, diferente do nosso calendário, seria preciso girar as esferas. Quando tal árvore estivesse florescendo e tal peixe estivesse do tamanho tal, ou em época de procriação, então era a hora de plantar tal semente. Esse calendário é um símbolo muito forte dessa ideia de negociação. Não é uma coisa fixa. Você só pode plantar isso nesse momento do ciclo, caso contrário a rede não se sustenta.

 

Independente da época do ano que o calendário convencionou chamar de março ou abril…

E os agricultores sofrem muito com isso. Tem a época de plantar soja ou milho, e de repente todo mundo perde a plantação porque não choveu, porque não soube ler a floração da árvore tal, porque é uma cultura que se perdeu, e então cria-se a dependência das linhas de crédito do Branco do Brasil, de seguros para as safras. Meu irmão Renzo trabalhou durante anos com os profetas da chuva do interior do Ceará. Lá, uma vez por ano há o Congresso dos Profetas da Chuva, quando se reúnem para decidir quais são os meses em que recomendam plantar determinadas sementes. Os agricultores comerciais aprenderam e hoje também se reúnem no congresso para definir o calendário de plantação e a distribuição das águas nas bacias do sertão. Um profeta pode sugerir o calendário a partir da observação de um tipo específico de formigas, diz que viu as formigas mudando os formigueiros em tal mês e que isso significa que vai chover em março, por exemplo. O outro diz: vai chover em maio porque a planta tal não floresceu…

 

É uma capacidade de leitura também. 

É uma capacidade de leitura, mas, de novo, por que ela não pode ser dominante e normativa? Porque sempre está em negociação com algo complexo. Nunca chega a se impor. Por que existe esse congresso dos profetas? Porque os agricultores dizem: não confiamos 100% nos meteorologistas. E os meteorologistas admitem: a gente não tem capacidade de prever tudo com três, quatro meses de antecedência. Os agricultores aprenderam que, no geral, os profetas da chuva são mais eficientes. Mas é um dado que não pode ser normatizado porque todo ano vai ser diferente, assim como esse relógio das esferas tucano.

Por que estou dizendo isso? Porque parece que há uma inteligência nessa relação com coisas que não podem ser aferidas ou auferidas, mas que carregamos de alguma maneira no corpo. E aí quando digo corpo não é só o nosso corpo, estou pensando no corpo do perspectivismo ameríndio do Eduardo Viveiros de Castro, em todos os corpos. Todos os corpos têm histórias. E aprender a ler os corpos é importante pra quem precisa tirar proveito disso. Para os agricultores é um tipo de proveito. Para os romancistas, é outro proveito. Não é um privilégio brasileiro, evidentemente. Mas é algo que ainda podemos acessar e com o qual convivemos na sociedade brasileira ainda hoje.

Você, como romancista, sempre fala de um protagonista letrado, ocidentalizado, que sai da cidade e vai para uma beirada do mundo só para entender que sua racionalidade não é suficiente para compreender tudo que está ali. E parece que, tematizando isso, você acaba tematizando a própria literatura, a literatura como capacidade de dizer, entender, processar.

Eu não saberia dizer melhor. Acho que é isso. Uma saída para esse sujeito é descartar aquilo que vê, dizendo, “isso aqui é atrasado, pitoresco, exótico”, criando alguma imagem anedótica daquilo, como defesa, para se afastar e voltar trazendo fotos: “olha que curioso, olha como essas pessoas se vestem, o que comem”. Nesse caso não há contaminação, nem negociação. É uma relação xenofóbica, que a gente vê com os imigrantes na Europa e até mesmo no Brasil. “Não quero essa pessoa, porque ela me ameaça. Vou voltar pra São Paulo, pro Rio de Janeiro, pra Nova York e fingir que nada disso aconteceu”. A outra saída é procurar negociar as identidades a fim de se relacionar com o outro, de outrar-se.

Se considerarmos os meus dois romances como pertencentes ao subgênero do romance de viagem – que é um gênero essencialmente de literaturas imperialistas – fica mais fácil de compará-los a outras obras. Nos principais livros do século XVIII ou XIX em que os personagens viajam, eles nunca são contaminados pelo lugar de destino. O coração das trevas, do Conrad, por exemplo, revela um assombro com o que se vê, mas não uma transformação. E mesmo esse assombro, o personagem principal só consegue enxergá-lo quando encontra um branco que, para ele, enlouqueceu em meio ao espaço estrangeiro.

É interessante pensar no Robinson Crusoé, que naufraga depois de fazer uma visita a sua fazenda na Bahia, e ver que não há uma palavra sequer a respeito do regime escravocrata de Crusoé no Brasil. E, além disso, quando depois ele naufraga, tudo o que faz é para não se deixar contaminar pela ilha. Ao contrário, ele impõe toda a lógica do capital e do sujeito à ilha, especialmente encontrando alguém que transforma em serviçal mudo. Sem em nenhum momento desconfiar que talvez haja ali uma negociação, que os dois precisam um do outro. Por que o Sexta-feira nunca fala? Por que o Daniel DeFoe não escolheu um narrador em terceira pessoa para contar essa história e deu chance para que conhecêssemos o pensamento do Sexta-feira?

Uma anedota curiosa talvez caiba aqui. Meu pai, em determinado momento da vida, começou a trabalhar com uma companhia alemã. Ele era fluente em inglês, autodidata, mas não sabia nada de alemão. Então foi fazer um curso intensivo. Nessa época ele apareceu em casa com um papagaio. Eu ainda era criança. E quando fomos decidir o nome pelo qual chamaríamos o bicho, ele escolheu chamá-lo de Freitag, que é sexta-feira em alemão. Durante anos tivemos em casa esse papagaio, todo verde, repetindo a palavra Freitag o dia inteiro. O papagaio morreu. Mas restou comigo uma edição do Robinson Crusoé adaptado pelo Monteiro Lobato que tinha sido do meu pai quando ele era criança.

E o que tento fazer nos meus dois livros é levar isso ao extremo: qual a possibilidade de um sujeito chegar a um lugar diferente e se reconhecer como igual aos demais? O que ele precisa fazer para se reconhecer como sujeito igual? Qual é o limite disso? Existe? Somos iguais ou não? Estamos fadados à separação, à impossibilidade de compartilhar o mesmo pensamento? Ou esse pensamento não precisa ser verbal, porque não é um entendimento de palavras, é um entendimento de corpos? Qual é a memória desse corpo? E a importância desse corpo? E como esse corpo se configura nesse espaço? Como aquele poema do Bandeira, “os corpos se entendem, as almas não”.

 

É aí que seu projeto se distancia da tradição ocidental do romance, centrada no sujeito…

Essa é uma questão central e permanente. Veja, aqui talvez nos valha a pena uma outra comparação com os EUA. Tem aquele ensaio crucial do T.S. Eliot sobre o que é o clássico, em que ele defende uma linhagem direta entre a cultura greco-romana e a literatura de língua inglesa, como se fossem herdeiros diretos da cultura ocidental. Para isso, ele estabelece o Virgílio da Eneida como origem. Se quisermos avançar nessa discussão, vale a pena lembrar o que acontece na Eneida – e como o livro, um livro de pura ficção, é aceito como mito ou forja de formação do Ocidente e da cultura romana. Enéas foge de Tróia nos últimos instantes da guerra e, comandado pelos deuses, erra pelo Mediterrâneo até chegar às costas da Itália. Ali, para se instalar, tem que casar com a filha do chefe da tribo local. E, para isso, mata o pretendente à filha e assume o poder. Você tem um mito comum, de estabelecimento de culturas a partir dos vínculos familiares. Mas o que está por trás é a certeza de que Enéas cumpre um desígnio maior, divino, daí suas relações com as histórias da Odisseia e da Ilíada. De certa maneira, é como se ele traísse os habitantes locais ao não revelar qual o seu verdadeiro interesse. Até aí, nada diferente do que aconteceu nos primeiros contatos entre portugueses e os ameríndios no Brasil. A diferença estaria no propósito que dá sustentação a essa relação. Na Eneida, cumpre-se o destino maior, o destino dos povos grandes e destinados a dominar os demais, um destino imperialista que depois é reconfigurado de muitas maneiras, até hoje, pela Europa. No Brasil, que destino se cumpre? Estamos ainda perguntando. Mas voltemos aos EUA. Eles resolvem isso, de certa maneira, conformando o seu mito ao mito ocidental. Um destino maior, que serve ao sujeito colonizador, que sabe de algo que os locais não sabem, que tem um conhecimento que os locais não têm. Isso está lá na colonização inglesa, mas também, com relação ao restante do mundo, no papel desempenhado nas grandes guerras do século XX.

Meu palpite é de que esse destino não se cumpre no Brasil, isto é, não conseguimos nos vincular diretamente ao destino ocidental, porque o destino não é esse. O destino seria o dos povos ameríndios, dos povos que já estavam aqui antes da chegada dos portugueses. Mas um destino sempre metamorfoseado. Veja que nem mesmo Os Lusíadas é capaz de forjar essa vinculação direta do destino de Portugal, da herança greco-romana ao Brasil. Para Portugal, sim. Mas, para nós, brasileiros, não. Durante muito séculos isso foi motivo de desânimo e justificou todo tipo de pusilanimidade dos governantes brasileiros. Mas hoje, enfim, deve e pode ser motivo de alívio, indicar caminhos e fortalecer uma ação.

 

Para você, quem no Brasil faz esse tipo de literatura?

Já falei no Joca Terron do Noite dentro da noite, e incluo também outros contemporâneos, como a Carola Saavedra, com o seu Com armas sonolentas, a Ana Maria Gonçalves, com Defeito de cor, a Ana Miranda, e também Milton Hatoum, o Alberto Mussa, o Fabrício Corsaletti… Dos mais antigos, quase todos aqueles que ainda lemos com a sensação de estarmos encontrando algo novo a cada releitura, como o Guimarães Rosa, a Clarice Lispector, e também, é claro, o Machado de Assis.

Uma ideia que gosto de defender é a de que Capitu, no Dom Casmurro, é o próprio corpo brasileiro, que Bentinho, com sua obsessão europeia, sua constituição de sujeito racional, não consegue nunca compreender. Na infância e adolescência ele é seduzido pelo corpo brasileiro, por essa Capitu indomável. Mas depois, quando se casa com ela e quando têm um filho, ele não consegue mais participar dessa rede necessária de negociações que o corpo brasileiro exigiria dele.

Então Bentinho faz o quê, exila Capitu com o filho, da mesma maneira como Elena e a filha, no meu romance, vão exiladas para Paris. Mas Bentinho permanece no Rio de Janeiro. Por quê? Por que não o contrário, deixar Capitu no Rio e ir para a Europa o Bentinho? Há a explicação óbvia, do capital, que seu rendimento talvez estivesse vinculado ao Rio de Janeiro. Mas há outra, possível. Bentinho fica no Brasil porque precisa dessa negociação para existir, para possivelmente compreender, antes de morrer, o que foi, o que é Capitu, e por tabela, o que ele é. Mas Bentinho não consegue isso, porque é um casmurro. A prova da alegria não passa por ele.

Rosa faz isso muito bem também. Riobaldo é um personagem que está o tempo inteiro negociando. O encontro dele com o diabo é um encontro com o meio, em uma passagem enigmática. É um “coiso” que vem da natureza, que é luz, é sombra, vento, o mato. A relação dele com Diadorim é também uma relação estranha, de negociação. Não é uma relação do sujeito que quer ter o outro, que quer se estabelecer a partir dessa relação de dominação do outro.

 

E o que você está escrevendo agora? Como segue explorando essa questão?

Vou publicar um livro de poemas no começo do ano, pela Quelônio, uma editora artesanal, tocada pelo Bruno Zeni e pela Silvia Nastari e que tem editado livros excelentes nos últimos anos. E estou terminando um terceiro romance. O mais difícil que já escrevi, que jamais pude antecipar em termos de dificuldade, por conta dessa questão que para mim é indissociável da escrita: a verdade. Se aquilo que estou escrevendo não tiver uma dimensão de verdade, não vou adiante. O problema é que quanto mais você pensa a respeito, mais a verdade escapa, você precisa mergulhar mais fundo para encontrá-la. Mas não desejo nada diferente para mim mesmo. Essa dificuldade é importante. Está avançando. Continua o tema do deslocamento, do enfrentamento com dificuldades da identidade, com as regiões fronteiriças. A diferença é que a fronteira neste romance é o oceano. E o oceano impõe-se como um outro tipo de fronteira. É uma fronteira quase transcendente: daqui pra lá, eu não sou um corpo. Se eu quiser atravessar essa fronteira, eu preciso ser outra coisa. Então é mais difícil de resolver na narrativa. Nos outros dois, o que existe é um embate de personagens e narradores. Neste, o embate é transcendente. É um sujeito racional, urbano, que precisa, ao final de sua vida, compreender enfim essa difícil lição da negociação. E aí se torna complexo, porque preciso encontrar essa verdade em mim para conseguir também encontrar no livro… mas o projeto é o mesmo, vários tipos de fronteiras.

 

Com esse pano de fundo de cercar essa especificidade do Brasil que a gente não consegue nomear…

É. Dar espaço para que ela apareça. Acho que fiz isso melhor no segundo livro que no primeiro. No primeiro acho que cerquei demais, e a Elena teve que emigrar para Paris (risos). No segundo, não. O final do segundo, para mim, representa o que procuro na ficção. Esse entendimento narrativo tira a palavra do narrador, o emudece. Quando ele consegue interiorizar esse entendimento no corpo ele para de narrar e o livro acaba. Alguns leitores me disseram: o livro não tem final. Pelo contrário, é claro que tem. E esse é o único final possível. Quando ele entende, quando sente, acabou a busca. O que vai ser depois, é outro livro. Ele sentiu. Não dá mais para formular. E está tudo bem. Finalmente ele entendeu. Ele não sabe o que fazer com aquilo. Mas entendeu. Ou seja, ele não é mais diferente dos outros. Todos habitam aquele tempo, aquele espaço. Não há depois não há antes. E aquilo dura apenas um instante. Mas são esses instantes, arrisco dizer, que constroem essa malha de negociações que experimentamos.

Mas, veja, o que me interessa não é uma agenda nacionalista, de defender o Brasil. O que me interessa é pessoal: enquanto eu estiver tentando me dizer a partir do que dizem sobre mim, talvez eu nunca me diga. Eu preciso fazer uma investigação pessoal, prestar atenção ao lugar onde eu vivo, às pessoas com quem vivo, para tentar me aproximar disso. E aí essa dimensão de verdade é fundamental. Uma verdade que, acredito, pode ser perseguida de maneira privilegiada no romance. E que talvez só exista, afinal, na literatura.

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