Gilgámesh: a história mais antiga do mundo

Gilgámesh: a história mais antiga do mundo

Ler a epopeia que deixou traços na Bíblia e até nas jornadas do herói dos roteiros hollywoodianos é um vertiginoso exercício de história

Renato Prelorentzou

27 Abril 2018 | 10h43

Em 1872, o pesquisador inglês George Smith leu para o auditório da Sociedade de Arqueologia Bíblica de Londres a história gravada numa tabuinha de argila que fora descoberta anos antes, por uma expedição britânica em Mossul, no Iraque.

Datada do século II a.C., a tabuinha falava sobre Gilgámesh, poderoso rei de Uruk que, devastado com a perda do companheiro, sai em busca do dom da imortalidade, realiza grandes proezas, vai além do horizonte e encontra Uta-napíshti, o único sobrevivente do dilúvio primordial, que lhe conta como construiu a arca que o salvou das águas que inundaram o mundo.

Ao fim da jornada, depois de tudo ver e aprender, Gilgámesh volta para Uruk sabendo que a única imortalidade possível é a do conhecimento e da memória de suas façanhas.

“É provável que Gilgámesh tenha reinado de fato, por volta do século XXVII a.C., e que, em vista de seus grandes feitos, se tenha desenvolvido em torno de seu nome as diversas narrativas heroicas que se conhecem a partir do século XXII a.C.”, escreve Jacyntho Lins Brandão, responsável pela primeira tradução do acádio para o português e também pelas preciosas notas e explicações sobre a obra.

Os feitos de Gilgámesh para leitores do século XXI, pela editora Autêntica.

A história de Gilgámesh é o mais antigo poema épico de que se tem notícia, o primeiro grande clássico do mundo, com inúmeras versões em sumério e acadiano, várias traduções para além de sua origem mesopotâmica. A primeira versão do que se poderia considerar a Epopeia de Gilgámesh data do século XX a.C. A versão mais completa e clássica do poema, em que se baseia a edição brasileira, é do século XII a. C.

Narra um mundo muito distante, no espaço e no tempo: um Oriente séculos e séculos mais antigo que os mais antigos textos gregos e hebreus que fundaram o Ocidente.

Mas também fala de temas que nos são muito próximos: os dilúvios e as jornadas de heróis, os feitos e limitações dos humanos, a natureza e a cultura, amizade e amor, encontro e separação, vida e morte.

Dizem que, emocionado, esquecido da fleuma britânica, George Smith exclamou ao fim da leitura para o auditório londrino: “Sou o primeiro a ler este texto após dois mil anos de esquecimento”.

Naquela sua época, cientistas e intelectuais ávidos por descobertas pegavam carona no imperialismo das potências europeias, que impunham o máximo de seu jugo sobre a África, a América do Sul, o Oriente próximo e distante.

Suas expedições arqueológicas nas cidades do mundo antigo carregaram para os museus da Europa muito mais que as tabuinhas de argila: instalaram no Ocidente inúmeras relíquias orientais e uma concepção de história universal que colocava os europeus no ápice das civilizações. Como se eles dissessem: todos esses que vieram antes de nós, de perto e de longe, tudo deles nos pertence.

Ler história de Gilgámesh hoje, 48 séculos depois de seu reinado, reivindicar semelhanças e estranhar diferenças, é um exercício de história vertiginoso, uma reflexão sobre as forças que ligam o presente e o passado, o próximo e o distante, o que muda e o que permanece, o que o acaso e a vontade fizeram se perder e preservar.

Os papiros e pergaminhos dos gregos e romanos não preservaram nada anterior ao século IV a. C., disse Brandão numa entrevista ao Suplemento Pernambucano. As tabuinhas de argila da Mesopotâmia se provaram bem mais duráveis: guardaram textos escritos no início do terceiro milênio antes de Cristo.

“Essa é uma reflexão sobre o passado, mas que nos projeta para o futuro”, disse ele. “Quais as condições para a conservação do que se produz hoje por escrito?”. Será nosso suporte digital tão longevo quanto a argila? Nossas histórias vão durar 48 séculos?

Nossa vida cercada de telas, internet, eletricidade, motores de combustão, máquinas a vapor – essa nossa vida que começou numa revolução industrial há pouco mais de 200 anos – é um sopro diante da imensidão do passado. Uma época brevíssima, de imperialismos e revoluções tecnológicas que aceleraram o tempo e começaram a destruição do planeta – e que às vezes fazem com que esse sopro pareça um último suspiro.

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