Fragmentário e delirante, romance sobre morte de filha dá forma literária à dor do luto

Fragmentário e delirante, romance sobre morte de filha dá forma literária à dor do luto

Uma conversa com o escritor e editor Tiago Ferro, autor de ‘O Pai da Menina Morta’, romance vencedor do Jabuti e do Prêmio São Paulo de Literatura

Renato Prelorentzou

14 de fevereiro de 2020 | 11h45

Um pai testemunha a morte da filha de 8 anos. Desse acontecimento aterrador nasce uma narrativa caótica e arruinada, feita dos restos do diário desse pai que, entre o desconsolo mais absoluto e a ironia mais abrasiva, tenta voltar à vida e fazer da dor um lugar de entendimento do mundo.

A história delirante e fragmentária desse pai se confunde com a vida real de Tiago Ferro, autor de O Pai da Menina Morta, publicado pela editora Todavia.

Nascido em São Paulo no ano de 1976, Tiago é editor, ensaísta e um dos fundadores da revista peixe-elétrico e da editora e-galáxia. Com este que é seu primeiro livro, ganhou o Prêmio Jabuti de melhor romance de 2019 e o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria romance de estreia (2018).

Na conversa abaixo, Tiago fala sobre sua trajetória da perda da filha aos prêmios literários, sobre as possibilidades híbridas da literatura contemporânea e sobre a descoberta da forma narrativa que lhe permitiu expressar o próprio luto e reafirmar que a vida sempre terá potência.

Foto de Mira Cervino

Difícil não começar pelos prêmios e pela vasta repercussão do livro em dúzias de resenhas, entrevistas, artigos acadêmicos e mesas redondas. Confesso que, quando o li pela primeira vez, achei que nunca o veríamos, que você seria um daqueles autores reclusos, um Salinger, algo assim. Foram menos de quatro anos entre a morte de sua filha e os prêmios. Agora, em retrospectiva, deu para entender o que foi esse tempo inimaginavelmente vertiginoso da perda pessoal à consagração pública? Se escrever o livro fazia parte do trabalho de luto e lhe dava um sentimento de potência, terminar o livro, entregá-lo à editora, vê-lo elogiado por tanta gente, responder a exaustivas entrevistas, tudo isso lhe dá uma sensação de quê?  

Provavelmente teria mais a ver com a minha personalidade deixar o livro ganhar seu caminho sem que eu aparecesse, à la Salinger, como você diz, ou Raduan. No entanto, me parece que hoje, nesta nossa sociedade hiperconectada e do espetáculo 24/7, até esse tipo de atitude é transformada em marketing. Não há escapatória. Haveria então um toque de ridículo em me negar a divulgar o livro e aparecer nas redes discutindo outros assuntos. Quem sabe com ainda mais cabelos brancos eu consiga fazer isso?

Entregar o livro, dar o famoso “ok final” para liberar para a gráfica é morrer um pouco. Desaparece o objeto a que você passa dia e noite tentando exaustivamente dar forma. E pior: aparece novamente um vazio, mas diferente, que aquele livro que começa a trilhar seu caminho independente dos desejos do autor, já não dá mais conta, já não preenche.

As entrevistas e mesas são importantes porque divulgam o livro, isso é óbvio, mas cumprem um papel que eu não podia imaginar: explicam para mim o meu próprio livro. Eu só comecei a entender o que eu havia feito, ou as possibilidades e potencialidades reais da obra, à medida que ia tomando contato com as interpretações de leitores, críticos profissionais ou não.

Não saberia dizer se foram quatro anos vertiginosos. Houve altos e baixos. Há a vida chamando de volta para todo tipo de rotina e reconexões, há os retornos à dor e há a interminável investigação de si mesmo. Seja lá que nome a gente possa dar para essa experiência, não há como escapar da máxima milloriana: “Da vida ninguém escapa”.

 

“Eu não quero ser O Pai da Menina Morta. Eu sempre serei O Pai da Menina Morta”, diz o narrador, numa das passagens mais citadas de seu romance. Você sempre será o autor d’ O pai da menina morta?

Foi uma decisão consciente escrever esse livro, sobre esse tema, com essa forma e esse título. E agora que está feito e no mundo, posso dizer que não me arrependo. Se não estou engando, ser o autor de O pai da menina morta puxa o tapete, de vez em quando pelo menos, da identidade “o pai da menina morta”. Seja como for, é uma história que eu sigo vivendo todos os dias. E viverei até o fim.

 

Desde o princípio, você rejeitou o rótulo da autoficção. Não, não vou perguntar o que é autobiográfico e o que é ficcional no seu romance. Mas gostaria de saber: para você, o que é autoficção? E por que rejeitá-la? No atual estado da literatura e da cultura (e até mesmo da política), ainda é possível distinguir realidade e ficção? Uma ficção como a sua seria possível sem o real? Seria tão potente? Seria perdoável?

Talvez a minha visão sobre autoficção desagrade alguns críticos e também diversos autores. Paciência. Para mim trata-se muito mais de um rótulo de mercado que promete ao leitor bastidores picantes da vida do autor ou de pessoas públicas do que de um gênero necessário para pensarmos a literatura.

O que não quer dizer que a possibilidade de se criar o conceito não responda a um tempo histórico específico, que é o nosso, e que entre tantas características há a supervalorização da experiência. Com ela, claro, temos a volta do sujeito, aquele mesmo que os franceses haviam matado na década de 1970…

É nesse contexto que é “exigido” do artista se colocar mais claramente em suas obras (ou sumir questionando essa demanda). Surgem livros muito interessantes desse caldo – no Brasil há o complexo projeto artístico do Ricardo Lísias, que se fosse produzido em algum idioma dos circuitos centrais de cultura, o colocaria ao lado (ou acima!) de Houellebecq, Vila-Matas, etc.

Portanto o que eu vejo é sim uma mudança de ênfase na literatura contemporânea, mas nada que justifique a criação de um novo gênero. Quando o rótulo da autoficção é colado a uma obra, surge a leitura que inevitavelmente coteja ficção e realidade, vida e obra etc. E para mim arte é forma. Mas o mercado precisa de novidades e meios de alimentar a máquina da publicidade.

Outro caminho seria aceitar o conceito e apenas dizer que meu livro não responde a dois pilares básicos da autoficção: narrador com o mesmo nome do autor estampado na capa e narrativa em primeira pessoa.

O livro é composto por fragmentos que vão se sucedendo de maneira um tanto caótica e delirante, mas certamente nada aleatória. Parece haver muito controle e minúcia para se criar o efeito de algo disperso, errante, incontrolável, inacabado. Cuidadosa construção de uma ruína…

Gosto muito da ideia de construção de uma ruína. O livro tem isso mesmo. Como dar forma ao luto, à dor, sem usar os clichês disponíveis? Foi no próprio enfrentamento com a escrita e com a minha subjetividade que fui descobrindo a forma.

Certamente o gesto mínimo na escrita ou os textos mais delirantes são fruto de elaboração minuciosa. E chega um ponto em que você apenas sabe que aquilo está funcionando. Não para os outros, ou para o mercado, mas está funcionando ao responder a algo seu que não ganhava sentido por meio do senso comum ou das falas cotidianas.

A descoberta da forma é algo muito excitante. É como se você pisasse em um lugar que nunca ninguém antes havia pisado.

 

Sem saber muito bem como definir seu romance, muitos leitores e críticos recorrem à ideia de diário – mesmo que seja um diário caótico, em ruínas. Por que a opção pela forma diário? E, depois, por que a sua implosão? 

A opção inicial pelo diário veio do artigo escrito para a revista piauí no qual eu relatava de forma ordenada e o mais objetiva possível o que eu havia passado durante os primeiros dias após a morte da minha filha.

A implosão do diário surgiu quando eu tive que lidar com memórias e desejos, ou seja, passado e futuro. E não conseguia encaixar esse universo na ordenação racional do diário. Foi então que percebi que a morte da minha filha alterava o presente, o futuro, mas também o passado. Até mesmo o passado não vivido por mim. Tudo era filtrado pela dor daquela perda.

Mas o tempo cronológico, racional, frio e homogêneo segue existindo, e no livro a gente tem notícia dele nos restos do diário que permanecem em algumas entradas com dias da semana ou datas dispersas.

 

Outra forma evidente no livro é o ensaio – ensaio pessoal, de crítica cultural, em alguns momentos até mesmo de comentário político. Como você vê essa sobreposição entre diário, ensaio e romance? Esse hibridismo entre formas (ficcionais e não) seria uma espécie de saída para a crise do romance, da literatura?

Antes dessa primeira ficção, meus textos eram basicamente ensaios sobre cultura. O ensaio é uma forma muito específica e privilegiada de se tentar entender a realidade brasileira.

Não por acaso temos tantos ensaístas de qualidade no Brasil e alguns ensaios clássicos, mesmo depois de comprovada sua imprecisão histórica, seguem tocando algo verdadeiro sobre a nossa experiência como comunidade imaginada. O intelectual brasileiro está sempre lidando com uma enorme tralha metodológica que nos é imposta e que tentamos arranjá-la de alguma maneira que dê conta do tempo específico da periferia do capitalismo. Sendo assim, foi quase natural que o ensaio surgisse em alguns trechos do livro que buscavam situar a obra no tempo presente.

O romance hoje permite, na verdade quase exige, essa mistura de gêneros. O tempo fragmentário da contemporaneidade parece só ser captado na forma da literatura quando embaralhamos diferentes gêneros, vozes, tempos etc. O processo social (isso ainda existe?) não tem mais uma forma coerente e com sentido definido como acreditava-se ter no século 19 e que era capturado pelo romance realista daquele período. Fica a pergunta se a crise é de fato do romance ou da nossa capacidade de dar um sentido racional à sociedade.

 

Além de editor, você é pesquisador e estudioso de pelo menos dois intérpretes do Brasil: Roberto Schwarz e Chico Buarque. Como é ler essas interpretações no atual cenário do país? O que tem aí que nos explique, nos ensine e nos provoque?

Vai sair na próxima edição da revista serrote um ensaio em que proponho um certo sentimento de história que atravessaria toda a obra do Chico Buarque e que surpreendentemente encontra a nossa melhor crítica materialista.

Falando assim pode parecer sem pé nem cabeça, mas lá no final dos anos 60 Chico e Roberto Schwarz chegavam por caminhos muito diferentes a conclusões parecidas sobre o sentido da história brasileira. Eles vão se “encontrar” novamente com a publicação do Estorvo.

O que vivemos hoje está lá no livro do Chico da maneira que o Roberto o leu: uma sociedade sem classes atravessada pela delinquência. Isso estava intuído pelo Chico desde 1991 e acerta em cheio o que vivemos hoje!

 

Dá pra voltar a escrever ficção depois desse livro? Dá pra não reescrever este livro pra sempre?

Há autores que escrevem livros completamente diferentes a cada lançamento. Outros parecem estar sempre reescrevendo o mesmo e primeiro livro. Não há um caminho melhor que o outro nesse caso. Provavelmente eu me encaixo mais no segundo grupo… a descoberta de uma forma muito específica que simplesmente não há como abandoná-la.

 

Seu livro parece representar um esforço de viver e escrever depois da tragédia, depois do trauma, depois do fim – algo especialmente caro aos nossos tempos de narrativas apocalípticas. Embora ache tudo meio inútil, falso e clichê, embora questione a possibilidade de transformar trauma em arte, embora saiba que não há consolo, que nem mesmo naquela escrita haverá redenção, lá está o narrador escrevendo seu luto in progress

Apesar do narrador arrasar com tudo que vai surgindo em seu caminho, como se nada mais fosse autêntico ou fizesse sentido, o romance mostra que não há um lado de fora. O narrador também está participando do baile de máscaras que é a vida em sociedade.

Pensando dessa maneira, não há como escrever depois do fim porque simplesmente não há fim. E talvez essa seja justamente a grande dor do narrador e também do Gagarin e do Maradona (da forma muito livre como os situo no livro). Veja que são os únicos personagens com fotos ao longo do romance.

Sobre o nosso momento político e histórico, me parece que de fato o livro toca um ponto da contemporaneidade: a ausência de futuro. Pode ser que esse seja a questão de contato forte com diferentes leitores. O progresso pela primeira vez em toda a modernidade virou sinônimo de tragédia, ganhou um sinal negativo. E para o enlutado acordar a cada dia é mergulhar novamente no sofrimento. Estar vivo é ruim e não há sinal de melhora.

Se só nos resta seguir escrevendo, isso só faz algum sentido quando reconhecemos nossa frágil (mas real) bolha de proteção da classe média e nos lembramos da frase do Benjamin: “É somente em nome dos desesperançados que nos é dada esperança”.

Não podemos nos dar ao luxo de desistir.

Para outras histórias e ficções, me acompanhe no Facebook, no Instagram ou no Twitter.  

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: