Ficção científica de Philip K. Dick descreve um mundo dominado por fascistas

Ficção científica de Philip K. Dick descreve um mundo dominado por fascistas

Em ‘O Homem do Castelo Alto’, romance de realidade alternativa publicado há cinco décadas e meia, Dick fala sobre escolhas pessoais e suas consequências sob regimes autoritários

Renato Prelorentzou

21 Setembro 2018 | 15h37

O ano é 1962. Há campos de concentração e extermínio em todo o mundo, câmaras de gás em Nova York. Os poucos judeus que conseguiram escapar vivem escondidos sob identidades falsas. Os negros foram escravizados. Minorias acabaram mortas ou marginalizadas. Velhos e doentes, intelectuais e opositores desaparecem nas mãos do regime. Mulheres e homossexuais continuam sofrendo discriminações e violências.

É 1962 e, em O Homem do Castelo Alto, romance de realidade alternativa de Philip K. Dick, passaram-se quinze anos desde que a Alemanha e o Japão venceram a Segunda Guerra Mundial.

‘O Homem do Castelo Alto’, de 1963, publicado pela editora Aleph.

O que interessa a Dick nesse universo paralelo – e o que torna o livro ainda mais assustador – não são os jogos de poder internacional, mas sim o cotidiano de personagens que tentam tocar a vida num Estados Unidos rachado em territórios sob governos fascistas de alemães e japoneses.

Debaixo da aparente normalidade, mal se disfarça a violência de uma sociedade pobre, desigual e hierarquizada, repleta de um medo e uma paranoia que disseminam ódios racistas e nacionalistas.

A sacada mais instigante de O Homem do Castelo Alto é que dentro de seu mundo ficcional existe um outro mundo, expresso nas páginas de um outro romance: O gafanhoto torna-se pesado, livro que foi banido no lado alemão e circula clandestinamente no lado japonês. Escrito por um romancista misterioso e recluso, o tal homem do Castelo Alto, narra um “presente alternativo”, em que os nazistas não venceram a guerra.

Para os personagens de Dick, o mundo descrito em O gafanhoto só pode ser uma ficção, pois o desfecho da Segunda Guerra era inevitável: alemães e japoneses estavam destinados à vitória e os Aliados, fadados à derrota – como se a história estivesse decidida, escrita desde sempre.

Mas, para uma dessas personagens, não por acaso, uma mulher, uma leitora, a história é outra: ela se lança a uma leitura destemida de O gafanhoto e, ao fim desse livro perturbador, descobre a chave que explica seu mundo e aponta para uma saída.

No meio de tantas personagens que se sentem indefesas e impotentes diante do próprio destino, a leitora representa a ideia de que a história sempre pode ser mudada – sempre está a ponto de mudar – pois é uma sucessão de acasos e escolhas pessoais que têm consequências para todos. Para o bem e para o mal.

Quem fala de Hitler como o inequívoco vilão do século XX nem sempre se lembra de que o partido nazista chegou ao poder pelo voto, em 1932. De que o Führer, ex-militar de discursos furiosos e simplistas, só se tornou chanceler da Alemanha com o apoio de políticos tradicionais e de milhões de eleitores alemães.

Os primeiros talvez o vissem apenas como um líder ignorante e meio ridículo, cujos arroubos poderiam ser facilmente controlados e instrumentalizados por seus interesses. Os segundos talvez o enxergassem como resposta radical, necessária, para os desesperadores índices de desemprego, criminalidade e corrupção.

Se alguém lhes alertasse para o que iria acontecer dali a quinze anos, os apoiadores de Hitler talvez dissessem que era mimimi, exagero – coisa de ficção científica e distópica.

Mas as consequências de seus atos pessoais não são ficção, são história: uma vez eleito, Hitler deu sucessivos golpes, eliminou os políticos com quem fizera aliança, tomou poderes ditatoriais, perseguiu, segregou, exterminou, fez a guerra e o Holocausto.

A ficção científica vai muito além das tramas tecnológicas ou confrontos intergalácticos. Narrativas de realismo especulativo, como esta de Dick, partem da projeção de mundos paralelos, linhas temporais alternativas que lemos com um misto de alívio e horror: esse cenário (ainda) não aconteceu, mas e se…?

E se um pequeno incidente – um vídeo, um meme, uma facada, um voto?

E se uma variação mínima e plausível no curso dos acontecimentos desencadeasse consequências incontroláveis e levasse a um futuro bem diferente daquele que hoje parece imaginável?

A ficção especulativa nasce dessa pergunta e, por isso, ressalta o peso das escolhas nos momentos críticos: a cada escolha se abre um futuro – veredas que se bifurcam.

No momento de crise econômica e descrença geral no governo e na democracia, os alemães recorreram às promessas vazias do nazismo. Queriam ordem. Tiveram barbárie. Não dá para dizer que não foi uma escolha.

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