Festival Literário de Poços de Caldas segue sua missão de incentivar a leitura no Brasil

Festival Literário de Poços de Caldas segue sua missão de incentivar a leitura no Brasil

Uma conversa com Gisele Corrêa Ferreira, curadora do Festival Literário Internacional de Poços de Caldas, sobre os destaques e expectativas da 14ª edição do Flipoços

Renato Prelorentzou

18 de abril de 2019 | 08h10

Entre 27 de abril a 5 de maio acontece o Festival Literário Internacional de Poços de Caldas, já reconhecido como um dos melhores projetos de incentivo à leitura e à formação de um público leitor e consumidor de livros no Brasil.

Sob a curadoria de Gisele Corrêa Ferreira, o Flipoços chega à 14ª edição com o tema “Literatura sem Fronteiras” e a proposta de estreitar os laços entre a literatura brasileira e a latino-americana. Para tanto, este ano tem como patrono o professor, crítico literário e autor Jorge Schwartz, que fará uma conferência sobre o escritor argentino Jorge Luis Borges.

Na programação, além de autores e autoras da Colômbia, Portugal e Estados Unidos, marcam presença nomes como Mário Sérgio Cortella, Nelson Motta, Fernando Gabeira, Mary Del Priore, Eucanaã Ferraz, Gabriela Aguerre, Emilio Fraia, Ronaldo Bressane, Xico Sá, entre outros.

A programação também conta com uma mesa que irá discutir a realidade do mercado editorial e o futuro das livrarias e editoras no Brasil.

Na conversa abaixo, Gisele fala sobre os destaques e as expectativas da 14ª edição do festival e sobre a importância de iniciativas como o Flipoços no atual cenário da cultura brasileira.

O Flipoços chega à 14ª edição com o tema “Literatura sem Fronteiras”. Qual é a ideia por trás da escolha desse tema e a expectativa para o festival?

Foi um caminho bem pensado para chegar à 14ª edição da Feira e do Festival Literário Internacional de Poços de Caldas. Felizmente, conquistamos nosso espaço e estamos entre os principais festivais do Brasil. Mais que isso, apresentamos um festival com muito conteúdo, compromissado com o pensamento, o diálogo e o conhecimento. E, a cada ano, buscamos destacar um tema que também dialogue com as outras artes e que permeie todas as atividades da nossa programação.

Nesta edição, destacamos a literatura latino-americana, para nos aproximar dos nossos vizinhos de chão, com quem temos poucas relações. O slogan “vamos ultrapassar as fronteiras do Brasil, sem sair desse chão, e redescobrir parte da nossa origem cultural na literatura hispano-americana” expressa esse desejo de aproximação.

A literatura sempre foi e sempre será uma ponte entre os povos. Descobrimos coisas de outros países e culturas através dos livros, mesmo sem nunca termos visitado o local. Para além dessa forma de expandir horizontes, a cultura latina é intrínseca à nossa formação. Nosso comportamento, nossa forma de agir e de pensar e muitas de nossas expressões, como o cordel, tão forte na nossa cultura, vêm dessa relação com os latino-americanos.

Quais são os destaques da programação deste ano?

Sempre procuramos trazer convidados “âncoras”, que tenham novidades para lançar em primeira mão aqui no Flipoços. Teremos Mário Sérgio Cortella, Mary Del Priore, Eucanaã Ferraz, Elisa Lucinda, Gabriela Aguerre, Pedro Gontijo, Claudio Thebas, a portuguesa Alexandra Lucas Coelho e o colombiano Alonso Salazar.

Isso sem contar outras grandes personalidades que também estarão aqui, mas sem lançamentos inéditos, como o patrono Jorge Schwartz, Nelson Motta, Fernando Gabeira, Emilio Fraia, Zeca Camargo, Cristina Serra, Fernando Scheller, Dante Gallian, Allan de Abreu, Fernando Villalba, Ronaldo Bressane, Décio Zylbersztajn, Xico Sá, Evandro Affonso Ferreira, entre outros.


Uma das tradições do festival é dar espaço tanto a autores reconhecidos quanto a novos talentos. Faz parte da missão de incentivar a leitura no país? O que você pode falar sobre os novos talentos que já foram “revelados” pelo festival e sobre as “apostas” deste ano?

O Flipoços talvez seja o festival literário brasileiro mais eclético, diverso e apartidário de todos. Para nós, o que realmente importa é dar oportunidade para as pessoas despertarem para a importância da leitura. Sou da opinião de que, quanto mais nos aproximamos dos escritores, mais ficamos inebriados por essa atmosfera do desejo de ler. E aqui, além do festival, contamos com a Feira Nacional do Livro, com mais de 80 expositores, entre livrarias, editoras e afins, oferecendo milhares de títulos a preços ótimos.

Poços de Caldas recebeu em 2015 o honroso título de cidade com o maior índice de leitores de todo Estado de Minas – e, proporcionalmente, do Brasil. Tenho plena convicção de que nosso festival tem um peso preponderante nessa estatística.

Além disso, nossa cidade é um grande celeiro de autores. Desde o seu surgimento, em 1872, Poços tem histórias muito interessantes ligadas à literatura e aos escritores. Grandes nomes da literatura brasileira nasceram, morreram ou passaram por aqui. E isso deixou uma marca indelével em nossa cidade.

É exatamente por isso que valorizo tanto os novos autores. O Flipoços também é considerado um festival “pé quente” (risos), porque vários nomes que passaram por aqui acabaram se tornando mais conhecidos, como o caso do Alex Sens, por exemplo, que esteve aqui há três anos, recebeu vários prêmios nacionais desde então e agora volta à cidade, com lançamento inédito.

Em 2019, aposto na Gabriela Aguerre, uruguaia que vive no Brasil há mais de trinta anos e acabou de lançar O quarto branco, seu primeiro romance, que já recebeu várias críticas sensacionais. O Flipoços será o primeiro festival de que ela vai participar. Anote aí: a partir daqui o mundo vai passar a conhecê-la (risos).

Gisele com Ariano Suassuna, na Flipoços 2011

O festival é bem diverso nos temas e também nas formas de participação. Além das mesas em si, tem oficinas, lançamentos de livros, concursos, mostra de cinema e, claro, a Flipocinhos e a 14ª. Feira Nacional do Livro de Poços de Caldas…

O Festival e a Feira são eventos que se complementam e, como nosso objetivo é de fato atrair um número cada vez maior de pessoas para o universo do livro, da leitura e da literatura, essa fórmula que traz várias atividades – para todos os gostos, faixas etárias, estilos e vontades – faz do Festival e da Feira de Poços um grande sucesso. Certamente a experiência, tanto para o público visitante, quanto para o público expositor, é sempre muito prazerosa. Aqui o público encontra de tudo um pouco e sempre volta para casa com um livro novo.

 

Falando em público, quais são os perfis e os interesses das pessoas que passam pelo festival?

A visitação realmente é bem grande, e temos percebido um aumento significativo de pessoas de várias partes do país. O público é muito diverso e bastante interessado. Recebemos um grande número de crianças e jovens de escolas de mais de oitenta cidades da região. Poços é a maior cidade do sul de Minas, um polo comercial e turístico. Hoje, o Flipoços é um grande produto cultural e turístico regional que Poços de Caldas tem o orgulho de oferecer para toda a população. É, sem dúvida, uma grande festa de livros e autores de todo o Brasil.


Muito se fala de uma crise do mercado livreiro, atingindo redes de livrarias e editoras. Como o festival pretende discutir essa questão?

A crise abalou as estruturas do mercado editorial como um todo – e, claro, também os autores, que viram seus projetos sendo engavetados pelas editoras. No entanto, apesar da “quebradeira” em cascata, enxergo uma luz no fim do túnel e percebo uma movimentação interessante em vários pontos do mercado.

Por exemplo, as pequenas livrarias, sobretudo as de rua, estão voltando a dar as caras, como locais mais aconchegantes e intimistas. Isso me parece bacana. Outro aspecto que observei, sobretudo na organização, foi uma enorme procura das editoras maiores e médias pelos espaços da Feira do Livro de Poços de Caldas. Realmente, foi uma demanda bem maior que a de três, quatro anos atrás. Em 2018 já sentimos uma procura grande, mas, em 2019, foi muito acima da expectativa. Porque na nossa feira os expositores vendem de verdade. E, se você pensar que tudo isso acontece nesta cidade agradabilíssima, com uma programação fantástica e um monte de gente bacana, fica melhor ainda.

Além disso, o Flipoços se tornou um importante ponto de encontro para os players do mercado. Teremos mesas sobre o mercado editorial, o futuro do livro e os editores. E ainda uma mesa “café com leite”, com os secretários da Cultura de Minas Gerais e de São Paulo, Marcelo Landi Matte e Sérgio Sá Leitão, sobre cultura e economia criativa.

 

Muito se fala também de uma crise na educação e na cultura diante das políticas do novo governo. Como vocês se colocam diante disso e qual é o papel de eventos como a Flipoços nesta realidade?

Na verdade, sempre existiu crise na educação e na cultura, em maior ou menor proporção. O Brasil tem muito a avançar na educação. E acho impossível dissociar a educação da cultura, pois, quanto mais educação o cidadão tiver, mais cultura ele buscará. Na prática, os fazedores de cultura do país andam meio à margem, porque em alguns casos somos mesmo marginalizados, mas se houvesse mais aderência da população à cultura, os governos em geral respeitariam mais esta área.

As políticas dos governos para o livro, a leitura, a literatura e as bibliotecas, em âmbito nacional, estadual ou local, precisam andar alinhadas e focadas na democratização do acesso. Para isso, o trabalho em conjunto com entidades diversas – inclusive com iniciativas privadas, como é o meu caso – precisa receber estímulo e apoio para dar continuidade aos projetos.

Ora, se os mecanismos de fomento à cultura – como, por exemplo, as leis de incentivo – são questionados e desmoralizados, como podemos dar continuidade aos projetos culturais? Infelizmente, muitas empresas não apoiam iniciativas culturais por livre e espontânea vontade, mas porque recebem algum benefício.

Felizmente, apesar de toda crise e incerteza que vivemos em relação ao futuro da cultura no país, seguimos firmes em nosso propósito de transformação da sociedade através do livro, da leitura e da literatura. O Flipoços tem uma missão importante e eu não vou abrir mão disso.

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