Escritora estreante ganha prêmio literário com romance sobre perdas na vida de uma mulher

Escritora estreante ganha prêmio literário com romance sobre perdas na vida de uma mulher

Uma conversa com a autora de ‘O peso do pássaro morto’, um dos romances contemplados pelo Prêmio São Paulo de Literatura

Renato Prelorentzou

18 de janeiro de 2019 | 08h21

Aline Bei nasceu em São Paulo no ano de 1987. É formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e em Artes Cênicas pelo Teatro Escola Célia-Helena.

Participou de oficinas de escrita criativa do escritor Marcelino Freire e, em uma delas, ganhou o Prêmio Toca, que lhe deu o direito de publicar pelas editoras Nós e Edith.

Uma vez publicado, O peso do pássaro morto recebeu o Prêmio São Paulo de Literatura, na categoria estreantes com menos de 40 anos – junto com Oito do sete, de Cristina Judar (estreantes com mais 40 anos) e Assim na terra como embaixo da terra, de Ana Paula Maia (Melhor Livro do Ano).

Na conversa abaixo, Aline responde por e-mail a questões sobre seu processo de criação, sua relação com a poesia e o teatro e o papel da literatura nos dias de hoje.

Estava pensando em apresentar seu livro como um romance de formação em que acompanhamos o monólogo de uma mulher dos 8 aos 52 anos de idade, mas não sei se é só isso… Talvez pudéssemos começar essa apresentação com a história da origem do título do livro, não?

eu acho que diria assim, diria que o livro é uma história sobre perdas que jamais eu teria escrito se não tivesse lido aquele poema da [Elizabeth] Bishop, “One Art”. acho que nunca pensei tanto no verbo perder depois que li aquele texto, pra mim um dos mais bonitos do mundo. tem também o livro do [João Anzanello] Carrascoza, Aos 7 e aos 40, que me fez pensar em dividir uma história pelas idades da personagem. o que quero dizer com tudo isso? que escrever, pra mim, é Ler.

 

À primeira vista, seu livro parece um romance em versos, com um estilo próprio na escolha das palavras e na maneira de espalhá-las na página. Ao quebrar as frases e fazer um uso particular das maiúsculas e minúsculas, você vai criando efeitos, jogando com os sinais, as lacunas, o ritmo e o sentido. Dá muito o que pensar sobre as distâncias e proximidades entre o romance e a poesia. Como você vê a relação entre esses gêneros? O que poderia falar sobre esse estilo a que você chegou?

na verdade o estilo nasceu de uma decepção: quando comecei a escrever eu pensava que era poeta, não sou.

ainda assim, notei que era possível, dentro da minha voz, usar alguns recursos da poesia, pra me ajudar a narrar. uma grande referência é o poeta e.e.cummings.

Além do hibridismo entre romance e poesia, não haveria também uma aproximação com o teatro? Porque seu texto parece escrito para ser lido em voz alta. Como se fosse um poema. Mas também um monólogo a ser encenado.

sim, muito. toda a minha formação se deu no teatro. nasci a partir dele.

A trajetória de sua narradora é muito própria, incomparável. Mas, ao mesmo tempo, fala sobre uma condição compartilhada por mulheres desta e de outras gerações. Vem do ofício de atriz essa capacidade de se colocar no lugar do outro, de assumir outras falas, outras vozes?

toda vez que vou começar a escrever uma cena

eu sinto o mesmo que sentia quando entrava em cena, como atriz.

o exercício é sempre o de se colocar em situação, a diferença é que o ator usa o corpo e o escritor a palavra.


E, para completar a pergunta anterior, mas só se você quiser: em que medida essa história é sua também? Falamos sobre o hibridismo entre romance, poesia e teatro, mas não sobre um outro hibridismo, tão em voga nos dias de hoje, aquele que se dá entre ficção e não ficção. 

o Pássaro é um livro de ficção.

mas é a minha ficção, por isso ele também é pessoal, o processo de escrita é assim.

 

O peso do pássaro morto parece mostrar como um acontecimento mínimo pode pesar, como um acaso infeliz pode mudar vidas inteiras – especialmente as mais vulneráveis, as vidas de mulheres. “todo mundo está sorrindo e eu precisando contar pro menino tanta coisa, a maioria triste”, a narradora diz. Mas, pouco depois, ela relembra: “um bebê no mundo também precisa saber das histórias bonitas”. É um livro sobre o aprendizado das perdas, sobre a perda como medida das coisas. Ao mesmo tempo, parece afirmar uma coragem diante daquilo que o destino reserva a cada um, a cada uma. Afinal, um bebê, um leitor, todo mundo também precisa saber das histórias bonitas.

e o bonito, a beleza, sempre carrega uma certa melancolia.

Você, seu livro, sua editora, o prêmio que você conquistou, tudo parece simbolizar um novo momento na literatura brasileira: não só o novo momento do protagonismo feminino (não me lembro de um prêmio tão importante quanto o São Paulo contemplar três mulheres de uma vez) mas também a ascensão das pequenas editoras, dos novos modos de circulação dos livros e das leituras. Dizem que você vendeu alguns milhares de livros na raça mesmo, de mão em mão, de porta em porta, perfil em perfil, buscando leitores nas redes sociais e depois empacotando e enviando cada exemplar. Você pode falar um pouco sobre ser mulher no mundo literário e sobre o sucesso dessas novas formas de criar e divulgar literatura? Acho que seria bem inspirador.

separo meu dia em 4 partes: de manhã escrevo, de tarde vou nos correios.

fim de tarde vendo meus livros

de noite embrulho. há quase dois anos. de segunda a sexta.

Aproveitando esse gancho, acho que a gente poderia falar um pouco sobre o processo de escrita do seu romance. Qual foi a relação desse processo com os textos curtos (poemas, minicontos, fragmentos de narrativas?) que você posta nas redes? Mais que isso: como e quando você entendeu que era hora de publicar? O que significou para você essa publicação e o prêmio que veio com ela?

foi o Marcelino Freire que me disse, está na hora. acho que se ninguém tivesse me dito eu teria demorado mais.

sempre respeitei muito o objeto livro, pensava que só poderia publicar quando me sentisse pronta. com o Marcelino entendi que nunca ninguém está pronto, publicar faz parte do processo.

 

Seu romance dá visibilidade a temas como perda, bullying, abuso, violência contra a mulher. Estes nossos tempos tão sombrios ressuscitaram um debate sobre o papel da arte em geral e da literatura em particular. Hoje não são poucas as vozes defendendo que as artes tenham, para além do estético, um compromisso ético, em defesa de cada indivíduo, sem distinção de classe, credo, etnia ou gênero. “A gente tem que estar com um livro na mão, e não com arma”, você disse no discurso de agradecimento. “É livro! Literatura salva. Me salvou”. O que dizer sobre o papel da literatura hoje e o sentido de escrever num país assim, num mundo assim? 

diz Faulkner, o que a literatura faz é o mesmo que acender um fósforo no campo no meio da noite. um fósforo não ilumina quase nada, mas nos permite ver quanta escuridão existe ao redor. 

 

O final de seu livro chama muita atenção, porque se pressente aí uma passagem para a literatura fantástica. Você disse que começou a escrever sem saber o fim da história. Mas o que você acha que a levou a esse fim?

uma casa que conheci, de um amigo meu. era uma casa fantástica, velha, ressoava as histórias e as almas de todos que passaram por ali. aos meus olhos, pelo menos. aquela casa parecia um castelo, eu não conseguia memorizar os cômodos.

 

É curioso notar como quase todas as resenhas se encerram numa espécie de aposta-profecia sobre seus futuros trabalhos. Como é escrever, agora, com essa expectativa? 

tento deixar essas coisas do lado de fora. como disse Andrea Del Fuego, escrever é pegar um elevador que só desce. eu tento pegar o elevador.

 

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