Escritora brasileira parte da literatura para refletir sobre presente e futuro do mundo

Escritora brasileira parte da literatura para refletir sobre presente e futuro do mundo

Uma conversa com a escritora Tatiana Salem Levy, autora de ‘O mundo não vai acabar’, uma coletânea de ensaios sobre a necessidade de resistência e esperança nos nossos tempos

Renato Prelorentzou

20 de setembro de 2019 | 10h09

“Basta olharmos à nossa volta para termos certeza: o apocalipse é aqui e agora, parece que nunca se sentiu tanto que agora é pra valer, agora vai, agora acaba”. Ao longo da história, porém, sempre houve alarmes sobre o fim dos tempos. “O mundo acaba sempre, é verdade. Mas não acaba nunca”.

É assim que Tatiana Salem Levy abre seu livro O mundo não vai acabar, publicado pela editora José Olympio. Trata-se de uma coletânea de ensaios breves que a autora vem escrevendo para sua coluna no jornal Valor Econômico desde 2014, além de textos inéditos.

Entre o comentário político, a leitura de obras literárias e os relatos autobiográficos, Tatiana se põe a pensar sobre temas urgentes, como o Brexit, Trump e Crivella, as crises econômica e política no Brasil, os conflitos no Oriente Médio e a escalada da xenofobia, da homofobia e da misoginia por todo o planeta. Como fio condutor, a necessidade de conhecimento e esperança para interpretar e enfrentar o mundo de hoje.

Escritora, roteirista e doutora em letras, Tatiana assinou os romances A chave da casa (Prêmio São Paulo de Literatura 2008), Dois rios e Paraíso, além dos livros infantis Curupira Pirapora (Prêmio FNLIJ) e Tanto mar (Prêmio ABL) e do ensaio A experiência do fora: Blanchot, Foucault e Deleuze.

Na conversa abaixo, ela fala de seu livro, sua maternidade e sua convicção de que onde há literatura, há mundo.

Tanta coisa aconteceu nesse pouco tempo desde a publicação de O mundo não vai acabar que, lendo o título de seu livro agora, a primeira coisa que me ocorre é perguntar se você mudou de ideia.

Veja bem: que o mundo vai acabar, é certo. Em algum momento, ele acaba. Mas não vai acabar hoje, e é porque o mundo (ainda) continua que temos a obrigação de pensá-lo. De fazer dele um lugar melhor para se viver e de retardar o seu fim. Como diria o pensador indígena Ailton Krenak, precisamos de ideias para adiar o fim do mundo.

Para ser sincera, acho que demos um passo a mais na nossa obsessão por essa terrível ideia de progresso. O progresso é outro nome para a necessidade humana de não parar. Mas, sinceramente, acho que, nos tempos atuais, aquilo de que mais precisamos é parar. Parar de consumir tanto. Parar de estragar tanto. Parar de correr tanto. Parar para pensar, para sentir. E sobre essa suspensão do tempo, sobre a pausa, a cultura indígena tem muito a nos ensinar. Lembra da música do Caetano? O índio que surge para nos ensinar o óbvio? O índio, mais avançado do que a mais avançada das mais avançadas tecnologias…

Agora, que o que estava ruim se agravou no Brasil, isso é verdade. Difícil ser otimista em tempos sombrios. E longe de mim querer ser a Poliana que vê sempre o lado positivo das coisas.

Eu não vejo nada de positivo em ter um governo que está corroendo a democracia, um governo que está nos levando para séculos atrás no que diz respeito aos direitos das minorias. Um governo racista, homofóbico, misógino, que queima a Amazônia, destrói as reservas indígenas… não há nada de bom nisso.

Descobrir o quanto somos o espelho desses homens que nos governam? Descobrir que por trás da falsa ideia de miscigenação há um racismo sem fim? Ou que sempre fomos autoritários? Não vejo nada de bom nisso. Mas acho fundamental falarmos sobre o que o Brasil verdadeiramente é. Um país só muda quando se dispõe a pensar sobre si mesmo, a rever a sua História.

 

Desde a epígrafe, lemos aqui e ali passagens que reafirmam seu otimismo e que, sobretudo, aproximam esse otimismo da maternidade: “O mundo não pode acabar justo agora que vou ter um filho. E tem que ser melhor do que tem sido até hoje”. Acreditar se torna um dever, uma responsabilidade – mais uma na interminável lista das responsabilidades – para quem gera uma criança no mundo de hoje? Ter filhos, hoje, é, também, um gesto político?

Primeiro, o otimismo. Não acho que seja a palavra certa. Otimista é aquele que vê sempre o lado bom das coisas. Como disse acima, não é bem por aí. Prefiro a ideia de resistência. A ideia de lutar por um mundo melhor apesar do mal.

Agora, sobre ter filhos: gerar uma criança sem acreditar no mundo seria de um egoísmo terrível. Você não gera para si mesmo. Gera para dar vida a outro ser. Se você acha que esse mundo não tem saída, que vai ficar cada vez pior, para que colocar uma criança nele? Se eu não gostasse da vida e do mundo, apesar dos fascistas que andam por aí, eu certamente não teria tido filhos. Em muitos casos, o mais honesto, com a criança e com os pais, é não ter filho.

Mas, apesar das muitas conquistas do feminismo, as meninas ainda são criadas para se tornarem mães, e é muito difícil escapar a esse destino. Desde pequenas, aprendem a cuidar dos outros, a cuidar de suas bonecas, ouvem perguntas sobre maternidade… Mesmo nos meios mais esclarecidos, a mulher que opta por não ter filho tem sempre que enfrentar uma batalha, tem que se justificar… E isso num mundo tão povoado quanto o nosso, que realmente não precisa de mais gente.

Portanto, se é político… Tudo é, num certo sentido, político, mas acho que nesse caso é uma política subjetiva, que diz respeito ao desejo dos pais, à vontade de educar, à vontade de ter prazer, de dar prazer. Eu não tive filhos para mudar o mundo. Tive porque queria tê-los, porque sempre amei crianças, sempre gostei da ideia de transmitir valores, de educar. Mas se eu os tive, seria muito egoísta simplesmente dizer: “Não acredito no mundo. Agora se virem!”…

No livro, você fala que vivemos num período de transição e que isso “significa que estamos num tempo que já acabou, e em outro que ainda não é (o tempo da espera, diria Blanchot)”. Esta parece ser a grande pergunta, não? O que fazer enquanto esperamos uma criança crescer, enquanto esperamos o mundo… ?

Para te responder a essa pergunta, eu teria que voltar aos textos de Blanchot, porque a maternidade nos tira a memória de uma forma assustadora. E, contraditoriamente, vou te dizer que agora não tenho tempo para isso… Mas eu diria que a espera em Blanchot tem a ver com uma suspensão, tanto do tempo quanto do espaço.

Nós não esperamos uma criança crescer… a gente vive ao lado da criança enquanto ela cresce. Outro dia eu estava pensando na contradição temporal que é ter filhos: nunca o tempo passou tão depressa quanto tem passado desde que me tornei mãe. Realmente, tempo é uma coisa que não me sobra mais.

Às vezes, eu penso: Nossa, meu filho mais velho já vai fazer 4 anos… Aí me lembro como a infância passa devagar. Que nenhum tempo futuro na vida dos meus filhos vai passar tão devagar quanto este, que para mim passa tão depressa… A percepção do tempo é mesmo subjetiva. Mas, por ter essa consciência de que a infância é o tempo que dura para sempre, eu tento fazer, naquilo que me é possível, com que a dos meus filhos seja a mais prazerosa possível.

 

“Um dos possíveis remédios contra o fanatismo? Injetar imaginação nas pessoas”, você escreve, comentando o livro Contra o fanatismo, de Amós Oz. Imaginação. E humor. E empatia. E, claro, literatura. Numa entrevista, você disse: “Tudo é falta de leitura e reflexão”. Ao mesmo tempo, nunca lemos tanto, nunca discutimos tanto, nunca tivemos tanto acesso às vozes e às vidas dos outros nas redes. Não é contraditório? 

Será que nunca lemos tanto? O que eu chamo de leitura aqui não é ler posts de redes sociais, mensagens de WhatsApp, comentários de Instagram… nem é ler pedaços de notícias aqui e acolá.

Acho que cada vez se lê menos no sentido de ler um texto, seja de jornal, de ficção, de não-ficção, do início ao fim, com espírito crítico, aberto para uma determinada experiência. Ler não é simplesmente juntar uma letra a outra e uma frase a outra. Mais uma vez, a leitura exige tempo, e tempo é o que nos falta… tudo isso em nome do tal progresso…

Mas acho que todos aqueles que amam o que fazem puxam a sardinha para o seu lado. Eu fui educada, numa versão bem romântica do Humanismo, a me dedicar àquilo de que eu mais gostava.

É claro que isso é uma extravagância que só a elite pode se permitir. Eu nasci nessa elite e, ao contrário de outras pessoas que a compõem, optei não por fazer aumentar o dinheiro do mundo, mas por seguir aquilo que me interessava mais. E o que me interessa mais é aquilo que me apaixona mais. Aquilo que me faz me sentir mais viva e acreditar mais no mundo. Portanto, acho mesmo que a literatura pode ter esse papel de distribuir saúde para uma sociedade tão doente – e para governantes ainda mais.

 

Nossa geração nasceu no fim da ditadura, cresceu na hiperinflação, amadureceu na prosperidade e, nos últimos anos, vem vivendo sob a mais profunda política e econômica. Mais que qualquer outra geração sentimos na pele a euforia e a deprê de um Brasil Breve, que chegou a experimentar alguma estabilidade econômica e política, algum avanço social e institucional. Seria um sinal de que, para nós, destino íntimo e futuro coletivo estão entrelaçados como nunca, de que não dá mais para separar autobiografia e história, particular e universal?

É impossível não pensar no particular. Não vivemos no universal todas as horas do nosso dia. Mas é claro que os dois se misturam. O público controla o corpo privado, como dizia Foucault. Tudo está misturado e contextualizado. É impossível sair de fato ao nosso tempo.

Mas olha só… eu vivo há mais de seis anos em Lisboa. Meus filhos nasceram aqui. Vim para cá no início de 2013, quando o Brasil estava bombando e Portugal vivia uma crise econômica profunda. Vim por razões estritamente pessoais. Me apaixonei e vim. Não era o melhor para o meu trabalho, mas eu quis vir.

Eu sempre fiz questão de deixar bem claro para o meu marido que, se um dia, tivéssemos um filho, eu queria que ele passasse ao menos parte da infância no Brasil. Porque eu acho que o Brasil tem coisas incríveis, é um país extremamente vivo e criativo, muito mais do que Portugal.

Mas aí eles nasceram, houve o golpe, Bolsonaro ganhou, e eu não tenho o menor desejo de levá-los para aí. De tirá-los de um país com um governo de esquerda, escola pública, saúde pública, para ir viver no Rio de Janeiro…

Há um lado disso que é muito estranho para mim, porque eu sou brasileira. Posso ter nascido em Lisboa, ter documentos portugueses, mas eu sou brasileira. Mas o Vicente… ele faz questão de dizer que é português. É estranho isso, né? Ter um filho que pertence a um país que não o seu… mas é interessante também, porque é aquilo que eu disse, não temos filhos para nós mesmos.

Enfim, pessoal e público se misturam até nas pequenas decisões. Se agora Portugal estivesse na mesma situação de 2013 e o Brasil idem, talvez os meus filhos fossem se tornar brasileiros… Para você ver como a política atua diretamente na vida de cada um.

 

Uma certa sobreposição entre história pessoal e coletiva também lhe marca a obra ficcional, sobretudo A chave da casa, seu primeiro e mais aplaudido romance, que conta a história de perseguições e exílios a partir de uma trajetória familiar e autobiográfica. Como você se vê escrevendo nesse lugar entre a ficção e autobiografia – e também entre o romance e a crítica, a literatura e ensaísmo de periódico, a ficção e a não ficção?

Eu não diria que escrevo entre a ficção e a autobiografia. Eu escrevo narrativas. São narrativas de ficção, mas a escrita passa sempre pelo meu corpo, e passar pelo meu corpo é passar pelo que há de mais substancial em mim. Nesse sentido, por mais que eu escreva histórias inventadas, ou histórias dos outros, essas histórias passam sempre por mim quando escrevo. Mesmo que eu esteja ausente de mim. Ainda assim, essa ausência de mim está tomada da presença física que é o corpo. Toda escrita de ficção, para mim, passa pelo corpo.

Talvez isso seja o que mais distingue meus romances dos meus ensaios, das minhas colunas. Acho que são pessoas diferentes que os escrevem. Não é a mesma Tatiana. A crítica é uma Tatiana muito mais cerebral, uma Tatiana que gosta de estudar, de pesquisar. A outra é uma Tatiana mais da experiência. Agora, às vezes as duas Tatianas se encontram, e aí é quando eu escrevo, na minha opinião, as melhores colunas.

 

E, por falar em ficção e não ficção, há um novo romance em andamento?

Romance quase pronto! Só faltam os ajustes. É um romance muito violento, que fala do corpo da mulher, do ser mulher, e também do ser mãe, da transmissão silenciosa das experiências de geração em geração. Aquilo que passa mesmo quando não foi contado. Este é um dos temas que está presente em todos os meus livros.

 

O último texto da coletânea é “Sobre a ternura”, uma reflexão em torno de Victor Heringer, poeta e escritor que morreu em março de 2018. Uma das tristezas dessa breve anacronia que é ler seu livro hoje parece se expressar nesta sua frase: “Bom saber que Victor Heringer ainda nos presenteará com livros tão bons ou melhores que O amor dos homens avulsos”. Enfim. Escrever é amar as coisas que estão para desaparecer? 

Que tristeza a morte do Victor… Eu não chegue a conhecê-lo. Nós trocamos algumas mensagens, mas foi só. Quer dizer, nós nos lemos, que é também a forma mais próxima de se estar de um autor.

Eu fiquei profundamente abalada com a morte daquele homem tão bonito, tão doce e terno, daquele escritor tão visceral. De fato, foi um desses momentos em que tudo parece sombrio demais. Fiquei com vontade de convencê-lo a não fazer isso… Eu e um monte de gente, toda uma comunidade quis abraçar o Victor quando já era tarde. Claro que isso dá uma tristeza, um sentimento de impotência. Parece que falhamos. Que poderíamos ter feito alguma coisa por ele.

Agora que já não há o que fazer a única coisa que podemos fazer por ele é continuar lendo o que ele nos deixou – será isso o otimismo?

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