Em novo manual, o mais experiente professor de criação literária ensina a escrever ficção

Em novo manual, o mais experiente professor de criação literária ensina a escrever ficção

Uma conversa com o escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, criador da mais célebre oficina de escrita criativa do país e autor de ‘Escrever ficção – um manual de criação literária’

Renato Prelorentzou

31 de maio de 2019 | 11h36

Violoncelista, romancista, ensaísta e cronista, Luiz Antonio de Assis Brasil tem vinte livros publicados, um vasto currículo acadêmico e, desde 1985, ministra a Oficina de Criação Literária da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, a mais célebre do país, origem dos cursos de graduação, mestrado e doutorado em escrita criativa da PUC-RS.

Agora, o escritor e professor acaba de transformar em livro o curso que, ao longo de 34 anos, formou centenas de ficcionistas e vários dos maiores nomes da nova geração, como Carol Bensimon, Daniel Galera, Luisa Geisler e Michel Laub. O resultado é Escrever ficção – um manual de criação literária, publicado pela Companhia das Letras e escrito com a colaboração de Luís Roberto Amabile.

A partir da análise detalhada de obras ficcionais clássicas e contemporâneas, Assis Brasil apresenta as muitas possibilidades dos recursos narrativos e, nesse embalo, ensina ferramentas úteis ao ofício do escritor.

Além disso, no correr de quase quatrocentas páginas, desconstrói mitos que envolvem a escrita – como o do “talento natural” e do “estilo próprio” – e questiona as noções que falsamente contrapõem a técnica à criatividade, o planejamento à espontaneidade, o rigor ao prazer na escrita.

Na conversa abaixo, Assis Brasil fala sobre as transformações da literatura nas últimas décadas e, com a experiência de quem escreveu tanto e viu tantos escreverem, responde: por que, afinal, alguém escreve?

Foto de Raul Krebs

Em 34 anos, o senhor formou gerações de ficcionistas. Isto o colocou numa posição privilegiada para observar a produção literária das últimas décadas. Nesse tempo, o que mudou nos alunos? E na literatura? É possível identificar transformações, modas, tendências?

Pensando nas tendências literárias desse período, talvez o mais relevante a dizer é que assisti ao nascimento, auge e declínio da autoficção. Foi uma grande e empolgante aventura intelectual. Mas tive um raro bom-senso: o de alertar aos meus alunos de que se tratava de uma moda, e moda, se sabe: não se exagera, nem se deve ser o primeiro a adotá-la, nem o último a largá-la. Os que pensaram no assunto, esses, alteraram seus rumos a tempo e sobreviveram; os outros ainda estão atascados numa via estreita, condenados a publicarem o mesmo livro ano após ano. Mas são poucos.

Por outro lado, observei uma notável alteração na idade dos meus alunos: são mais jovens, inclusive alguns ainda são pré-acadêmicos. Mas a mudança de atitude pessoal foi notável: se antes eram pessoas que procuravam “melhorar o texto”, somando sua vocação a algum ofício “sério” que lhes desse meios de ascensão social, hoje não: são pessoas que abandonam tudo para se dedicarem de modo profissional à literatura. Chega a ser assustador e, para mim, me assalta uma perturbadora sensação de que posso frustrá-las.

No caso específico da oficina, são jovens que se instalam em Porto Alegre, vindos do Norte, do Nordeste, enfrentando por um ano um frio do cão, gastando o dinheiro que muitas vezes não têm. E se der errado? Tento não me impressionar em demasia com essa possibilidade, tarefa impossível.

Mas ainda dentro deste tema: são escritores extremamente preocupados com a forma, algo inesperado para mim. Os autores, a partir do Modernismo, não davam muita importância para isso, pois o que interessava era o conteúdo, nada mais que o conteúdo; agora, não, os novos escritores tornaram-se siderados pela boa frase, pela elegância sintática, pelo léxico rico e exato; isso chega a tal ponto que tenho de alertá-los para o risco do esteticismo, o qual é sempre estéril.

E sim, as redes sociais, os blogs literários, vieram a trazer novos parâmetros textuais, que sofrem a incisiva influência da língua inglesa e também da cultura norte-americana – eles adoram citar letras de músicas americanas nas epígrafes. Não vejo qualquer problema nisso, pois é um momento de original renovação, e não apenas no plano linguístico-expressivo; houve uma impressionante atualização das referências narrativas, no plano dos teres e haveres do volátil mundo contemporâneo. É um verdadeiro acervo de novos conhecimentos.

Por tudo isso, eu entendo melhor o nosso tempo lendo os ficcionistas do que abrindo jornais ou lendo artigos acadêmicos. Ainda a anotar: as perspectivas conteudísticas se alteraram nesses 34 anos. Hoje é raro que algum escritor manifeste interesse pelo que se denominava, há pouco, de “temática social”; hoje, isso é visto como o tedioso ranço derivado do debate ideológico da Guerra Fria. Não me pergunte as razões dessa mudança; não sei responder, embora tenha algumas hipóteses em que não acredito muito. Talvez seja necessário passarem algumas décadas para que possamos avançar nesse tópico.

Uma coisa que não posso deixar de anotar: observo como, de modo crescente, a literatura é sujeito da própria literatura. As personagens centrais são, não raramente, escritores. São abundantes as citações de outros autores, às vezes, inclusive, saturando o texto. Observei também, nesse longo tempo, o surgimento de um fenômeno, o da efemeridade das carreiras literárias, que hoje sobrevivem em torno de duas décadas, se tanto; logo surgirá um novo gênio, “comparável a Joyce ou Kafka”, e talvez esse Kafka tenha uma vida útil que durará apenas uma temporada, o que é uma perversidade, pois ele pode ser, de fato, um autor de exceção.

Grande parte de nosso público se tornou novidadeiro, volúvel, irrequieto, impaciente, que gosta de operar com critérios de hipódromo: quem é o melhor (no momento)? Quem está vendendo mais (livros)? Sempre comento com meus alunos que eles não devem ficar deprimidos se não fizerem sucesso com o primeiro livro, nem que fiquem exultantes em demasia com a glória instantânea – esse é um quadro que irá se alterar no segundo livro. E terá curta duração. Já vi muitos ex-alunos caírem nessa armadilha. O melhor é apostar em ser cada vez melhor na competência literária; só isso é capaz de proporcionar uma autêntica e durável alegria.

Em tom de conclusão: o breve quadro que tracei pode transmitir uma impressão algo sombria, mas esse é um sentimento comum a quem considere qualquer período estético; não posso negar, entretanto, minha insuperável satisfação de poder assistir a tudo isso, e mais: o de ser, de algum modo, participante ativo nessa fatia de tempo literário que me coube viver.

O senhor já disse que só iria se aposentar quando visse a escrita criativa consolidada no país. Por que essa longa resistência ao ensino da criação literária por aqui? E o que explica o crescimento das oficinas nos últimos anos? 

O quadro atual é o seguinte: hoje, todo escritor é, ao mesmo tempo, um professor de oficina literária, as quais são abertas a cada esquina. Sem dúvida, uma grande mudança e, a meu ver, para melhor – desde que o professor/autor tenha uma obra reconhecida e um consistente e experimentado magistério que o autorizem a isso. Enfim, que tenha estrada.

Mas é inegável que ainda existe, embora com menor vigor de há três décadas, certa resistência aos laboratórios de texto, e esse problema radica nas universidades rotineiras e engessadas, que não percebem a consolidação da escrita criativa no mundo todo, mais especialmente no espectro anglo-saxão. E por parte de alguns escritores de mais idade, a resistência advém de preconceito e de certo elitismo intelectual – sem falar, é claro, na cristalização do pensamento conservador, “por que mudar, se assim está bem?” Mas, no fim das contas, entre grandes avanços e tímidos recuos, temos dado bons passos na institucionalização acadêmica – e não acadêmica – das experiências na área.

 

Um bom escritor precisa se desdobrar em várias vozes? Ou precisa encontrar apenas a própria voz?

Penso que o escritor não deve se preocupar em encontrar sua própria voz. Se for vocacionado, isso acontecerá ao natural – mas também não sei se isso é da essência do ato da escrita. O Millôr, na sua página da revista O Cruzeiro, tinha uma invariável frase de abertura: “Enfim, um escritor sem estilo!”. Certo estava ele. O leitor não dá a mínima importância à fidelidade estilística de seu escritor preferido. O que importa é a qualidade literária do texto, e não se ele guarda alguma consonância com os textos anteriores.

Essa é uma ideia que tenho tratado com meus alunos, na intenção de baixar o nível de ansiedade da turma. As preocupações já são muitas para quem escreve, não será muito útil acrescentar mais uma. Meu livro, implícita e explicitamente diz isso – e é o que pratico nas minhas aulas.

 

Como ajudar alguém a desenvolver a escrita afastando a ideia de “estilo próprio”? O senhor se equivocou alguma vez? Acha que já estragou ou desencorajou alguém?

Tenho culpas no cartório, como todo mundo. E algumas, graves, decorrentes do não entender o que se passava com algum aluno, sem me dar conta de que o problema não era literário, e sim de outra natureza, pessoal e afetiva. Nos outros casos, tive de lidar, e às vezes mal, com a transferência de peculiaridades psicológicas para mim, peculiaridades que se destinavam a outras pessoas, é claro.

Procuro ser o mais profissional possível, mas nem sempre é fácil ter a sensibilidade de separar as coisas e agir na hora certa. Não sei se cheguei a estragar alguém – isso só a pessoa deve avaliar e concluir. No plano técnico, contudo, tenho certeza de que me atrapalhei em alguns juízos, por talvez não entender algumas mutações estéticas.

Eu, por exemplo, implicava com as reiterações textuais e com a inclusão de índices informativos na narrativa ficcional. No primeiro caso, eu dizia que era um brutal erro estilístico estar a repetir palavras; no segundo, que tudo deveria passar pelo fio da consciência da personagem. Hoje, esses procedimentos outrora “anômalos” são corriqueiros e, aliás, eu mesmo os utilizo na minha própria ficção.

Como a tendência atual é perpetrar conscientemente barbaridades e depois pedir cínicas desculpas públicas, faço um mea culpa, mas juro que meus equívocos derivaram de conceitos que, na época, me pareciam os mais adequados na escrita literária.

 

Boa parte do livro se dedica à personagem, àquilo que dá consistência, movimento e sentido a qualquer história. Daí a importância de que a personagem tenha uma “questão essencial”, seja tão complexa quanto uma pessoa de verdade. Voltando à autoficção: não seria essa intrusão do (auto)biográfico uma maneira de garantir que a personagem tenha questões tão profundas como as que afligem as pessoas? Mais que isso: a autoficção não seria um sintoma de nossa incapacidade de imaginar vidas – sobretudo vidas diferentes das nossas? Pior ainda, talvez: a autoficção não seria um sintoma de nossa desconfiança diante das histórias apenas inventadas? De que a mera a ficção se tornou insuficiente? 

São muitas e inteligentes perguntas. Tentarei ser econômico nas respostas, ressaltando que tenho imensas dúvidas quanto a estas. Insisto que a autoficção tour court é página virada. Proponho uma espécie de discutível pensamento que leva em conta a proporcionalidade: se na “autoficção tradicional” a “auto” ocupava 90% do texto, hoje ocupa 30% ou menos – o mesmo que ocupava na escrita antes do surgimento da autoficção.

É uma espécie de retorno a um parâmetro a que os leitores estão habituados e, a propósito, valorizam. E isso independe do uso da primeira ou da terceira pessoa – desde que haja uma focalização interior. As preocupações com as questões da alma humana são o Leitmotiv da literatura desde que esta existe. Pense-se em Hemingway, um escritor “tradicional”, comparado com a literatura de nossos dias: é esmagadora a presença de suas experiências vitais em suas obras. O mesmo com Kerouac, com Doris Lessing, com Bukowski, com Virginia Woolf. Quero, portanto, dizer: os escritores sempre se colocaram em seus livros, em maior ou menor intensidade. O resto, parafraseando as últimas palavras do jovem príncipe da Dinamarca, o resto é a técnica.

 

Em entrevistas e depoimentos, seus ex-alunos sempre se lembram de que na Oficina aprenderam, sobretudo, a ler. Além de confirmar a importância da leitura para a formação do escritor, isso parece se ligar a uma questão mais ampla, que o senhor chegou a enfrentar como secretário da Cultura do Rio Grande do Sul. O que significa aprender a ler e a escrever ficção num país que vive uma calamidade na educação? Diante do discurso de ódio contra as humanidades, como explicar a importância da criação literária na sala de aula?

O problema central de nossa educação é a leitura, ou a falta dela nos projetos (e há projetos, meu senhor?) da área. O ensino da escrita, que considero essencial, virá como consequência. Mas não temos tempo de esperar que isso aconteça em sucessão; são ações pedagógicas que devem ser simultâneas.

O melhor exemplo que conheço é o francês, no Curso Normal (para formação de professores), em que um dos pontos mais relevantes é a escrita criativa, e nesse sentido valorize-se o protagonismo percursor de Claudette Oriol, que deixou marcas que chegam até hoje. Um professor motivado e, em especial, conhecedor dos processos pedagógicos na área da escrita criativa é, sempre, o grande ideal.

Reconheço que estamos a distâncias galácticas desse patamar, mas é preciso, e é possível, começar a mudar o quadro brasileiro atual, que é catastrófico e constrangedor, que nos envergonha perante as demais nações. Não precisamos ir muito longe: nosso vizinho Uruguai é um exemplo de boa política pública no plano educacional e, em particular, na leitura e na escrita literária.

 

“Nunca ou quase nunca os manuais de escrita criativa consideram a humanidade do ficcionista como algo que interfere decisivamente em seu trabalho”. Este parece ser o traço distintivo de seu livro: o “fator humano”. Não se trata apenas de um compilado de técnicas e ferramentas, mas, sim, de um acompanhamento das questões que levam em conta a pessoa que escreve, seu entusiasmo, suas frustrações, seus sentimentos. Foi isto que lhe ensinaram as décadas de Oficina? Que as vicissitudes de quem escreve são tão importantes quanto sua técnica? 

Digo sim a tudo. Eu me espanto que os manuais, mesmo os mais celebrados mundialmente, não pensem nisso. As técnicas, posto que imprescindíveis, não passam de meios que conduzem à expressão do humano. Sou um obcecado pelas técnicas, quase um neurótico, mas nunca perco de vista o caráter instrumental de que se revestem.

Por isso é que digo, no final do livro, que se alguém aprendeu algo com ele, só será ficcionista por completo quando o esquecer. É como pilotar um avião ou construir um armário depois que a técnica é conhecida. O que importa é que o voo seja suave e que o armário sirva para guardar roupa. E, sim, todo ficcionista, por ser um ente humano, e ente humano dotado de sensibilidade extraordinária, é vítima de cotidianos ups and downs, que derivam da noite mal dormida, do amor não correspondido, da dor de dentes, da alegria que observa no rosto de uma criança ou do fato de fechar (ou não) as contas no fim do mês.

Tudo isso interferirá no ato da escrita, de uma forma ou outra. Para alguns, esse exercício é torturante, dramático, e inclusive pode levar à paralisia criadora, temporária ou definitiva. Conheci alguns escritores em que isso era dolorosamente visível, tal como em Caio Fernando Abreu.

 

Não é difícil imaginar que todos esses anos de experiência com o ensino de criação literária tenham de alguma maneira influenciado a escrita dos seus próprios romances, que o professor, como lembra o clichê, também tenha aprendido com os alunos. Como o senhor enxerga toda a relação entre escrever e ensinar escrita? 

Tenho de pensar, espere aí. (Volto depois de quinze minutos). Não quero incidir na soberba de dizer que eu separo olimpicamente as duas coisas. Afinal, sou feito de razão e sensibilidade. Por outro lado, não quero ser demagógico, dizendo que aprendo tudo com meus alunos – se assim fosse, eu escolheria o mais vocacionado deles e pediria para ele dar aula, e eu me sentaria entre os alunos; não sei se eles gostariam desse arranjo.

É inegável, entretanto, que o diálogo de sala de aula é, às vezes, epifânico. Os alunos, especialmente agora que são tão jovens, trazem à aula as novas tendências culturais, trazem o léxico em ação, trazem o modo atual de entender as relações humanas – o mundo de hoje, enfim. Disso não posso abrir mão. Há inúmeros momentos em que fico fascinado pelo que me dizem. E, claro, isso irá, de alguma forma, impactar na minha própria literatura, nem poderia ser diferente.

 

“A questão toda da arte é que ela é insuficiente. Sempre foi. Não por nada um escritor publica um livro, depois publica outro, depois publica mais um”, o senhor disse numa entrevista. “A palavra é muito precária, é muito pobre, não consegue dizer tudo. Quando terminei meu último, eu sabia que não era o livro que eu queria ter escrito”. O senhor, que escreveu tanto e viu tantos escreverem, talvez consiga responder: se a palavra é falha e insuficiente, por que alguém escreve? 

Cada escritor terá sua própria resposta. Vejo desde aqueles que me dizem que desejam salvar o mundo até aqueles que dizem que querem ganhar dinheiro. No meio esses dois insanos extremos, há aqueles que dizem que o escrever fará com que sejam admirados, e, quando não, amados. Pode ser que a resposta esteja mais ou menos por aí. Uma dose de narcisismo, mas, também, de generosidade, quando acrescentam: quero ajudar as pessoas a viverem melhor. Mas confesso, um pouco hiperbolicamente, que, por vezes, a escrita é uma maldição, que nos leva pensamentos patéticos como este: por que tenho de ficar em casa, escrevendo, nesse domingo tão bonito? Por que fico uma semana aplicado na resolução de um único parágrafo?

 

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