Em nova coletânea, ensaístas escrevem ensaios para refletir sobre o que é o ensaio

Em nova coletânea, ensaístas escrevem ensaios para refletir sobre o que é o ensaio

Uma conversa com o escritor e professor Paulo Roberto Pires, editor da revista ‘serrote’ e organizador do livro ‘Doze ensaios sobre o ensaio’, leitura fundamental para quem quer compreender o gênero

Renato Prelorentzou

15 de junho de 2019 | 09h26

Excêntrico, escapadiço, sinuoso, diverso, incerto, provocativo, livre, feliz. Em seus séculos de existência, o ensaio acumulou incontáveis adjetivos, mas, fugidio, segue se definindo sobretudo pela indefinição.

Algumas das mais interessantes, influentes e fecundas tentativas de compreender o gênero estão no livro Doze ensaios sobre o ensaio, organizado por Paulo Roberto Pires e publicado pelo Instituto Moreira Salles – para comemorar os dez anos e as trinta edições da serrote, a revista de ensaios do IMS.

Colunista, romancista, professor da Escola de Comunicação da UFRJ e editor da serrote, Paulo Roberto foi fiel à diversidade do gênero e escolheu contribuições de doze ensaístas do século 18 ao 21, da América do Sul ao Leste Europeu.

Alguns se esforçam para identificar os traços formais e históricos do gênero fundado por Montaigne em 1580. Outros preferem encarar o ensaísmo como uma “atitude mental”, uma certa postura diante do mundo – algo visto desde os diálogos de Platão até o vídeo-ensaio dos dias de hoje.

De um jeito e de outro, são doze possibilidades de ensaio, doze reflexões ao mesmo tempo vastas e íntimas com que os ensaístas tentam explicar para nós e para a si mesmos o que é – ou não é ou poderia ser – o ensaio.

Na conversa abaixo, Paulo Roberto Pires arrisca mais algumas definições sobre o gênero, fala sobre suas relações com outras formas de escrita e explica por que o ensaísmo continua sendo espaço de crítica, liberdade e imaginação.

A antologia começa com Jean Starobinski perguntado se é possível definir o ensaio e termina com Christy Wampole respondendo que não. Mas, de um a outra, os diversos autores e autoras não se cansam de ensaiar definições possíveis – umas mais teóricas, outras mais fantasistas, todas bem poéticas. É preciso escrever um ensaio para dizer o que é o ensaio?

Todo ensaísta se dedica, em algum momento, a definir o que faz – assim como todo autor da crônica brasileira escreve uma crônica sobre a crônica. É, acho, uma consequência do fato de que tanto um quanto outra nasceram numa terra intermediária entre os gêneros estabelecidos. Mas não acho que o ensaio “vá mais longe” do que outros gêneros. Ele é a própria negação de que exista um lugar a se chegar, uma conclusão bombástica ou uma qualidade superior de acuidade intelectual em sua forma de reflexão.

Ensaio é mais caminho do que chegada, mais viagem do que destino. Ensaio é literatura de viagem e a melhor literatura de viagem é sempre ensaística na medida em que é a mistura de narrativa e meditação livres sobre experiências. Uma mistura, montaigniana com certeza, de vivência e reflexão.

 

A primeira serrote veio a público em março de 2009. O país mudou muito, o mundo mudou muito – mudou também o ensaio? De tudo o que você descobriu de antigo e viu surgir de novo nesses dez anos, das incontáveis possibilidades de ensaios de todos os tempos, como foi possível escolher os 12 dessa antologia, os 379 que a revista já publicou?

A antologia sistematiza uma orientação que procurei dar à revista desde o número 6, o primeiro que editei: sempre que possível, publicaríamos ensaios sobre o ensaio, numa tentativa de provocar discussões nem sempre presentes em nossa vida intelectual – na qual o ensaio é muitas vezes confundido com o trabalho acadêmico.

A escolha dos ensaios a serem publicados sempre se deu por dois parâmetros básicos: buscar o que é importante e continuava inédito no Brasil ou mesmo em português (como, por exemplo, o fundamental “Notas de um filho nativo”, do James Baldwin, ou “O ensaio e sua prosa”, de Max Bense) e apostar no que é “novo” e, portanto, incerto mesmo.

Meu critério nunca foi o currículo lattes ou o passaporte dos autores, ou seja, a mim pouco importam eventuais títulos e vínculos acadêmicos, dados biográficos e muito menos nacionalidade.

O que mudou o curso das edições nesse tempo foi mesmo a emergência de discussões políticas mais urgentes. Fizemos vários números “a quente”, interpelando a vida brasileira imediata, e ao que tudo indica faremos muitos mais, enquanto for preciso enfrentar a escalada do obscurantismo.

 

Por falar em trabalho acadêmico, como a universidade brasileira repeliu, acolheu e transformou o ensaio? O que explica a força e a fecundidade do ensaísmo de Sergio Buarque, Gilberto Freyre, Antonio Candido, Roberto Schwarz…?

A necessidade, mais do que legítima, de profissionalizar a vida acadêmica teve um efeito colateral básico sobre a produção intelectual: a desvalorização da especulação livre de métodos e amarras que é própria do ensaio.

É claro que não se pode nem se deve prescindir de rigor, mas é importante identificar o ponto delicado em que o rigor se torna rigor mortis, rigidez cadavérica. É triste passar os olhos em textos coalhados de jargão, cheios de penduricalhos que fazem reviver a metáfora de Edmund Wilson, para quem as notas são arame farpado em volta de um texto.

Mas, é claro, não se trata pura e simplesmente de forma e estilo, mas do princípio de que o trabalho intelectual convide o leitor à reflexão, o inclua pela clareza de raciocínio e expressão, sem baratear o que é complexo.

A “força e a fecundidade” dos autores citados se devem obviamente à importância do que escreveram mas também, ou sobretudo, ao fato de serem lidos permanentemente por especialistas e pelo público culto e interessado que Gilberto Freyre mirava quando criou a coleção Documentos Brasileiros, cujo primeiro volume foi Raízes do Brasil. Um dos princípios inegociáveis do ensaísmo é a necessidade de falar diretamente ao leitor.

 

Se o ensaísmo perambula pelo território cada vez mais inóspito entre a imprensa e a academia, como fica a produção do ensaio diante da crise do jornalismo e a das universidades? O ensaio está condenado a ser a produção lateral, residual, de gente dedicada a outras coisas? Ou, pelo contrário, tende a crescer por seu dinamismo, sua legibilidade?

E.B. White dizia que o ensaísta tem orgulho de ser um “cidadão de segunda classe” na República das Letras, sua escrita é linha auxiliar de uma produção principal. Esse negócio de se retirar para uma torre como Montaigne ou refletir no mato como Thoreau é história e não seria conveniente que se repetisse como farsa ou mesmo como metáfora.

É improvável e seria cabotina uma deliberação do tipo “pronto, a partir de agora vou ser ensaísta”. O que se pode esperar é que, em meio à imprensa e à universidade em crise, encontre-se a hora e o lugar para ir mais longe nas reflexões, escrever de outra forma, propor novas discussões.

O ensaio não nasce de um programa coletivo, mas de decisões individuais que devem ser estimuladas, por exemplo, dedicando-se editorialmente a publicar o gênero, como faz a serrote. Mas a revista não tem nenhuma pretensão de orientar nada.

Num certo sentido, ensaísmo é serendipity, uma certa disposição que permite descobertas ou acasos felizes. Ensaio não cai do céu, é certo, mas também não está pronto numa prateleira. É preciso estar predisposto a, por exemplo, ver numa simples curiosidade um caminho intelectual que pode ou não resultar numa reflexão.

 

O ensaio, escreveu Lucia Miguel Pereira, é “filho tardio do Renascimento”, nasce do indivíduo renascentista para expressar sua opinião pessoal contra os dogmas, numa época em que “tudo deveria ser reexaminado, desde as questões metafísicas até os menores gestos cotidianos”, em que nada mais escaparia “à percepção do homem, que se sentia afinal a medida de todas as coisas, senhor de si e do mundo”. Mas, com tudo o que vemos hoje nas redes, será que essa afirmação do indivíduo diante das verdades estabelecidas foi longe demais, desandou? Onde a coisa se perdeu a ponto de a primazia do gosto, da opinião e da experiência individual virar justificativa para os maiores descalabros, para a recusa da razão e do real?

Em “O ensaio como forma”, Adorno diz que o ensaio desanda quando tem em mente uma clientela. E cita o escritor admirável que foi Stefan Zweig, um homem de espírito crítico incansável, que escreveu ficção e ensaio, se arvorou em interpretar o Brasil, fez uma pequena biografia de Montaigne (seu último livro, escrito em Petrópolis) e a um dado momento passou a produzir em massa sobre qualquer tema que lhe desse na telha ou simplesmente falasse a seus leitores fiéis e, por consequência, ao bolso.  É claro que Zweig não é só isso, mas este é um aspecto que Adorno observa muito bem.

A coisa se perde hoje sobretudo no chamado “ensaio pessoal”, muito popular nos Estados Unidos, em que o autor parte de sua experiência imediata, concreta, para propor uma reflexão mais geral. James Baldwin foi um mestre no gênero e sabia como ninguém fazer a passagem do plano pessoal para o coletivo. A maioria não sabe e publica, como ensaio, as mais patéticas viagens em torno do próprio umbigo.

Nem vale a pena ficar citando nomes esquecíveis. Mas é importante destacar duas escritoras contemporâneas que são craques nessa vertente: Roxane Gay, autora de Fome, e Leslie Jamison, de Exames de empatia.

 

Há um outro gênero que nasceu da afirmação do indivíduo e que também escapa às definições, que se caracteriza pela diversidade, que avança sobre terrenos vizinhos, que tudo incorpora, discute e reelabora: é o romance. Seria coincidência a simultânea ascensão do romance e do ensaio na mesma Inglaterra do século 18? Se o romance ascendeu sob o signo do realismo, o que dizer sobre a maneira como o ensaio aborda o real? E o que dizer sobre as obras que fundem estes que talvez sejam os mais maleáveis de todos gêneros? 

O prodigioso ensaísmo inglês dos séculos 18 e 19 é marcado pelo encontro direto do ensaísta com o leitor, leitor de periódico, que o escritor consegue imaginar do outro lado da mesa quando está escrevendo. É muito mais veloz do que o romance no sentido de atingir o seu público, mas aponta quase sempre para uma limitação, que é a das experiências compartilhadas.

O sucesso de Hazlitt, Lamb e do “ensaio familiar” é o sucesso da nossa crônica, o “familiar” é precisamente o que pode ser compartilhável: é Lamb escrevendo sobre o convalescente, Hazlitt sobre o prazer de odiar e Rubem Braga sobre o velho caderno de telefones que foi perdido. Há aí especulação literária, é claro, mas também a necessária âncora do real.

A maleabilidade do romance, por outro lado, foi se provando infinita e os vínculos com essa experiência compartilhada, relativos. Quanto às fronteiras, não nos esqueçamos de que Proust começa a escrever a sério o que seria um ensaio, que seria publicado postumamente com o título Contra Sainte-Beuve, mas a um determinado momento se dá conta de que o material que tinha nas mãos era um “romance” (aspas necessárias). E que ali começa a Recherche, que é um monumento ao hibridismo da escrita.

 

“Não salta aos olhos que todos os grandes ensaístas foram também críticos? Não salta aos olhos que todas as épocas marcadas pelo ensaio foram também épocas críticas?”, Max Bense se pergunta em dado momento da antologia. Mais perto do fim, Christy Wampole continua: “Acredito que a longevidade do ensaio hoje se deva principalmente a este fato: o gênero e seu espírito são uma alternativa ao pensamento dogmático que domina grande parte da vida política e social na América contemporânea”. O ensaio seria, então, parte da resposta a este nosso estado de coisas?

Como eu disse anteriormente, o ensaio não é um projeto coletivo. Ele é uma infestação e é assim que ele reage ao mundo, às barbaridades do mundo, às épocas críticas.

Na antologia, destaco a hipótese de Germán Arciniegas: o Velho Mundo tem em sua formação as guerras, que são como tratados; o Novo Mundo foi berço de revoluções, que se assemelham ao ensaio. A revolução, diz ele, é um ensaio armado. E o ensaio, nos sugere, uma pequena revolução possível, que se não muda um mundo, pode, sim, mudar uma cabeça. O que, convenhamos, não é pouco.

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