Elena Ferrante na vida, nos livros e na série ‘A Amiga Genial’, da HBO

Elena Ferrante na vida, nos livros e na série ‘A Amiga Genial’, da HBO

Uma conversa com a psicanalista e crítica literária especialista em Elena Ferrante sobre a obra da escritora italiana e sua adaptação para a série da HBO

Renato Prelorentzou

21 de dezembro de 2018 | 10h12

Fabiane Secches é psicanalista e acaba de concluir um mestrado sobre a obra da escritora italiana Elena Ferrante, com uma dissertação intitulada ‘Uma longa experiência de ausência’, pelo Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo.

Integrante do Grupo de Pesquisa em Crítica Literária e Psicanálise da USP, habituada a escrever sobre literatura, cinema e psicanálise para a Revista Cult, a Folha de S. Paulo e outros veículos, ela é uma das maiores estudiosas de Ferrante no Brasil.

Na conversa abaixo, Fabiane fala sobre a relação entre literatura e psicanálise, sobre o compromisso de Ferrante com a verdade narrativa e sobre a adaptação da tetralogia napolitana para a série ‘A Amiga Genial’, da HBO.

Fabiane Secches em foto de Felipe Abe

De onde vem seu interesse pela obra de Elena Ferrante e pela relação entre escrita e psicanálise?

Encontrei A amiga genial em uma livraria de São Paulo, ao acaso, em 2015. O livro tinha acabado de ser publicado no Brasil. Gostei de saber que era de uma escritora italiana e me sentei em uma poltrona para folhear. Desde então, sigo lendo e relendo a obra de Ferrante. Acho que ela é uma ótima contadora de histórias e, por meio de uma escrita cativante, vai articulando temas difíceis, sem recorrer a simplificações e a estereótipos.

Quanto à psicanálise, tem uma citação atribuída a Freud de que gosto muito: “Aonde quer que eu vá, descubro que um poeta esteve lá antes de mim”. No ensaio Delírios e Sonhos na Gradiva de Jensen, ele escreve algo parecido: “Os poetas são aliados muito valiosos, cujo testemunho deve ser levado em alta conta, pois costumam conhecer uma vasta gama de coisas entre o céu e a terra com as quais a nossa filosofia ainda não nos permitiu sonhar. Estão bem adiante de nós, gente comum, no conhecimento da mente, uma vez que se nutrem de fontes que ainda não tornamos acessíveis à ciência”. Acho que é bem por aí. A dívida da psicanálise com a literatura é antiga e a literatura continua sendo uma fonte imprescindível para qualquer campo que se interesse pela condição humana. De outro lado, há alguns conceitos da teoria psicanalítica que podem ser interessantes para a crítica literária, se manusearmos esses conceitos com cautela. É uma relação que se nutre indo e vindo.

 

Mesmo que falem de um universo muito particular, é difícil ler os livros de Ferrante e não pensar na vida de mães, tias, avós, amigas, não reconhecer nas personagens dramas e conflitos de tantas mulheres ao redor. Estaria aí, nessa identificação tão familiar, nessa passagem do particular ao universal, o segredo da “Febre Ferrante”? Ou o sucesso teria mais a ver com outros fatores que às vezes se lhe atribuem, como o mistério em torno de sua verdadeira identidade, o realismo cru e cortante, a aproximação com outros gêneros narrativos…?

Existe um componente indecifrável em todo fenômeno de recepção, ainda que a gente possa levantar algumas hipóteses. Ferrante recupera e atualiza temas e procedimentos estéticos que há séculos permeiam a literatura, mas faz isso a partir do nosso tempo, com suas próprias questões. Sua obra tem um caráter quase sociológico, faz um retrato muito específico de uma era. Mas não apenas.

Em Frantumaglia, Ferrante defende o compromisso com a verdade da história mais do que com ideologias e com o que chama de “bons sentimentos”. Também se posiciona contra “tudo que harmoniza através da eliminação”. Assim, consegue se aproximar de conflitos muito íntimos e desconfortáveis, sem aderir ao pessimismo fácil, nem às soluções edificantes. Por isso, suas histórias capturam e sustentam a obscuridade das relações humanas de maneira tão acurada.

Lenu e Lina, personagens de Ferrante na série da HBO.

 

Essa febre tende a aumentar ainda mais com a série da HBO. O que você achou da adaptação? Quais são as diferenças que você considera mais notáveis – para o bem e para o mal?

Gostei bastante da adaptação. O nome de Ferrante está creditado na equipe de roteiristas, que conseguiu transpor a essência do primeiro livro para o formato audiovisual de maneira equilibrada: a série ficou bem próxima do texto literário, mas também propôs algumas mudanças, principalmente de condensação, e adicionou cenas inteiramente novas, apostando nas especificidades do formato. Os roteiros e a direção garantiram que essas cenas não soassem como acréscimos, mas se integrassem organicamente.

Por exemplo, no segundo episódio, ‘O dinheiro’, quando as meninas saem do bairro pela primeira vez, encontram um rebanho de ovelhas que se espalha pela estrada. Gosto da metáfora: naquele breve momento, elas estão livres, desgarradas da vizinhança opressora. Essa cena não está descrita no livro, mas foi um acerto.

Outra passagem muito bonita, que está no livro e foi transposta com sensibilidade, está no sexto episódio, ‘A Ilha’. A cena de Elena redescobrindo o mar é de uma delicadeza… Gosto de como a série explorou os silêncios e os gestos, mantendo a qualidade das palavras.

Para o mal: há perdas inevitáveis, sobretudo de pequenas ambivalências, mas acho que o essencial está lá e que essa nova obra tem qualidades que a sustentam como tal.

 

Quem lê os livros da autora acaba percebendo uma certa recorrência de temas, conflitos, motivos, personagens e até mesmo cenas. Fica a impressão de que, a cada livro, ela vai ensaiando diferentes abordagens e intensidades para um mesmo conjunto de questões, como a condição da mulher, as relações familiares, a violência latente, a memória tantas vezes perturbadora, a vida nas periferias napolitanas… Daria para dizer que os livros anteriores, ainda que tenham inegável valor em si mesmos, são de certa forma uma “preparação” da tetralogia? 

Dizem que só temos uma história para contar. Através de deslocamentos, condensações e outros procedimentos, podemos transformar e recriar essa história de maneiras diferentes. Quem escreve ficção constrói essa distância. Como ocorre nos sonhos, também na literatura temos o conteúdo manifesto, que é o enredo, e o conteúdo latente, formado por afetos e tensões mais obscuras, uma espécie de história secreta. Mas se existem elementos formais e temáticos que se repetem na obra de Ferrante, também gosto de observar as diferenças. A amplitude da tetralogia napolitana, por exemplo, é um elemento sem precedente em vinte e seis anos de publicação, uma mudança importante.

 

Muito se fala sobre a representação das mulheres nos livros de Ferrante, sobre as muitas tensões – veladas e flagrantes – entre machismo e feminismo. E a autora consegue abordar essas questões sem barateá-las: a truculência dos homens mal disfarça sua mediocridade; a cumplicidade entre as mulheres é eivada de rancores. Personagens femininas e femininas são capazes de perversidades e generosidades. O que pensar desses paralelos na representação do feminino e do masculino? Essa complexidade, essas ambiguidades são próprias do gênero romance? São, também, aquilo que aproxima a literatura da psicanálise? 

Concordo quando você diz que Ferrante consegue se aproximar dessas questões sem barateá-las. Mauricio Santana Dias, tradutor da tetralogia napolitana no Brasil, diz que os textos reunidos em Frantumaglia são um manifesto por um realismo que não ceda a um sociologismo vulgar. É uma definição precisa. Quando lhe perguntaram sobre a representação da amizade entre mulheres na literatura em uma entrevista, Ferrante respondeu: “A amizade é um caldeirão de sentimentos bons e ruins em permanente ebulição. (…) A cada passo, corremos sobretudo o risco de que os bons sentimentos, o cálculo hipócrita ou as ideologias que muitas vezes exaltam de maneira nauseante o vínculo entre irmãs embacem a honestidade da história”.

Não sei se as ambiguidades são próprias do gênero romance, mas a ambivalência que encontro na literatura que admiro, independente do gênero, certamente é a mesma matéria que me levou à psicanálise.

 

Numa época de total invasão e evasão das privacidades, em que todos nós expomos e somos expostos em tudo, em que escritores parecem mais falar e dar autógrafos e fazer performances públicas que realmente escrever, qual é o sentido da opção da autora pelo pseudônimo? É para se esconder? É para explorar possibilidades narrativas? É, como tanto se disse na época da revelação de sua suposta identidade, para fingir uma autobiografia e com isso aumentar o apelo de suas histórias? Como você viu toda a polêmica em torno dessa suposta revelação? Como você vê esse anonimato em termos literários e psicanalíticos? 

Ferrante diz que escolheu o pseudônimo por um desejo neurótico de intangibilidade. Esse desejo de intangibilidade me parece bastante saudável para quem escreve, pois protege um espaço de dedicação e de experimentações. A escolha do pseudônimo tem provocado debates interessantes sobre autoria, crítica biográfica e recepção das obras literárias. Tenho acompanhado com interesse e acho a curiosidade natural, quase inevitável. Só incomoda quando a discussão sombreia a obra, que consegue ser ainda mais interessante do que os bastidores.

Ao se retirar dos outros meios (fotografias, vídeos, áudios), Ferrante faz uma experiência radical e se corporifica em seus textos. Assim, é sempre como escritora que se dirige a nós – mesmo nas entrevistas, concedidas sempre por escrito através de seus editores. Agora, como co-roteirista da série, as palavras alcançam um novo estatuto, uma nova concretude, mas ainda são mundos criados a partir delas.

Do ponto de vista da psicanálise, penso novamente em Freud: “a palavra escrita foi, em sua origem, a voz de uma pessoa ausente”.

 

Diante de tudo isso, como localizar Ferrante dentro do panorama da tradição literária? Que precursores ela parece escolher para si mesma – ou quais escolhemos para ela? E que marca vai deixar na literatura? 

Em algum lugar entre a literatura popular e a alta literatura, dialogando de forma habilidosa com ambos os campos. Na Itália, destacaria duas precursoras importantes: Elsa Morante e Anna Maria Ortese. Jane Austen, Louisa May Alcott e Christa Wolf também são referências importantes.

A intertextualidade é um recurso a que Ferrante recorre o tempo todo, então a lista de autores com quem sua obra está em diálogo poderia se estender indefinidamente. Mas destacaria o Livro IV da Eneida, de Virgilio, que conta a história de Dido, rainha de Cartago. A cultura clássica sem dúvida modela as entranhas da escrita de Ferrante.

Quanto ao futuro, difícil dizer que marca vai deixar, mas acredito que sua obra continuará sendo lida, relida e discutida por muitos e muitos anos. Como ocorre com os mitos clássicos, as histórias de Ferrante, sobretudo a tetralogia napolitana, parecem destinadas a perdurar.

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