Editora lança coleção de ensaios contemporâneos que você pode baixar gratuitamente

Editora lança coleção de ensaios contemporâneos que você pode baixar gratuitamente

Uma conversa com a escritora e pesquisadora Laura Erber, editora da Pequena Biblioteca de Ensaios, sobre a força do ensaísmo contemporâneo e a democratização da leitura no Brasil

Renato Prelorentzou

23 de agosto de 2019 | 09h33

A Pequena Biblioteca de Ensaios é uma coleção de livros digitais sobre literatura, arquitetura, antropologia, crítica de arte, teoria política e filosofia contemporânea. Graças a uma política de open access, pela qual os autores e autoras cedem seus direitos, todos os títulos podem ser acessados e baixados gratuitamente.

O projeto nasceu de uma iniciativa da Zazie Edições, uma pequena editora independente, sem fins lucrativos, pensada para atender às demandas dos estudantes, pesquisadores e leitores de todo o Brasil, fundada em 2015 pelo crítico Karl Erik Schøllhammer e pela escritora e pesquisadora Laura Erber.

Nascida no Rio de Janeiro, em 1979, Laura é poeta, romancista, ensaísta, artista visual e professora de teoria e história da arte da UNIRIO. Publicou contos e ensaios em inúmeras revistas e exibiu trabalhos em diversos museus e centros de arte no Brasil e na Europa. Assinou, entre outros títulos, o romance Esquilos de Pavlov, os livros de poesia Os corpos e os dias e A retornada e os infantis Nadinha de nada e, em parceria com Maria Cristaldi, O incrível álbum de Picolina, a pulga viajante.

Na conversa abaixo, Laura fala sobre a sua editora, a potência do ensaio enquanto gênero e a importância da democratização do acesso à leitura de textos críticos em tempos de desmonte das políticas públicas de fomento à pesquisa e à educação.

O ensaísmo é um campo vasto e fecundo, de onde se pode colher um tanto de tudo. Como escolher o que publicar diante de tanta fartura?

A coleção Pequena Biblioteca de Ensaios pretende dar visibilidade ao ensaio enquanto gênero, um gênero excêntrico decerto, que pode tanto se sustentar na inflexão literária quanto encontrar sua força na exploração teórico-crítica de determinada questão. O ensaio me interessa tanto por seu caráter fronteiriço e de difícil classificação quanto por ser um espaço de experimentação, com o ritmo e a cadência do pensamento.

A curadoria é um exercício de pesquisa empírica sobre o estado do ensaio hoje. Começamos trabalhando com áreas mais diretamente ligadas às nossas pesquisas acadêmicas – literatura e teoria literária, poesia contemporânea, tradução, teoria da imagem – mas a ideia é expandir para outros campos, tentando entender como os pesquisadores das outras áreas se colocam diante da escrita e do gesto ensaístico. Ainda este ano publicaremos, por exemplo, um ensaio do Roberto Imbuzeiro sobre a criatividade na matemática.

O contato com os autores é importante do ponto de vista pragmático, pois dependemos deles para adquirir gratuitamente os direitos de tradução e publicação. Em geral, são bastante receptivos e solícitos. Nos casos de tradução, os autores podem ser consultados se no processo surgirem questões que envolvem uma tomada de decisão mais radical.

 

Muito se fala em crise do mercado editorial e, cada vez mais, em crise das universidades, da educação, do conhecimento. Daria para dizer que a coleção e a própria editora se apresentam como uma tentativa de resposta?

O ensaio como gênero é um desafio para o campo editorial brasileiro: a recepção de teoria e crítica num ambiente marcado por uma longa tradição anti-intelectual não é simples. Ao mesmo tempo, o Brasil tem dimensões continentais e uma grande demanda de bibliografia atual traduzida, para uso nos cursos de graduação e pós-graduação.

A situação da pesquisa no Brasil é dramática e, com os cortes drásticos da verba das agências de fomento, grande parte da publicação teórico-crítica e das traduções fica ameaçada. Os editais da Capes e do CNPq ajudaram a financiar boa parte da bibliografia produzida por pesquisadores brasileiros, já que as editoras comerciais não conseguem absorver essa produção. Várias pequenas editoras dependiam desse financiamento para manter um certo ritmo de produção.

Mas não posso deixar de notar que as agências de fomento acabaram por privilegiar a publicação de ensaios reunidos, o que nem sempre resultou em livros potentes. Por vezes, trata-se de um apanhado de determinado período de atividade do pesquisador, mas que não propõe relações internas efetivamente relevantes. A Zazie pretende valorizar o ensaio em sua autonomia reflexiva. E, como somos totalmente autônomos, podemos questionar a noção hegemônica de livro. Um único ensaio pode ser um livro, e é tratado assim em outros contextos.

 

Quais são os desafios de uma editora não comercial?

A Zazie é registrada junto à Biblioteca Nacional dinamarquesa. Aqui é possível abrir uma editora sem abrir uma empresa, sem CNPJ e outras obrigações legais. É claro que financiar esse projeto de maneira independente não é fácil, e ainda estou tentando entender como pode funcionar mais adequadamente a longo prazo.

No início, a venda dos meus desenhos financiava as edições, mas, a partir de determinado momento, essa operação não dava mais conta da quantidade de livros em preparação e dos custos a serem cobertos. Agora estamos testando o recurso aos famigerados crowdfundings, e toda contribuição é muito bem-vinda.

No momento temos uma campanha em fluxo contínuo no Catarse. É possível contribuir com a editora doando um mínimo de dez reais por mês, sendo que a contribuição pode ser interrompida a qualquer momento. Lançaremos em breve uma campanha mais específica, com tempo limitado, para a finalização de um livro de ensaios de Boris Groys e outro de Marie-José Mondzain.

 

Lendo os títulos já publicados, fica a impressão de que há uma vontade de intervir não apenas no circuito editorial e acadêmico, mas sobretudo no debate público, apresentando ensaios que refletem sobre questões candentes do mundo contemporâneo…

Um dos livros que publicamos, Cidadania sacrificial: neoliberalismo, capital humano e políticas de austeridade, da Wendy Brown, foi utilizado em questão do vestibular da UFRGS. Acho que isso sinaliza um pouco como há demanda por bibliografia atual traduzida e editada, passível de ser utilizada em provas públicas.

Vários títulos da coleção foram incorporados à bibliografia de cursos de graduação e pós-graduação. Este é um dos objetivos da coleção: oferecer títulos de fácil absorção no universo acadêmico e que possam ser lidos em qualquer lugar do Brasil com acesso à internet.

Fico satisfeita ao ver que a bibliografia circula entre estudantes de todo o Brasil e torço para que venha a circular também entre estudantes e professores de universidades africanas e portuguesas, que começaram a acessar mais nossos títulos.

Os títulos da coleção procuram pensar nossa época, seja pelo viés da poesia contemporânea de um determinado país, como nos ensaios de Tamara Kamenszain sobre a relação entre poesia e língua no contexto argentino, seja pelo viés mais político ou histórico. O próximo título da coleção é um ensaio de Rodrigo Turin precisamente sobre o aceleracionismo que marca nossa experiência temporal e histórica e sua relação com o projeto neoliberal.

 

Aqui e ali, podemos ler nos livros da coleção algumas reflexões do ensaio sobre si mesmo. O ensaio e a anedota, do Jean-Christophe Bailly, por exemplo, entende o ensaio como uma passarela entre a literatura e o pensamento e, à sua maneira, ecoa a ideia de que o ensaio seria uma saída para os dogmatismos políticos e sociais dos nossos tempos. A pergunta aqui talvez seja: por que ensaios? O que explica sua liberdade formal, sua vitalidade? O que só os ensaios podem dizer e fazer circular? 

Acredito que o ensaio seja uma pesquisa sobre a forma do pensamento. Não entendo forma aqui como acabamento ou fixação, mas como formação. A ideia de que o ensaio resiste ao dogmatismo não é nova, mas é interessante. Vários autores dizem que, diferente do texto puramente teórico, o ensaio incorporaria a dúvida, a sombra e, talvez, o próprio limite de quem o escreve. O ensaio seria ao mesmo tempo um gesto modesto e de alto risco, ambicioso e audacioso, mas sempre consciente daquilo que lhe escapa.

Tento manter no meu horizonte editorial a noção de ensaio como linguagem de contato. Ensaísta é aquela ou aquele que precisa entrar em contato com seu próprio pensamento – com a respiração e o ritmo do seu pensamento – e precisa inventar formas de contato com seus leitores.

O ensaio depende fortemente disso. O ensaísta precisa ser capaz de ensaiar a si mesmo, de se colocar no lugar arriscado da experimentação do pensar e da avaliação crítica. Um autor que elabora uma reflexão potente mas que é totalmente incapaz de engatar seus leitores – não de maneira paternalista, claro – fracassa na escrita ensaística.

Vejo o ensaio como uma forma crítica que preserva a energia e o prazer da reflexão. O ensaio também revela diferentes comportamentos em relação à porção de não saber a respeito do tema ou questão que desenvolve.

 

Bom, você é editora de ensaios e também ensaísta – e também poeta, romancista, professora, artista visual, para não falar de sua relação com a literatura infantil. Imagino que não seja fácil separar todas essas atividades, muito menos explicar como elas se cruzam na sua cabeça e na sua obra…

Prefiro não tentar explicar, soaria um pouco estranho e, sinceramente, eu não saberia esquematizar essas relações, pois estão sempre mudando.

Em termos mais práticos, nem sempre é fácil coordenar essas diferentes atividades, mas o bacana é que as conexões e alianças entre elas me surpreendem. Uma me ajuda a descansar da outra, cria-se uma “atenção flutuante” que muitas vezes colabora criativamente. Quando escrevo um ensaio, procuro não pensar muito nos textos que edito. Acredito que essas leituras me acompanham de algum modo, mas não é voluntário nem muito claro como isso acontece.

Recentemente, comecei a perceber uma possível relação entre a literatura infantil – aquela destinada à primeira infância – e o ensaio. Há um tipo de livro que situa a criança como pesquisadora num mundo em construção incessante. A criança tem algo do ensaísta, e vice-versa. A seu modo, o ensaio atualiza a dimensão do aprendizado infantil, da maneira como a criança aprende e apreende o mundo.

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