E se a vida fosse um musical?

E se a vida fosse um musical?

Renato Prelorentzou

20 Janeiro 2017 | 18h01

Por definição, musical é aquele filme em que de repente as pessoas saem dançando no meio da rua. O rapaz apaixonado se vê debaixo do maior pé d’água, começa a assobiar e no momento seguinte já está cantando na chuva. O casal caminha de braços dados pelo parque e de um instante pro outro seus passos viram de valsa. É como se todos os filmes do gênero partissem de uma mesma premissa: e se a gente começasse a cantar e dançar agora?

Essa pergunta ingênua, feliz e romântica muda tudo. Quem faz festa em casa sabe. E se a gente afastasse as cadeiras e aumentasse o volume da vitrola? A sala vira pista de dança e aquele espaço já não é o mesmo de todos os dias. Porque música é um pouco um lugar. Ou pelo menos transforma os lugares. E é isso que o diretor Damien Chazelle faz com Los Angeles em La la land: pinta a cidade com os tons vivos da fantasia, daquilo que acontece quando alguém se pergunta: “e se…?”

la-la-land-

No filme, Emma Stone é uma atriz que desde criança escreve suas próprias peças e sonha com a fama. Ryan Gosling é um pianista nostálgico e obcecado pela ideia de salvar o jazz do esquecimento. São jovens, lindos e sonhadores — mas não são os únicos. Há uma multidão de jovens artistas chegando a Los Angeles, um verdadeiro engarrafamento de gente talentosa, criativa e carismática querendo brilhar na cidade das estrelas.

Num dos primeiros — e mais divertidos — números musicais de La la land, três amigas da protagonista lhe cantam mais ou menos assim: “lá fora tem alguém que você precisa conhecer, alguém que vai te levar às alturas, que vai te levar aonde você quer chegar, se você estiver pronta para ser encontrada”.

As moças estão falando de testes de elenco, empresários e produtoras, do anseio de ser descoberta e lançada ao sucesso. Mas também estão falando de amor. E é em cima dessa ambiguidade que La la land conta sua história: o que vai te fazer brilhar, amor ou estrelato? Tanto um quanto outro são fantasias que, para serem realizadas, exigem certo talento, muito esforço e um bocado de sorte.

E se a gente não tivesse se encontrado naquela festa? E se jamais me descobrirem nessa cidade das estrelas? Como qualquer um de nós, os personagens de La la land nunca sabem se vão conseguir realizar seus sonhos, nem se os sonhos que vivem são mesmo tudo aquilo com que sonhavam. Porque sempre há inúmeras bifurcações no caminho, e não é nada fácil se decidir entre vida e carreira, dinheiro e vocação, certezas e incertezas. É aí que esse musical tão colorido ganha um curioso traço de realismo — e, de quebra, um dos finais mais bonitos, verdadeiros e originais dos últimos anos.

Alguém já disse que a cultura pop está cada vez mais nostálgica. Se for verdade, La la land sem dúvida faz parte dessa onda. Como seus personagens, Damien Chazelle parece ter encarado o desafio de salvar os musicais do esquecimento — não sem conquistar a fama no meio do processo.

É claro que alguma coisa se perdeu nessa tentativa de atualizar a linguagem do gênero para uma nova geração. Quando cantam e dançam, Stone e Gosling estão bem longe, bem longe mesmo, de Gene Kelly, Debbie Reynolds, Fred Astaire e Ginger Rogers. Mas isso quase não tem importância. Porque é atuando que o casal de La la land dá um sentido renovado à nostalgia. Ao sonhar com a época de ouro do jazz, do cinema, de Los Angeles e da própria vida, eles mostram que o passado é esse lugar que a fantasia transforma sempre que alguém se pergunta: e se dançássemos juntos? E se ficássemos em silêncio? E se fizéssemos em 2016 um musical como nos anos 50?

Para outras histórias e ficções, me acompanhe no Twitter ou no Facebook