DiCaprio contra o mundo

DiCaprio contra o mundo

Renato Prelorentzou

09 Dezembro 2016 | 16h49

Before the Flood é o filme mais recente de Leonardo DiCaprio. Mas ninguém o viu estrear em milhares de salas de cinema no mundo todo. Ninguém o aplaudiu feliz quando o filme terminou.

E não é porque seja ruim. Ao contrário: o filme é muito bem feito, tem uma história impactante, um enredo dinâmico e dramático, cenas de rara beleza e destruição — bem ao gosto de Hollywood.

Se ninguém viu Before the Flood nem deu importância foi porque não se trata de um filme de ficção. É um documentário. Pior ainda: um documentário sobre as mudanças climáticas.

Pode parecer estranho, mas essa relação entre filmes hollywoodianos e documentários — entre ficção e não-ficção — é decisiva para a questão ambiental e para a forma como contamos histórias sobre o futuro do planeta. E DiCaprio sabe disso.

Logo no começo de Before the Flood, vemos seu discurso na ONU: “Como ator, ganho a vida representando personagens fictícios que resolvem problemas fictícios”, ele diz. “E acho que é desse jeito que a humanidade vem encarando as mudanças climáticas. Como se fosse ficção”.flood

Enganadas pelas desinformações que o lobby das indústrias poluidoras espalha na mídia, muitas pessoas insistem em negar os desafios ambientais. A despeito dos alertas dos cientistas, continuam achando que as mudanças climáticas são mito, fantasia, histeria — uma ficção inventada pelos chineses para acabar com a indústria americana, como disse o próximo presidente dos Estados Unidos.

Mas há um outro tipo de negacionismo, bem menos tosco, muito mais disseminado.

Iludidos pelas ficções que Hollywood espalha no nosso imaginário, muitos de nós ainda pensamos que as únicas ameaças ao futuro da humanidade são a bomba atômica disparada pelo ditador fanático, o meteoro em rota de colisão com a Terra, a invasão de alienígenas escravizadores, a rebelião de máquinas dotadas de inteligência artificial. Um grande acontecimento único e espetacular que um grande herói vai vencer com uns golpes rápidos e pirotécnicos, salvando o mundo e fazendo o happy ending, sempre.

É muito diferente da história que os cientistas estão tentando contar: a maior ameaça ao futuro da
humanidade não tem nada de espetacular, não parece coisa de cinema
. É a catástrofe lenta e cotidiana do meio ambiente, provocada por zilhões de eventos espalhados e interconectados que demandam zilhões de atitudes contínuas de todos nós.

Desde o princípio dos tempos, nossos ancestrais só conseguiram sobreviver porque foram capazes de representar o mundo ao redor para si mesmos e para suas comunidades. Com suas narrativas, criaram mitos que os uniram sob as mesmas origens e identidades, mas também imaginaram o que tinham de fazer para se prepararem para a próxima colheita, a próxima guerra, a próxima transformação. Se hoje estamos aqui é porque eles souberam contar histórias sobre seu passado e projetar cenários realistas sobre seu futuro.

Mas será que nós sabemos contar histórias plausíveis sobre nosso futuro? As ficções hollywoodianas são, é claro, fantasiosas demais. As não-ficções de cientistas e documentaristas não estreiam em milhares de salas de cinema no mundo todo, não parecem capazes de mexer com nosso imaginário, de despertar nossas emoções, de mudar nossas atitudes. Vemos avanços nos acordos diplomáticos, na consciência ambiental e na viabilidade econômica das energias limpas. Mas tudo muito devagar e insuficiente.

Ainda dá tempo de reverter o rumo das coisas? “Se fosse um filme, poderíamos mudar o final do script”, DiCaprio diz. Poderíamos fingir que nosso futuro com certeza terá um happy ending. Mas a realidade não é assim. Nenhum herói hollywoodiano virá nos salvar. Nós mesmos é que teremos de mudar o “jeito como vivemos, o que consumimos e como usamos o voto para dizer aos nossos líderes que sabemos a verdade sobre as mudanças climáticas”.

O planeta das temperaturas milagrosamente amenas e estáveis que nos permitiram aprender a plantar e a colher na estação certa, que nos possibilitaram prever e planejar para a próximo ano, o próximo século, este planeta já começou a acabar. Tudo vai ser diferente. E, uma vez mais, nossa espécie só conseguirá sobreviver se for capaz de representar o mundo ao redor e de projetar cenários realistas sobre o futuro. As narrativas que hoje circulam no nosso imaginário não conseguem comunicar a gravidade e a urgência do desafio que temos pela frente. Ou mudamos a maneira de contar essa história. Ou não vai sobrar ninguém para contar nossa história.

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