Como reiniciar a Matrix?

Como reiniciar a Matrix?

Pode parecer absurdo, mas, depois de apenas dezoito anos, as tecnologias do primeiro filme da série estão bem ultrapassadas

Renato Prelorentzou

24 Março 2017 | 09h00

Semana passada, a cultura pop se abalou com a notícia de que a Warner Bros. planeja retomar a saga Matrix. Muitos torceram o nariz e, prevendo mais uma jogada de Hollywood para lucrar em cima da nostalgia dos fãs, perguntaram: será mesmo necessário contar mais histórias dentro do universo criado pelas irmãs Wachowski?

Quando estreou, lá em 1999, Matrix revolucionou os efeitos especiais, o cinema, a moda e até a cultura. Virou um clássico imediato da ficção científica cyberpunk e foi um dos primeiros sucessos de transmídia, expandindo a trilogia de filmes para uma série de games, animações e quadrinhos. Hoje é impossível não vê-lo como protagonista da revolução nerd que tomou o mundo na última década e meia.

Tudo isso porque as irmãs Wachowski não se limitaram a fazer só mais um filme de ação. Com um monte de referências literárias, filosóficas e religiosas, elas botaram na tela uma reflexão sobre o sentimento de irrealidade de nossa época inundada de imagens e informações. Levaram a imaginação ao limite para pensar o que era nossa relação com aquela tecnologia de sistemas operacionais interligados por uma rede que começara a se globalizar nos anos 1990. E nossa relação com a tecnologia diz muito sobre a ideia que temos de nós mesmos.

matrix

Neo com seu ‘tijorola’ e seu Pentium III

No livro In Our Own Image (algo como “à nossa imagem e semelhança”), o especialista em inteligência artificial George Zarkadakis descreve algumas das metáforas com as quais a humanidade já tentou explicar sua própria consciência.

Na antiguidade ocidental, a noção corrente dizia que Deus fizera o homem a partir do barro e lhe soprara a vontade e o espírito. Mas, já no século 3 a.C., as primeiras técnicas de engenharia hidráulica propiciaram a ideia de que era a circulação de fluidos (os chamados “humores”) que determinava o funcionamento do corpo e da mente.

Essa metáfora hidráulica persistiu até o século 17, quando a invenção dos primeiros autômatos movimentados por molas e engrenagens sugeriu a metáfora do corpo humano como máquina complexa e do pensamento como resultado de uma série de movimentos mecânicos no cérebro.

Já nos séculos 18 e 19, continua Zarkadakis, descobertas nos campos da eletricidade, da química e das comunicações geraram novas explicações metafóricas para a consciência, até que, nos anos 1940, o nascimento da computação moderna deu origem a uma metáfora computacional: a inteligência funcionaria como um computador, tendo o cérebro como hardware e os pensamentos como software.

Desde que os computadores se tornaram nossas invenções mais complexas, a metáfora computacional domina a ciência e também a cultura. Foi a partir dela que pensadores como o futurista Raymond Kurzweil e o físico Stephen Hawking previram que um dia poderemos fazer upgrades, downloads ou mesmo reboots de nossos cérebros, arquivando nossas consciências na “nuvem”, onde seremos infinitamente inteligentes e imortais. E, é claro, foi a metáfora computacional que inspirou inúmeras obras de distopia e ficção científica, entre elas Matrix e, mais recentemente, Black Mirror.

Agora dá para entender qual é a dinâmica: o cérebro humano inventou mecanismos cada vez mais avançados e, logo depois, criou metáforas que se valiam desses mecanismos para explicar a própria inteligência. É a tecnologia que criamos nos dizendo quem somos — e quem podemos ser, o que podemos imaginar, com que podemos sonhar. E aí está o desafio de quem for retomar o universo de Matrix.

Lá em 1999, quando as irmãs Wachowski lançaram suas reflexões em forma de produto pop, o mundo era bem diferente. Não existia smartphone, nem reality show, nem Siri. Google tinha apenas 1 aninho. O Skype só nasceria em 2003, o Facebook em 2004, YouTube em 2005, Twitter em 2006 e o primeiro iPhone, 2007. Nossa relação com as imagens, informações e tecnologias passou por uma série de revoluções nos últimos dezoito anos. Se o novo filme de Matrix conseguir fazer agora o que fez no final século passado, será mais uma revolução.

 

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