Como a democracia chega ao fim

Como a democracia chega ao fim

Lançamento da editora Todavia, livro de professor da Universidade de Cambridge analisa os impasses políticos do mundo contemporâneo e serve de alerta para a situação brasileira

Renato Prelorentzou

05 Outubro 2018 | 17h57

Em Como a democracia chega ao fim, David Runciman diz que começou a pensar no destino do sistema político quando Donald Trump se elegeu presidente dos Estados Unidos.

De repente, estava ali, no comando do país, um sujeito limitado, que fizera campanha espalhando notícias falsas, teorias da conspiração, discursos discriminatórios contra minorias, promessas vazias de grandeza nacional e soluções simplistas para problemas sociais e econômicos.

Segundo Runciman, a explicação lembrava processos que haviam ocorrido em outros países e outras épocas: uma crise econômica tinha gerado insatisfação e desconfiança quanto ao sistema democrático, propiciando a ascensão de um líder populista que se apresentava como salvador da pátria e mobilizava a indignação popular contra os políticos, os partidos e as regras da democracia.

Em outras palavras, diz Runciman, o novo presidente era “uma versão caricatural do fascismo”.

Mas ele não significava o fim. “As instituições democráticas dos Estados Unidos foram concebidas para suportar todo tipo de solavanco”: assim que assume o cargo, o populista demagogo se depara com a força da constituição, do congresso, dos tribunais, da imprensa, da sociedade civil, defesas que a própria democracia desenvolve para barrar seus impulsos.

Já o destino do Brasil, com suas instituições frágeis, pode ser bem diferente. “No momento em que escrevo”, diz Runciman, “a democracia brasileira parece particularmente vulnerável”: segundo pesquisas, boa parte da população está disposta a abrir mão dela.

A essa altura, todo mundo já viu os discursos de ódio e discriminação de Jair Bolsonaro contra pobres, negros, índios, mulheres, LGBTs, nordestinos.

Todo mundo já recebeu provas de sua improdutividade em sete mandatos parlamentares – e, se parou para pensar, já notou a contradição de um político envolvido com tudo que há de pior na política (regalias, corporativismo, suspeitas de corrupção e enriquecimento ilícito) querer se passar por alguém que é contra o sistema.

Todo mundo também já ouviu suas declarações de louvor a tortura, ditadura e golpes de Estado e outros alertas claros de fascismo.

Nada disso sensibilizou aqueles que hoje declaram votar no candidato.

Uma parte talvez concorde com seu discurso de ódio, discriminação e autoritarismo. Num país fundado sobre a violência racial e a exclusão social, a permanência desse tipo de mentalidade é uma vergonha, mas não uma surpresa.

Mas uma outra parte, a maioria (espera-se), parece movida apenas pela indignação (compreensível) diante da realidade atual. Ou pela impressão (equivocada) de que não existem outros candidatos muito mais preparados à direita e à esquerda. Ou pelo medo (infundado) de que o perigo do outro lado é igualmente extremo.

Essa maioria, relutante, votando mais por medo que por convicção, talvez ache que o discurso de ódio de Bolsonaro é apenas “brincadeira”. Que as comparações com fascistas são exagero. Que o melhor é mesmo votar “contra tudo isso que está aí”.

O que essa maioria talvez não tenha percebido é a gravidade das consequências. Cada voto que Bolsonaro recebe é uma carta branca para explodir o sistema democrático.

Vai ter tanque na rua, Congresso fechado, censura à imprensa, prisões e expurgos arbitrários? Talvez nem precise. As democracias modernas, diz Runciman, morrem por dentro, quando elegem populistas que logo se tornam líderes autoritários, quando boa parte da população abre mão de seus direitos e liberdades.

O que já tem são inúmeros relatos sobre patrões coagindo funcionários a votar em Bolsonaro e sobre seguidores do candidato ameaçando e agredindo pessoas no meio da rua, sob o bordão “é melhor já ir se acostumando”.

É uma demonstração bem clara de que, para esses seguidores, a discriminação e a violência que o candidato prega não são brincadeira. São promessas de campanha. Serão cobradas. E realizadas.

Primeiro, claro, contra pobres, negros, índios, mulheres, LGBTs, alvos históricos de uma sociedade bruta e excludente. E depois? Quem sabe artistas, jornalistas, professores, adversários políticos, ativistas de movimentos sociais. E depois… Quem sabe?

Não há nenhuma razão para acreditar que um governo eleito sobre discursos de ódio e autoritarismo terá qualquer vontade ou capacidade de controlar a violência – institucional ou social, militar ou paramilitar. Ninguém vai poder dizer que não foi avisado.

Lá pelo meio do livro, Runciman relembra a famosa frase que Winston Churchill disse em 1947, numa Europa completamente destruída pela Segunda Guerra Mundial: “a democracia é a pior forma de governo, com a exceção de todas as outras”.

A frase do primeiro-ministro britânico resumia a lição que ficava do “fracasso total da experiência calamitosa” com o fascismo: não importa quanto você esteja descontente com a democracia, as alternativas são ainda mais sofridas.

No Brasil, a experiência recente da ditadura militar também deveria servir como lição. Mas muitos estão mergulhados na ilusão de que um sistema democrático complexo e falho como o brasileiro poderá ser consertado por um messias que não apresentou nenhuma proposta concreta além do uso da força e do ódio. A saída exige coragem e competência – não bravatas e memes. Qualquer pessoa, de direita ou esquerda, que não se posicionar contra essa insensatez correrá o risco de passar de cúmplice a vítima desse desprezo pela democracia.

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