A história do Clube da Esquina

A história do Clube da Esquina

Livro conta os bastidores e o contexto histórico do clássico que Milton Nascimento e Lô Borges lançaram no início dos anos 1970

Renato Prelorentzou

08 Junho 2018 | 09h50

Paulo Thiago de Mello tinha uns 12 anos quando ouviu o LP do Clube da Esquina pela primeira vez, logo no ano de seu lançamento, 1972. A história de como o álbum marcou sua vida e a música brasileira ele a conta no livro Milton Nascimento e Lô Borges – Clube da Esquina, que acaba de sair pela coleção Livro do Disco, da Editora Cobogó.

Jornalista e doutor em Antropologia, Paulo mistura suas memórias e impressões pessoais com análises históricas e sociológicas para entregar uma interpretação a meio caminho entre a crítica acadêmica e o relato autobiográfico.

Na conversa abaixo, ele fala sobre os caminhos da escrita de seu livro, a originalidade das letras e das músicas do Clube da Esquina, o momento histórico em que Lô e Milton compuseram um dos álbuns mais antológicos da MPB.

 

Não deve ter sido fácil contar a história de um disco com que as pessoas têm uma relação tão pessoal… 

Foi, de fato, um desafio. Minha ideia inicial era passar uma tarde com o Milton, ouvindo o disco e anotando seus comentários e sua memória. Isso acabou inviabilizado pela dificuldade de agenda e, em certa medida, pela timidez do Bituca.

Me vi então diante do desafio de escrever sobre algo que de certo modo não era novidade para ninguém daquela época e até para as gerações mais novas que amam o disco. Por isso escrevi em primeira pessoa, dando um tom mais íntimo sobre o impacto do Clube da Esquina num jovem que tinha 12 anos no seu lançamento.

Achei que um tom mais, digamos, impressionista traria uma luz de novidade e, ao mesmo tempo, algo com que as pessoas poderiam se relacionar, já que cada uma tem suas histórias pessoais com o disco.

Você fala do Clube da Esquina como uma mistura do rural com o urbano, do tradicional com o moderno, do pop com a poesia marginal, da viola caipira com a guitarra dos Beatles. O curioso é que, misturando vários modos de análise, você acaba reproduzindo no livro o mesmo sincretismo do disco.

Procurei costurar o livro todo mantendo um equilíbrio entre as opções de narrativas. Assim, descrever o contexto do disco relacionando-o com eventos históricos e culturais atenuaria o tom intimista e confessional da primeira pessoa.

Além disso, uma das teses do livro é o tipo de sincretismo que o Clube propôs, uma miscigenação sofisticada, diferenciando-se, nesse aspecto, do tropicalismo, que aboliu fronteiras estéticas entre alta e baixa cultura.

A originalidade do Clube está justamente nos blends de altíssimo nível que utiliza para criar seu som: a MPB clássica, a bossa nova, o tropicalismo, o jazz fusion e o rock dos Beatles de sua fase psicodélica. Isso somado à toada mineira, que aparece sobretudo nas melodias relativamente simples, turbinadas por uma harmonização sofisticadíssima, causando uma estranheza interessante e inédita aos ouvidos da época.

Mais que uma história sobre o Clube da Esquina, seu livro é uma interpretação personalíssima sobre a época, baseada em suas memórias, impressões e sentimentos e também na sociologia, na antropologia, na psicologia, na crítica literária e musical. Como sua trajetória pessoal e acadêmica guiou a pesquisa e escrita do livro?

Minha trajetória pessoal acabou sendo a chave para escrever um livro minimamente original, nascido da costura dessa interlocução entre o tom autobiográfico e a história do disco.

Como antropólogo e acadêmico, também pude me beneficiar de outras lentes para analisar as sincronicidades, os ritos e os mitos do grupo. Em alguns momentos, me senti fazendo uma dissertação, no sentido de examinar um objeto a partir de uma vasta bibliografia e costurar conexões e leituras possíveis a partir desse material.

No início dos anos 1970, sob ditadura, repressão e censura, o Brasil vivia um clima de acirramento político que teve efeitos decisivos sobre a produção musical e cultural. É possível traçar paralelos entre aqueles tempos e os nossos?

O que ocorre hoje é completamente distinto. Se a repressão naquela época empurrou artistas diversos para produções criativas, hoje a crise que abala o Brasil não consegue mobilizar da mesma forma.

Posso pensar em várias razões sociológicas para isso, como o nível de repressão dos anos de chumbo, que era de fato asfixiante num patamar que não se compara aos problemas de hoje. Sem alternativa, os artistas reagiram como puderam, via desbunde, canção de protesto e até mesmo exílio.

Hoje a luta está mais fragmentada. Se, por um lado, isso é bom porque amplia o debate para além da questão ideológica entre esquerda e direita, passando a incluir questões de identidade, como gênero, racismo etc., por outro, a mobilização que poderia gerar uma onda de originalidade como vimos nos anos de chumbo encontra-se igualmente fragmentada, tornando difícil o surgimento de movimentos, coletivos etc.

Mas creio que isso é algo cíclico e se articula dialeticamente com outras forças, como a revolução tecnológica e as conjunturas políticas, sociais e econômicas.

Por falar em revoluções tecnológicas, o que mudou da época do Clube da Esquina para cá?

A revolução tecnológica, que fez a música sair do LP para o streaming na nuvem, mudou completamente o mercado fonográfico, assim como a forma de consumir música. As novas tecnologias pulverizaram as formas de produção artística abrindo caminhos, mas a indústria fonográfica e a mídia reagiram conservadoramente, fechando ou dirigindo os espaços de divulgação para nichos restritos e comprovadamente lucrativos.

Não há mais apostas em originalidade, o mercado procura apenas reiterar o que já foi testado com sucesso financeiro. Os festivais do fim dos anos 1960 abriam espaço real para propostas originais e inusitadas, como os experimentalismos de Walter Franco, Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé, por exemplo, e também para uma música mais refinada, como as canções de Milton. Hoje, os realities shows servem apenas para confirmar as apostas das gravadoras.

A originalidade continua existindo, e com força, mas está restrita a espaços alternativos e produções caseiras. Hoje, duplas sertanejas pop e axé music dominam o mercado. Nada contra, mas o problema é que as produções alternativas não chegam ao público.

Você diz que Lô Borges foi “o passaporte para o futuro de Milton Nascimento”, pois a parceria fez com que Milton tomasse rumos mais diversos e experimentais na carreira. Por outro lado, Lô talvez não tenha reencontrado a inventividade dos seus dias de Clube…

É verdade que Lô pagou um preço por fazer, aos 18 anos, um disco icônico ao lado de Milton. Além disso, se o Clube da Esquina superou certa má vontade da crítica à época de seu lançamento, Lô foi relegado a segundo plano pela mídia. Por isso, é interessante ver como atualmente ele se tornou uma referência para músicos da nova geração e como seus shows têm lotado o Circo Voador. No Clube, seu papel foi fundamental, o que diz muito da sensibilidade do Milton em apostar nele para fazer um álbum duplo.

Muitas das letras do Clube são uma celebração da amizade e da juventude. Ao mesmo tempo, carregam um peso do passado e falam da “aspereza do momento”. Como se explica esse embate entre a esperança e a melancolia, a pulsão de futuro e a nostalgia?

A ditadura militar impunha um elemento de urgência. E isso é algo que quem não viveu aqueles dias pode ter dificuldade de entender. A asfixia provocada pela ditadura tornava a vida urgente.

Não à toa, a metáfora da estrada, a tópica da viagem, está presente em quase todas as canções do Clube. Era um impulso ao futuro, onde haveria redenção do sufoco daqueles dias, mas também às referências do passado, que davam um sentido de herança cultural, patrimônio…

E, já que estávamos todos na estrada, por que não mudar o mundo? Havia sobretudo uma tensão entre as possibilidades infinitas da juventude que se afirmava com voz própria e a impossibilidade total imposta pelo regime militar. A melancolia, creio, vem mais dessa tensão do que de um mero sentimento de nostalgia.

Você conta que muitas das canções do disco nasceram na casa onde Lô, Milton, Beto Guedes e outros integrantes do Clube se isolaram em Niterói. É só assim que se fazem as obras de arte? Em isolamento, concentração, numa conjuntura rara e favorável, como num encontro feliz entre amigos?

Acho que o disco sairia independentemente do local onde foi feito. Além da casa em Piratininga, tinha também o núcleo de Belo Horizonte e, na hora h, o próprio estúdio, onde foram acrescentados os arranjos e finalizações.

Mas, de fato, foi o acaso feliz do encontro dessas almas na Belo Horizonte dos anos 1960 que possibilitou a costura de uma amizade que é, esta sim, a base dessa obra. Nesse sentido, o que possibilitou o Clube foi algo único, um caso de serendipity.

Há exemplos de outros movimentos que surgiram a partir de encontros ao acaso. Mas é claro também que a conjuntura da época, com toda sua riqueza e seu terror, com toda sua juventude e seu assombro, criou o ambiente propício para que tal encontro se desse.

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