Chega das mesmas histórias sobre as mulheres

Chega das mesmas histórias sobre as mulheres

Renato Prelorentzou

28 Outubro 2016 | 12h30

Argentina, 2016. A estudante Lucía Pérez é drogada, violentada e morta por três homens. Dias depois, um professor de artes marciais esfaqueia a ex-mulher, sua tia, sua avó e uma menina de 7 meses, por causa de uma discussão sobre paternidade.

 

Corta para Califórnia, 2009. A publicitária inglesa Cindy Gallop começa a palestra: “Eu saio com caras mais novos. E, quando você transa com caras mais novos, vê a traiçoeira onipresença da pornografia hardcore na cultura”.

Ela então anuncia o Make love not porn, movimento contra a irrealidade e a padronização com que o pornô tradicional representa o sexo. Como a família, os amigos, a escola e a sociedade não são sinceros sobre a sexualidade, “essa geração acha que tem que repetir na vida real o que assistiu no hardcore”. O pornô vira sua única a educação sexual.liniersniunamenos-300x300

E, sendo uma indústria financiada, dirigida e voltada para homens, a gente já imagina o que pode acontecer: algo que vai da imposição de fantasias que nem sempre correspondem às das mulheres até violências na frente e atrás das câmeras. Tudo isso, diz Cindy à Revista Trip, “está no cerne da cultura do estupro, do abuso e da violência sexual”.

 

Corta para Cannes, 2013. O filme Azul é a cor mais quente estreia com polêmica. Alguns elogiam o diretor Abdellatif Kechiche por sua franqueza ao retratar o amor entre duas moças. Outros o criticam por seu voyeurismo, pelo olhar predatório com que filmara as cenas de sexo, por parecer tão alheio às discussões feministas sobre a representação da mulher.

Nos dias seguintes, Julie Maroh, autora da graphic novel que dera origem ao filme, declara que as cenas são pouco convincentes, ridículas de tão falsas, “uma exibição brutal do que imaginam ser o sexo lésbico e que logo se transforma em pornografia”.

Pior ainda: semanas depois, as atrizes denunciam que sofreram abusos emocionais durante as filmagens. Em uma entrevista, o diretor diz: “O que estava tentando fazer nessas cenas era filmar a beleza. Gastamos muito tempo iluminando as duas para garantir que saíssem belas. Filmei como se fossem pinturas, esculturas”.

Idealizações, pinturas, esculturas, beleza, pornografia, abusos. Tudo faz parte de um mesmo imaginário masculino sobre o feminino. Os corpos estão ali, expostos, naturais. Parecem compor uma cena espontânea e realista. Mas o que encenam é a fantasia do homem que está produzindo a obra — e de tantos outros que a veem.

 

Volta para Oxford, 2009. A escritora nigeriana Chimamanda Adichie palestra sobre o “perigo da única história”. Nos livros de sua infância, ela conta, todos os personagens eram brancos de olhos azuis e brincavam na neve. Só foi saber que era possível contar outro tipo de história quando descobriu os escritores africanos: “Percebi que pessoas como eu, meninas com a pele da cor de chocolate, também podiam existir na literatura”.

As narrativas moldam nossas ideias, valores, sentimentos e vontades. Dizem o que devemos ser e fazer, o que devemos desejar e pensar dos outros. Quando contam sempre a mesma história, criam preconceitos, impõem uma norma.

A pornografia hardcore conta sempre a mesma história. A idealização da beleza lésbica conta sempre a mesma história. Uma única história que reduz as mulheres a uma mesma abstração. Como se não pudessem ser múltiplas, diferentes, irredutíveis a padrões.

 

Corta para o mundo inteiro, todos os anos. Sempre as mesmas notícias sobre assédios, estupros e feminicídios, cometidos por homens que acharam que podiam repetir na vida real tudo que há de desumano no seu imaginário sobre as mulheres. “Poder não é só contar a história da outra pessoa”, diz Chimamanda, “mas fazê-la a história definitiva dessa pessoa”. E nada vai mudar enquanto não soubermos contar e ouvir outras histórias, diversas em suas vozes, corpos, enredos, possibilidades.

 

#NiUnaMenos

 

Para outras histórias e ficções, me acompanhe no Twitter ou no Facebook 

Mais conteúdo sobre:

narrativaCinemafeminismo