Brasileira ganha prêmio latino com romance sobre mulher em busca de suas origens africanas

Brasileira ganha prêmio latino com romance sobre mulher em busca de suas origens africanas

Uma conversa com a escritora e artista plástica Deborah Dornellas, autora de ‘Por cima do mar’, romance vencedor do Prêmio Literário Casa de las Américas 2019

Renato Prelorentzou

31 de janeiro de 2020 | 09h47

Lígia Vitalina é uma mulher negra, historiadora, nascida na periferia de Brasília. Já na maturidade, ela cruza o Atlântico para viver em Angola e, nessa travessia de volta à terra de seus antepassados, escreve suas memórias e reflexões sobre a vida dos descendentes de escravizados dos dois lados do oceano.

Esse reconhecimento da ancestralidade africana está no centro do enredo de Por cima do mar, romance de estreia Deborah Dornellas, publicado pela Editora Patuá.

Nascida no Rio de Janeiro e criada em Brasília, Deborah é escritora, jornalista, tradutora e artista plástica. Mestra em História Cultural pela UnB e pós-graduada em Formação de Escritores pelo Instituto Vera Cruz, publicou a coleção de poemas Triz (In House) e com Por cima do mar venceu o Prêmio Literário Casa de las Américas 2019, na categoria Literatura Brasileira.

Na conversa abaixo, Deborah fala da longa gestação de seu romance, de sua relação com a África e de uma literatura com vontade de descendência e continuidade.

O livro se compõe de cenas e memórias distantes e esparsas, é fluido e ao mesmo tempo fragmentário. Como foi o processo de escrita?

Vitalina nasceu num conto que eu havia escrito, em algum ano antes de 2013. Não gostava do conto, achava mal-acabado, sabia que podia melhorar. Mesmo assim, enviei o texto, junto com alguns outros, ao meu amigo Tenório Telles, poeta e editor experiente, que na época (2013) era meu colega na pós-graduação em Formação de Escritores.

Tenório leu todos os contos e veio logo comentar comigo sobre a força dessa personagem, Vitalina. Até então, eu não tinha me dado conta da dimensão dela. Minha ideia inicial era apresentar à banca da pós um livro de contos, mas isso foi aos poucos se dissolvendo, até que resolvi acatar a sugestão do Tenório e investi na escrita do que veio a ser o romance. Tendo Vitalina como protagonista, claro. Tenório me disse muitas vezes que Vitalina é uma heroína brasileira e que personagens assim estavam fazendo falta na nossa literatura.

Quando comecei a escrever o texto, eu não tinha nenhum traquejo em prosa longa. Aliás, até 2013, só tinha escrito alguns contos, e poucos sobreviveram ao meu crivo mais adiante. O mote do conto original, o retorno da protagonista à provável terra natal de seus antepassados, permaneceu. Alguns elementos e cenas do conto também. Mas, ao longo do processo de escrita, que demorou cinco anos, Vitalina foi crescendo, ganhou mais um nome, Lígia, outras características e alguns episódios em sua história.

Durante 2013 e 2014, enquanto eu cursava a pós, tive interlocução dos colegas e professores, e isso fez muita diferença no resultado do trabalho. Defendi o projeto do livro, que então era uma novela, no início de 2015 e, depois disso, passei um bom tempo somente com as 100 páginas que a banca havia aprovado, praticamente sem trabalhar no romance.

Senti muita falta da interlocução, das leituras dos colegas e mestres. Mas, durante esse período de pouca escrita, li, estudei, observei, pesquisei. Em 2016, viajei para Angola para complementar a pesquisa. Somente em 2017 consegui montar uma primeira estrutura do romance, ainda incompleta. Essa estrutura não sobreviveu, mas me serviu de bússola dali em diante.

Quanto ao caráter fragmentário, não foi exatamente uma escolha. O livro foi nascendo e se escrevendo assim, com cenas avulsas, escritas em qualquer lugar e a qualquer hora. Só consegui disciplinar um pouco o processo quando comecei a costurar as cenas e transformá-las em capítulos.

A edição me deu muito trabalho! Mais do que a escrita propriamente dita. Em algum momento, tive que montar um quebra-cabeças com as cenas que já tinha escrito, acrescentar novas cenas, suprimir outras, para aquela estrutura fazer algum sentido. Só consegui um resultado satisfatório já em 2018, uns meses antes do livro seguir para a diagramação.

A narradora se apresenta como historiadora de si, vai relembrando passagens da vida, reencontrando e relendo cadernos antigos. E essa releitura é a fonte da escrita: enquanto relê e relembra, a narradora vai escrevendo o livro que lemos. Ela tem tamanha centralidade na trama que parece ser anterior e maior que o próprio livro…

O livro é mesmo uma coletânea de memórias da narradora-protagonista. Tudo vem dela e volta para ela. Ela conta suas histórias enquanto se lembra delas e consulta seus cadernos.

O romance termina sem que Lígia tenha terminado de escrever aquilo que poderá ser seu livro de memórias. Lancei mão desse recurso porque sempre tive muito claro que seria ela a narradora de sua própria história, em primeira pessoa. A voz narrativa tinha que ser dela, mulher negra brasileira periférica. Não queria que a autora aparecesse. Ou pelo menos que aparecesse o mínimo possível.

Então Lígia Vitalina da Conceição Brasil tomou corpo, ficou mais madura, aguerrida, inteira. Vitalina nasceu melancólica. Lígia lhe trouxe vigor, humor. Foi aí que comecei a perceber a força e o tamanho dessa personagem.

Ela certamente é maior do que o livro, e isso é maravilhoso. Pensava nela muitas vezes como se fosse real, tangível. Cheguei a senti-la ao meu lado. Mas Lígia Vitalina é uma personagem de ficção. Costumo dizer que ela não me deixou em paz enquanto não terminei de escrever e editar o livro. Só consegui chegar ao fim porque ela me pegou pela mão e me levou adiante.

 

Imagino que a escrita tenha tomado novos rumos depois de sua viagem a Angola…

Quando viajei para Angola, em novembro de 2016, eu tinha pouco mais do que aquelas 100 páginas do livro. Mas, nestas, já havia muitas cenas que se passavam lá, principalmente em Benguela.

Tinha escrito essas cenas a partir de pesquisas sobre Angola na internet, em vídeos no YouTube, material coletado em livros de História e na literatura angolana, de que sou leitora há muitos anos.

No início de 2016, comecei a namorar meu atual marido, que conheci no Facebook, justamente pesquisando pessoas em Angola com quem eu pudesse me conectar, para me ajudarem nas pesquisas. Começamos a namorar via Messenger e logo sem seguida ele, que é de Benguela e na época morava lá, se mudou para cá. Poucos meses depois, a gente se casou.

Passei então a ter consultoria doméstica sobre Angola. Principalmente sobre Benguela, que já estava na história desde 2013. Alguma coisa do que ele me contou sobre o país e a cidade eu acabei por ver de perto. Viajei sozinha, como Lígia. Meu marido ficou no Brasil. Foi muito bom fazer essa viagem assim, conhecer os lugares, as pessoas, sentir cheiros, sabores.

Fui fazendo anotações durante os dezessete dias que passei em Angola. Queria ter ficado mais tempo, mas não foi possível. Das minhas percepções e da minha experiência sensorial e visual nasceram muitas cenas do livro.

Muito do que vivi nessa viagem emprestei a Lígia, principalmente as sensações. Sempre com o cuidado de entender que ela, como mulher negra, teria certamente uma experiência diferente da minha. Mais intensa. Lígia andou comigo pelas ruas de Luanda e Benguela, as duas cidades que visitei, comeu nos mesmos restaurantes, conversou com as pessoas, visitou lugares.

Sem dúvida essa experiência enriqueceu cenas já escritas e ensejou outras. Também me propiciou corrigir informações imprecisas e etc. O livro existiria sem essa viagem, mas ficou mais rico depois dela.

 

“Contar histórias é coisa atávica, natural. É preciso narrar, passar adiante”, escreve a narradora. Seja como historiadora, ficcionista, poeta, ela quer contar as histórias que viveu, as histórias que leu, as histórias que ouviu de seus antepassados, sabendo que de alguma maneira todas lhe pertencem. Quer se reconhecer, se reencontrar com uma descendência desejada na África. Daí o tema da diáspora…

O tema da diáspora africana é uma obsessão minha. Desde que me entendo como adulta. A questão do racismo e da grande tragédia que foi a escravidão também me mobilizam muito, desde sempre. Não sei muito bem explicar por quê.

No caso de Por cima do mar, desde o conto que originou o romance, a travessia, a viagem de retorno já estava lá. Tem a ver com meus estudos, mas esses estudos só começaram por causa dessa obsessão – ou paixão, sei lá – por tudo que diz respeito aos processos e conteúdos afrodiaspóricos.

Cursei Letras e Jornalismo, em épocas diferentes, e esses temas sempre estiveram comigo, de alguma maneira. Já minha pesquisa para o mestrado em História foi sobre o maracatu nação da região metropolitana do Recife. Na época, anos 2000 e 2001, me mudei para Recife e convivi intensamente com a comunidade que abriga o Maracatu Leão Coroado, Nação Nagô, na periferia de Olinda. O maracatu nação é um folguedo ligado ao candomblé de matriz iorubá, mas carrega muitos elementos congo-angolanos, de matriz banto.

Isso sempre me fascinou. Justamente porque esse hibridismo só é possível no ambiente da diáspora. Conheci o congado, meio primo do maracatu, e minha paixão por esses folguedos e ritos só aumentou. Aliás, só aumenta. São ritos e folguedos de resistência.

Meu contato mais íntimo com culturas de matriz africana se dá por esses canais. Já meu contato com as artes africanas ainda é tímido. Pesquiso e conheço alguma coisa por curiosidade, mas tenho muita vontade de conhecer mais, até porque eu desenho e sou fascinada pelo trabalho com as cores de algumas culturas africanas. Tenho mais contato com a literatura africana, basicamente a literatura em língua portuguesa. Li pouca coisa de autores que escrevem em outras línguas.

Até aqui o que me tem mobilizado mais é o que se produziu e se produz no Brasil, na diáspora, mas espero que em breve eu possa ter mais contato com as artes de África, as atuais e as tradicionais, que são muitas, ricas e variadas. Gostaria muito de morar um tempo em algum país africano.

 

Da diáspora africana à construção de Brasília, alguns acontecimentos históricos são fundamentais para o enredo e abrem espaço para reflexões sobre a vida dos descendentes de escravizados dos dois lados do Atlântico. Como você vê essa inserção do real na sua ficção?

Há elementos de memória coletiva e de memória pessoal. Tudo meio misturado.  Não tenho dificuldade em colocar o real e o ficcional juntos no mesmo balaio. Desde que observe alguns limites, que eu mesma me coloco. Para não me confundir – e não confundir quem vai ler meus textos –, separo na minha cabeça, quando escrevo a cena, o que é memória coletiva do que é memória pessoal.

Procuro reproduzir os eventos ligados à memória coletiva com o máximo de fidelidade possível, a partir de alguma fonte confiável, até onde isso é possível. Já com a memória pessoal dos personagens, vale tudo, porque aí estamos no terreno da ficção. Sem trocadilho, foi na fricção dessas duas instâncias da memória que nasceram muitas cenas do romance.

Os personagens da ficção interagem com personagens reais livremente, mas a história pública dos personagens reais é respeitada. Um exemplo dessa dinâmica é o contato de Lígia com a cantora Cássia Eller. As cenas são todas ficcionais, embora os cenários e alguns personagens sejam reais. Outros dois exemplos são o famigerado Massacre da GEB e o enterro de JK. Ambos os eventos estão registrados na história de Brasília, mas os personagens que aparecem nas cenas que escrevi são ficcionais.

A mesma coisa acontece com episódios da história de Angola. Tudo que escrevi sobre a história do país está em livros, em artigos, em matérias de jornal. Apenas coloquei meus personagens em cena.

A memória atávica que importa neste livro é a de Lígia e de alguns outros personagens, como José Augusto e Dona Lali, por exemplo. Claro que, em algum momento, tudo se mistura, e minhas memórias, principalmente a pessoal e a coletiva, entram no jogo. Temos alguns pontos de contato, Lígia Vitalina e eu. Somos mulheres mais ou menos da mesma geração e crescemos ambas no DF, mesmo que em geografias muito diversas. Temos memórias coletivas comuns. Mas acho que é só. Misturar memórias do autor ou autora com as dos personagens faz parte da brincadeira.

 

Seu livro parece tentar uma narrativa possível do trauma: o trauma pessoal da protagonista, o trauma secular da escravidão, a ferida sempre aberta da exclusão dos negros. A memória, pessoal ou coletiva, por mais dolorosa que seja, é o caminho para uma superação?

Acho que sim. A memória é o começo desse caminho. Seja memória pessoal ou coletiva, ou mesmo uma mistura das duas. Memória é conhecimento. Depois dela é que vem a ação.

Não esquecer é fundamental. Ter acesso ao que fomos faz parte do que somos. Principalmente para quem foi sempre tão invisibilizado e forçado a esquecer suas origens, como os afrodescendentes na diáspora. É fundamental que as memórias dos negros e negras do Brasil sejam valorizadas, registradas, retomadas. Isso é básico. Temos que entender e reparar de uma vez por todas o estrago imenso que os mais de trezentos anos de escravidão de africanos e seus descendentes causaram à sociedade brasileira, ao país.

Estão aí o racismo, o patriarcalismo, o eurocentrismo, o abismo social, a desigualdade a nos gritar isso. Não podemos nos fingir de surdos nem mais um minuto. E temos que falar disso, debater, mostrar, denunciar, agir. Sem parar. Até que as coisas mudem.

 

O livro fala de dois continentes, duas culturas, duas línguas – e transita também entre outros duplos: prosa e poesia, palavra e imagem, ficção e não ficção, realidade e sonho. Como foi fazer essas travessias?

Não tinha pensado nesses duplos assim como você percebeu, mas faz sentido. No caso das línguas, há mais do que duas em cena. Além do português nas variantes brasileira e angolana, aparecem também as línguas nacionais de Angola, principalmente o umbundo, falado no planalto central e na província de Benguela. Algumas expressões com origem no kimbundo ou no kikongo, e já incorporadas ao falar angolano, também aparecem bastante, justamente porque são muito recorrentes. Por isso achei necessário incluir um glossário no final do livro.

Gosto dos cruzamentos de duas ou mais instâncias, desse amálgama. O escritor e historiador Luiz Antonio Simas fala muito das encruzas e cruzas de culturas, ritos, saberes, fazeres, etc. Sou fascinada por isso. No livro acabei por promover a junção de elementos. Diria que foi quase sem perceber. Mas algumas escolhas foram bem conscientes, como usar poesia e prosa, por exemplo.

Na verdade, a poesia é uma zona de conforto para mim. Lancei mão dela, e da prosa poética, nos momentos de muita tensão, emoção, violência. Funcionava como uma espécie de refrigério para a narradora. Quando ela não dava conta de narrar, porque era duro demais, usava a poesia. Foi por isso que a fiz poeta também. E emprestei alguns poemas meus a ela. Compus esses poemas para a embocadura de Lígia.

Para mim, o processo de criação de poesia é mais orgânico do que o de prosa. A maioria dos poemas e dos trechos em prosa poética entrou logo no início do livro. Um ou dois poemas eu fiz depois, para complementar trechos de capítulos. Os sonhos da protagonista também entraram no começo da escrita.

As ilustrações do livro tiveram uma trajetória bem diferente. Só entraram no projeto já perto do final do processo de edição. Decidi incluir ilustrações minhas por sugestão do editor, Eduardo Lacerda. A proposta dele era que eu fizesse seis desenhos para irem dentro do livro e talvez um outro para a capa. Acabou que eu fiz vinte desenhos, dos quais usamos quinze no miolo. Um deles na capa.

Nesse momento, a designer do projeto gráfico, Beatriz Agnelli, já estava trabalhando no livro e me ajudou a escolher as imagens, dar acabamento nelas. Bati bola com ela durante todo o processo de produção gráfica. Essa interação foi muito frutífera e me deu mais segurança. Por cima do mar foi o primeiro romance que escrevi e o primeiro livro que ilustrei.

Minha relação com as artes plásticas é de espectadora e aprendiz. Participei de workshops com artistas plásticos há alguns anos. Desenho e pinto timidamente desde os anos 90. De 2013 para cá, comecei a desenhar usando aplicativos para iPad.

Essa atividade tem rendido frutos e me ajuda a refrescar a cabeça depois de escrever. E já vendi um bocado de desenhos. A pintura feita com ferramentas digitais, impressa em fine art, em papel de alta gramatura, acabou se tornando uma segunda atividade para mim.

 

Há mais ou menos um ano você recebia a notícia do prestigiado prêmio Casa de las Américas. O que mudou de lá para cá?

Foi um susto bom receber esse prêmio! Aliás, um susto maravilhoso.

Maravilhoso porque é um prêmio importante e muito prestigioso no meio literário da América Latina e do mundo hispânico em geral. Porque a tradução para o espanhol e a edição cubana da própria Casa de Las Américas fazem parte do prêmio. Porque ganhar um prêmio dessa importância significa um reconhecimento da qualidade do trabalho.

Susto porque eu não esperava ganhar um prêmio como esse com um romance de estreia. Nunca me passou pela cabeça que eu tinha chance de ganhar. Mandei os exemplares e literalmente esqueci. Não acompanhei sequer o cronograma da Casa. Não porque não acreditasse no livro, mas porque achava que esse prêmio estava muito distante de mim.

Quando recebi a notícia por uma amiga, no Messenger, mal pude acreditar. Desatei a chorar de emoção. Depois, na mesma noite, quando li o parecer dos jurados, fiquei paralisada, surpresa. E feliz. Foi o primeiro texto que li sobre o meu romance. Um texto que, para além de ressaltar os pontos positivos da obra, me fez começar a entender o tamanho do livro que eu tinha escrito. Eu não tinha me dado conta disso até então.

Depois do prêmio, algumas coisas mudaram, claro. Os pedidos de entrevista e as resenhas pipocaram, muitas pessoas vieram me pedir amizade nas redes sociais, e o livro, que tinha sido lançado em julho de 2018, passou a ter mais visibilidade. Mais pessoas do meio vieram me procurar, essas coisas. Parece que a gente é promovida a um outro patamar quando se ganha um prêmio grande. Eu acho engraçado. Mas é muito bom!

 

No livro, você faz algo que se tornou quase inusitado nos últimos tempos: contar, em primeira pessoa, a trajetória de vida de alguém bem diferente de si mesma, uma mulher negra da periferia de Brasília… 

Tomei muito cuidado desde o começo, embora lá no início da escrita isso ainda não fosse uma questão para mim. Talvez porque eu ainda fosse muito verde em relação ao fazer literário e a essas questões todas. Ao longo dos anos, isso foi mudando.

Em 2017, comecei inclusive a questionar a legitimidade da narrativa que tinha escolhido. Afinal, sou a escritora branca cujo livro tem uma protagonista negra, narrando em primeira pessoa. E isso não se pode mudar. Cheguei a parar de trabalhar no livro durante um período. Rolou uma crise mesmo. Resolvi então ler, ver e ouvir intelectuais e escritoras negras mais do que já tinha feito até então, para tentar entender que caminhos eu poderia trilhar dali em diante.

Uma fala da Conceição Evaristo na FLIP 2017 foi fundamental para a continuação da escrita do romance naquele momento. Acendeu-se uma luz na minha cabeça. Mudei uma parte crucial da história da protagonista depois de ouvir essa fala. Foi um presente.

Mais adiante, assisti a uma entrevista no programa do Bial com a escritora Ana Maria Gonçalves, de quem sou leitora e fã, o Joel Zito Araújo e a Daniela Thomas. Falaram sobre Vazante, o filme da Daniela que gerou aquela polêmica toda durante o Festival de Brasília, justamente por essas questões de representatividade e lugar de fala.

Ouvi com muita atenção o que os dois artistas negros disseram. Já tinha percebido que meu lugar de escuta tinha que preceder minha fala. Sabia que, como autora branca, de classe média alta, eu falava de um lugar que não é o mesmo de uma mulher negra periférica. Não tem como ser.

A Ana Maria Gonçalves disse uma frase que me apaziguou. Mais ou menos assim: toda contribuição é bem-vinda, mas o bom é escrever junto, e não escrever por alguém, no lugar de alguém.

O que tentei fazer nesse livro foi escrever, pensar junto. Por cima do mar já nasceu com uma agenda: concebi o livro para que tivesse um viés antirracista, mesmo que fosse no subtexto, nas entrelinhas. Não queria um texto panfletário, mas uma obra de ficção que se apoia na realidade.

 

Lá pelas tantas, a narradora fala da orfandade como uma condição que não se supera. Seria a diáspora uma orfandade, a África essa mãe-origem redescoberta, essa continuidade desejada?

Acho que essa redescoberta é o real sentido da viagem de Lígia a Angola. Ela vai para lá para se unir a uma família angolana, fazer parte dela.

Na altura da história em que viaja para a África, ela já tem mais de 40 anos e é órfã de pai, mãe, tia. Sua travessia do Atlântico, de volta à terra de seus antepassados, é uma espécie de viagem de retorno, como ela própria diz logo no início do livro.

Lá Lígia se reparentaliza, para usar uma expressão que já ouvi de psicólogos. Isso se dá no seu encontro com a família de José Augusto, principalmente com a mãe dele. Em Angola também ela se vê nas pessoas que andam pelas ruas, nas mulheres, nas vendedoras ambulantes. Identifica-se com alguns costumes, semelhantes aos de sua família materna, e estranha outros.

Sua viagem não é para uma Angola mítica, para aquela África que está no imaginário de muitos afrodescendentes na diáspora, tampouco para a Angola que está nos livros de História que Lígia leu exaustivamente durante sua formação acadêmica.

Lígia Vitalina desembarca na Angola real, de 2011, com suas mazelas e seus encantos, um país que só se tornou independente de Portugal em 1975, outro dia, e depois disso passou 27 anos em guerra civil. Um país cheio de feridas abertas, mas encantador. É no país, onde provavelmente está a raiz de parte de sua família ancestral, que Lígia vai construir sua nova família, sua descendência. Continuidade desejada.

 

Essa descendência desejada recoloca a questão da continuidade das histórias. Com Lígia, parece que você criou não apenas uma narradora forte, mas uma personagem escritora de livros. É uma pista para o que você está planejando escrever nos próximos livros?

Algumas pessoas me perguntaram isso. Alguns amigos e amigas escritores inclusive me sugeriram que eu dê continuidade às histórias de Lígia.

Neste momento tenho outros projetos de escrita, um livro de contos já bem adiantado, para publicar no segundo semestre deste ano, talvez um de poesia para o ano que vem e outro romance, em fase de pesquisa e esboço.

Quando terminei a escrita de Por cima do mar, não pensei em continuação. Continuo não pensando, por enquanto. Não sei se Lígia vai voltar. Quem sabe?

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