O que ‘Black Mirror’ nos ensina sobre a vitória de Trump

O que ‘Black Mirror’ nos ensina sobre a vitória de Trump

Renato Prelorentzou

11 Novembro 2016 | 10h29

Pode parecer contraditório, mas o segredo do sucesso de Black Mirror é seu realismo. Em vez de mostrar carros voadores, viagens intergalácticas e paisagens megafuturistas, a série se limita a imaginar um futuro bem próximo, bem plausível. Dá a impressão de que basta a tecnologia avançar um pouco mais, o tempo avançar um pouco mais e, pronto, chegaremos a seus cenários sombrios e distópicos.

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Cena do primeiro episódio de Black Mirror

Mas o que faz Black Mirror mais apavorante — e talvez ainda mais realista — é que os personagens centrais quase nunca conseguem reagir aos desafios do enredo. A cada minuto, a trama sobe mais um degrau na escalada de tensão e os deixa com menos chance de mudar o rumo dos acontecimentos. Sem enxergar alternativas num mundo de novidades que não podem compreender muito menos controlar, os protagonistas caem em desgraça. Quando finalmente aprendem alguma coisa, já é tarde demais: suas vidas estão devastadas.

Desde o anúncio da candidatura de Donald Trump, revistas e jornais americanos começaram a publicar textos ficcionais que imaginavam o futuro do país sob sua presidência. Mas nenhuma dessas Distopias Trump chegava a inventar nada muito distante da realidade: os escritores se limitavam a imaginar um mundo onde o candidato eleito simplesmente cumpria suas promessas de campanha. Bastou o tempo avançar um pouco e, pronto, esse futuro está bem próximo.

Supporters react to election results during Democratic presidential nominee Hillary Clinton's election night rally in the Jacob Javits Center glass enclosed lobby in New York, Tuesday, Nov. 8, 2016. (AP Photo/Frank Franklin II)

Cena dos resultados da eleição americana (Frank Franklin II/AP Photo)

Barrada no baile do capitalismo financeiro globalizado, a classe média branca se viu sem lugar no mundo. Como os democratas não souberam lhe oferecer alternativas de futuro, ela abraçou o herói improvável que lhe prometeu trazer de volta o passado, uma América mítica, tradicional — e, claro, nacionalista, racista, machista, armada e antidemocrática.

Foi um choque. E, agora, os analistas políticos de todo o mundo estão escrevendo suas próprias Distopias Trump. Projetando cenários futuros sob sua presidência. Calculando se ele vai conseguir dobrar as poderosas instituições da república e do mercado para forjar a América à sua imagem e semelhança.

Para muitos analistas, é o começo do fim: Trump vai desencadear uma catástrofe global na economia, na geopolítica e no meio ambiente.

Para muitos outros, não é nada de mais: Trump vai se enquadrar e acabar provando que todos os absurdos que disse e fez durante a campanha — e a vida inteira — eram apenas promessas eleitoreiras de um fanfarrão.

Enquanto os analistas debatem, os seguidores mais radicais de Trump partem para a ação. Nem esperaram sua posse para atacar as minorias e os estrangeiros.

O que vai acontecer quando esses fervorosos trumpistas perceberem que ele não terá como cumprir suas promessas delirantes, que ninguém vai lhes trazer o passado tão sonhado? A quem — e a que — eles vão recorrer? Pois é.

Trump é um imenso degrau numa escalada de tensão que há tempos deixou de ser silenciosa. Quem continuar por aí, meio arrogante e meio displicente para encarar a real, achando que tudo isso é só histeria, que tá tudo bem e já já passa, seguirá sem enxergar alternativas nesse mundo que ainda não podemos compreender.twitter

Na madrugada de quarta-feira, diante dos resultados da eleição, a conta da série Black Mirror tuitou: “Isso não é um episódio. Não é marketing. Isso é realidade”. Os futuros distópicos são assim: seus protagonistas demoram a perceber o que está acontecendo e, a cada minuto que passa, ficam com menos chance de mudar o rumo dos acontecimentos. Quando eles finalmente aprendem alguma coisa, já é tarde demais.

 

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