As mídias digitais e nosso senso de realidade

As mídias digitais e nosso senso de realidade

O relatório de uma universidade britânica e um clássico da historiografia lançam luz sobre o papel das mídias na formação do nosso sentido de identidade e de realidade – e sobre as consequências de seu declínio.

Renato Prelorentzou

30 Novembro 2018 | 15h53

Semanas atrás, a London School of Economics (LSE) publicou o relatório “Enfrentando a crise da informação: um quadro de políticas para a resiliência do sistema de mídia”.

Seu diagnóstico é inequívoco: algoritmos, likes, trolls, bots e fake news estão deteriorando as estruturas que promoviam as boas práticas jornalísticas. A tecnologia oferece um potencial inédito para promover o debate e aprimorar a tomada de decisões, mas também desorienta, distrai, dissemina ódios e mentiras (além de vazar dados pessoais dos usuários).

Segundo o relatório, a crise de confiança na informação decorre dessa disrupção das mídias digitais e se manifesta em “cinco grandes males”, que se alimentam mutuamente:

1. Confusão: Com as transformações na mídia e a superabundância de fontes em inúmeras plataformas, as pessoas já não sabem o que é verdade, nem em quem acreditar. Essa desorientação se intensifica devido ao modelo de publicidade das plataformas, que lucra ao direcionar conteúdos que ecoam os medos e preconceitos de cada usuário, e não a verdade.

2. Cinismo: Confusas diante desse dilúvio de informações e opiniões, as pessoas estão perdendo a confiança até mesmo nas fontes de informação confiáveis. Trata-se de uma tendência global, principalmente entre os jovens.

3. Fragmentação: As pessoas têm acesso a infinitas possibilidades de conhecimento, mas o conjunto de fatos consensuais – sobre o qual baseamos nossas decisões – está encolhendo. Com a crise do jornalismo e o deslocamento da interação pública para canais privados e criptografados, como o WhatsApp e o Snapchat, as pessoas estão cada vez mais divididas entre diferentes verdades, acreditando em narrativas e realidades paralelas.

4. Irresponsabilidade: O poder de decidir qual é o sentido das coisas está concentrado nas mãos de organizações digitais que não possuem um código de ética consistente e atuam fora de linhas claras de responsabilidade e transparência. Já se constatou, por exemplo, que as redes sociais pouco fizeram para impedir bots russos de viralizarem informações falsas e que a busca do Google promoveu o movimento antivacina, ambos os casos com graves consequências para a saúde pública e o processo eleitoral dos Estados Unidos.

5. Apatia: Como resultado, as pessoas estão se afastando das estruturas da sociedade e perdendo a fé na democracia. Além de não confiarem nas fontes de informação, elas tampouco acreditam que os governos e as empresas estejam agindo de acordo com o interesse público.

“Mas não é hora de entrar em pânico”, diz o relatório. Na verdade, o surgimento de novas mídias sempre criou “expectativas utópicas e medos distópicos”.

Já se disse que o rádio era uma promessa de paz mundial. Que a televisão criaria um público infantilizado e passivo. Que a internet transformaria o mundo numa grande democracia – ou num pesadelo de ficção científica.

Edição da Companhia das Letras para o clássico publicado em 1983.

Em Comunidades imaginadas, o historiador Benedict Anderson sublinhou a importância da mídia impressa para a origem e a difusão do nacionalismo.

Desde que Gutemberg inventou a prensa de tipos móveis, em 1454, livros, periódicos e panfletos massificaram a informação e sua distribuição.

Nesses textos, diz Anderson, o latim foi substituído pelas línguas vernáculas, o que padronizou dialetos em idiomas nacionais e facilitou a alfabetização das massas.

Agora popularizados, jornais, calendários e romances nacionais se dirigiam a habitantes de um mesmo espaço e o mobiliavam com notícias, personagens, paisagens e sentimentos próprios da nação.

Ainda que jamais se encontrassem, que em tudo fossem diferentes, esses leitores desconhecidos entre si tinham a sensação de que habitavam uma mesma pátria.

Para Anderson, as nações são construções sociais, comunidades imaginadas por pessoas que, acompanhando as mesmas histórias, ao mesmo tempo, se acham unidas pelos mesmos valores e ideais – e, por isso, compartilham uma mesma identidade e um mesmo senso de realidade.

As narrativas contadas nos livros, jornais, periódicos, panfletos e, depois, no rádio, na televisão e no início da internet reforçaram nacionalismos e, mais tarde, o senso de pertença a uma comunidade global.

Mas essa era do broadcast parece ter passado. Hoje cada um recebe informações customizadas a seu gosto, no seu tempo, por suas redes. Já não se pode dizer, com Anderson, que estejamos ligados por padrão na linguagem, unidade de espaço, sincronia de tempo, sintonia de afetos.

Quais as consequências de não mais compartilhamos o mesmo senso de realidade, o mesmo conjunto de fatos consensuais?

Já estamos vivendo as primeiras: os desafios enfrentados pelas democracias “desencadearam respostas populistas”, diz o relatório da LSE, “em parte porque o novo sistema de mídia favorece respostas simples e emotivas”.

No momento em que mais precisamos de fatos e estudos que instruam nossas decisões, o que predomina é o ruído, a banalidade, o desprezo pelo conhecimento.

Sem informação para compreender o mundo, a cidadania se torna vazia e o governo democrático, impossível”, diz o relatório. Sem mídias que “estejam à altura da tarefa de gerar debates bem informados sobre a justiça social num mundo complexo”, o futuro pode ser bem distópico.

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