Aprenda a contar histórias com a Pixar

Aprenda a contar histórias com a Pixar

Renato Prelorentzou

03 Março 2017 | 17h00

Desde os tempos das cavernas até a era do Instagram, tudo o que fazemos é contar histórias. Esse é nosso jeito de dar sentido ao que vivemos — e também é a melhor maneira de deixar nossa marca na memória e na emoção das pessoas.

Mas, mesmo que pareça algo natural, contar histórias não é tarefa fácil. E é isso que a Pixar quer ensinar.

Em parceria com a Khan Academy, a Pixar começou a oferecer um curso de storytelling totalmente online e gratuito, com vídeo-aulas sobre processo criativo, desenvolvimento de ideias, técnicas narrativas e criação de personagens e de mundos ficcionais.

A primeira parte do curso já está no ar. Enquanto a gente espera as próximas lições, fiz um catadão de algumas dicas, regras e elementos que aparecem aqui e ali nos filmes da Pixar e nas palavras de seus diretores, produtores, roteiristas e pesquisadores. Longe de mim querer encerrar o assunto. Bem ao contrário: se você tiver outras dicas, sugestões e críticas, é só me procurar no Facebook ou no Twitter.

 

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CRIANDO PERSONAGENS 

Tem que ter desejo: É muito comum que simpatizemos com personagens que são parecidos conosco — e ainda mais com personagens que são aquilo que gostaríamos de ser. Fortes, ricos, bonitos, poderosos, confiantes. Então fica a pergunta: como a Pixar nos faz gostar de ratos de restaurante, monstros assustadores, robôs enferrujados e bonecos ególatras? A resposta é simples: não gostamos desses protagonistas pelo que são, mas sim pelo que temem e desejam. Por mais esquisitões que nos pareçam, compreendemos como se sentem porque eles têm medos, desejos e sonhos — e nós sabemos bem como é isso.

Tem que ter desafio: Todo filme da Pixar fala sobre protagonistas empurrados para fora da zona de conforto. E essa é uma bela dica de seus roteiristas: “se seu personagem gosta de uma coisa, faça-o enfrentar o oposto”. O que ele vai fazer? Como vai reagir? É isso que movimenta a história. O herói tem que ser desafiado, chamado para uma aventura, levado ao limite. Só assim vai sair da vida comum, reagir, aprender, crescer e se transformar.

Riscos e sacrifícios: Não existe história sem conflito. Mas conflito não é um mero arranca-rabo entre personagens: é o obstáculo que separa o herói de seu desejo. A audiência precisa sentir que tem muita coisa em jogo para o protagonista, que ele corre um risco real de perder aquilo que mais ama, aquilo que dá sentido à sua vida. Só aí é que saberemos o que ele está disposto a sacrificar, o que realmente quer, quem realmente é e quem precisa vir a ser.

Opiniões fortes: Um bom protagonista começa a história cheio de certezas, pois só assim terá motivações sólidas o bastante para gerar conflitos concretos e profundos. O curioso é que a Pixar usa esse mesmo princípio para desenvolver também seus antagonistas: eles não fazem malvadezas simplesmente por serem malvados. Suas escolhas são bem justificadas por suas convicções — só que essas convicções são pautadas por desejos e valores opostos aos do protagonista. Quanto mais convictos forem os personagens, mais coerente será seu embate e mais significativa e cativante será a história.

Pontos fracos: O protagonista precisa ter opiniões fortes para ter desejos fortes e arriscar muito quando for desafiado. Mas também precisa fracassar — só para tentar de novo, arriscar mais, mudar para melhor. Nossa conexão com os personagens da Pixar se dá através de suas vulnerabilidades. São suas falhas e fraquezas que os deixam mais complexos, verdadeiros e próximos de nós. Gostamos de vê-los em seus momentos de sucesso, claro. Mas gostamos ainda mais de ver que eles caem — mas depois se levantam para tentar e tentar até o fim. É isso que nos inspira.

 

PRENDENDO A ATENÇÃO DA AUDIÊNCIA: A ESSÊNCIA DA HISTÓRIA

A expectativa: Toda boa história começa com um tipo de promessa. Pode ser o simples Era uma vez… dos contos de fada. Pode ser a misteriosa cena de crime dos romances policiais. De um jeito ou de outro, a história precisa prometer que vai ser interessante, que vai valer a pena. Por isso, um dos principais mandamentos da Pixar é o make me care: faça com que eu me importe. Crie nos personagens e na audiência um sentimento de antecipação, de curiosidade, de importância e de incerteza sobre o que está por vir.

A teoria do dois mais dois: Os seres humanos são bichos que resolvem problemas. Nosso cérebro evoluiu para fazer deduções, criar hipóteses, imaginar saídas. Contar uma história nada mais é que convidar a audiência para jogar esse jogo. É ocultar estrategicamente as informações para que ela junte as peças, resolva o mistério, descubra o segredo, pense junto. Aí está a graça da brincadeira. Como dizem os roteiristas da Pixar, não entregue tudo de bandeja para a audiência: “não diga 4, diga 2+2”.

Sentido e verdade: Mesmo que falem de cenários e personagens fantasiosos, os filmes da Pixar são muito mais que desenhos animados e bem coloridos para as crianças. São histórias sobre emoções e valores fundamentais da condição humana: família, amizade, respeito, compaixão, a passagem do tempo, o sentimento de perda, a necessidade de nos sentirmos amados, úteis, vivos. A Pixar superou a Disney ao compreender que amamos as histórias que impõem um sentido ao caos do mundo, que dão a sensação de que agora compreendemos a verdade da vida.

Do fim pro começo: Contar uma história é fazer uma promessa e, principalmente, saber onde a história vai chegar. Saber que tudo o que você diz, desde a primeira palavra, precisa apontar para esse final. E os finais são difíceis de escrever, pois é nesse momento que você enfrenta a pergunta que não quis calar desde o início da escrita: “Por que preciso contar essa história? Qual é a verdade universal que ela transmite?”. A resposta lhe dirá qual é seu tema, a essência de sua história E é a partir daí que você terá de reescrever tudo, desde o começo, para que cada palavra aponte para esse final.

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MONTANDO A ESTRUTURA

Parece simples, mas não é: A Pixar usa uma estrutura de enredo que funciona como um jogo de preencher as lacunas: Era uma vez ___. Todos os dias ___. Até que certo dia ___. Por causa disso ___. Por causa disso ___. Até que finalmente ___. E daí em diante ___. Os dois primeiros passos apresentam o protagonista, seu mundo e seu desejo. O terceiro traz o incidente, o chamado para aventura, o acontecimento que vai mudar a vida do herói e exigir sua reação. Os sucessivos Por causa disso representam os obstáculos que o protagonista terá de enfrentar. Mas cuidado: “Por causa disso” é bem diferente de “depois disso”. A história não pode ser só uma sequência de acontecimentos um depois do outro. Os eventos precisam vir numa cadeia de causalidade, como se tudo a partir do incidente tivesse de acontecer do jeito que aconteceu. O penúltimo passo, Até que finalmente, traz a resolução do conflito. E daí em diante, o último passo, é o motivo pelo qual contamos a história: a mudança significativa no herói e em seu mundo, algo relacionado ao tema, à “moral da história”.

Coerência, coerência, coerência: Uma boa história fala sobre personagens interessantes tomando decisões interessantes e emocionalmente justificadas. Sair voando numa casa pendurada em balões coloridos é uma ideia linda e original — mas só faz sentido porque antes acompanhamos a história do velhinho de Up! e então podemos sentir que, apesar de surpreendente, sua decisão foi lógica e quase inevitável. O universo ficcional da Pixar é super bacana e fantasioso. Mas só cativa a audiência porque as emoções, motivações e decisões de seus personagens são coerentes.

Deus ex machina: Coincidências acontecem na vida. Mas não podem acontecer com o protagonista — a menos que seja para complicar ainda mais sua situação. Deixar que as soluções caiam no colo do herói é roubar o prazer de descobrir como ele venceria os obstáculos sozinho, o prazer de saber quem ele realmente é.

Foco e economia: As boas histórias são mecanismos complexos e muito bem ajustados. Não tem nada faltando. Nada em excesso. Cada parte é necessária e todo personagem cumpre uma função: iluminar um aspecto do herói, representar os valores que lhe são caros ou desafiar suas convicções, impondo obstáculos que gerem conflitos e movimentem o enredo. Você pode até criar personagens apenas para mobiliar o universo ficcional, desde que eles sejam muito interessantes e não atrapalhem o enredo. Mas, se dá para contar a história sem determinado personagem, é sinal de que talvez seja melhor tirá-lo mesmo.

Surpreender sempre: uma das marcas da Pixar é sua determinação em evitar ou mesmo reverter clichês e convenções. Os filmes começam com estereótipos, só para depois quebrar a regra e desafiar a audiência: vemos um tubarão feroz, mas ele é vegetariano. Vemos uma princesa linda, mas ela não sonha com nenhum príncipe da Disney. Isso deixa os personagens mais interessantes, a história mais original e a audiência com mais expectativa.

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BOTANDO AS IDEIAS NO PAPEL

Toda hora é hora de escrever: quando ficam só na cabeça, as ideias parecem perfeitas, geniais. Só quando você começa a botar no papel é que vai percebendo seus problemas, suas inconsistências. Por isso, é fundamental dar concretude a elas, mostrá-las para os outros, discutir, colaborar, fazer as coisas acontecerem. Se você não escrever suas ideias, seus personagens nunca vão existir no mundo, nunca vão contar sua história a ninguém.

As melhores ideias vêm da vida: Os filmes da Pixar não falam sobre acontecimentos. Falam sobre sentimentos que todos podemos compartilhar. Por isso, deixam uma dica: escreva aquilo que você sabe, aquilo que você se sente. Contar uma história é se conectar a outra pessoa, fazê-la sentir o que você sente. E você só vai conseguir fazer essa conexão se escrever com honestidade.

Travou? Se você não consegue avançar na escrita, faça uma lista das coisas que não aconteceriam no enredo. O que não pertence à história? O que nunca poderia ocorrer? Quando você souber por onde não seguir, vai descobrir aonde quer chegar. Um bloqueio criativo às vezes é o melhor jeito de ir explorando e construindo seu universo ficcional.

Continue a nadar, continue a nadar… a Pixar entende que criar histórias é um processo de tentativa e erro. Seus criadores sabem que vão errar. E até se programam para errar. Descartam a primeira, a segunda, a vigésima nona ideia. Contam e recontam uma, duas, três, trinta vezes. Testam inúmeras possibilidades para surpreender os outros e a si mesmos. Melhor que ninguém, sabem que o segredo é tentar e tentar até o fim.

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Agora que você já chegou até aqui, veja como tudo isso se aplica em Piper, vencedor do Oscar de Melhor Curta de Animação.