A pós-verdade começa em você

A pós-verdade começa em você

Renato Prelorentzou

27 Janeiro 2017 | 18h28

Donald Trump assumiu a presidência dos Estados Unidos na última sexta-feira, dia 20. No sábado, enquanto a internet se inundava de fotos aéreas comprovando que havia muito mais gente na posse de Barack Obama que na de Trump, o porta-voz do governo recém-empossado declarou: “O nosso foi o maior público numa posse presidencial. E ponto final”.

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Foto: Javier Zarracina/Vox

No domingo, Kellyanne Conway, conselheira da Casa Branca, deu uma entrevista à NBC. O âncora do jornal lhe perguntou por que o porta-voz de Trump mentira sobre o tamanho do público na posse. “Você diz que o porta-voz mentiu”, ela respondeu, “mas ele apenas apresentou fatos alternativos”.

O âncora insistiu: “fatos alternativos não são fatos. São mentira”.

“Não tem como contabilizar multidões, não há como provar”, a conselheira respondeu, para o riso incrédulo e sarcástico do âncora. “Você pode rir de mim quanto quiser. Aliás, isso é simbólico do jeito como nós [o governo Trump] somos tratados pela imprensa. Eu só vou ignorar. Eu sou maior que isso, eu sou uma pessoa gentil e amável…”

O diálogo é bizarro na esfera das relações públicas, mas soa bem familiar no mundo das nossas redes sociais. Se eles estivessem no Facebook, um daria um hide no outro. E ponto final.

No Facebook, no Twitter e no WhatsApp é fácil silenciar, ocultar, bloquear, excluir e deixar de seguir as coisas de que não gostamos, as ideias com que não concordamos, as pessoas com quem não queremos conviver.

O negócio é que, quando só falamos com nossos iguais, não temos de encarar contra-argumentos. Aí nossas opiniões vão se tornando mais rígidas, extremas e, muitas vezes, distorcidas. Liberais ficam mais liberais, conservadores mais conservadores. Cada lado se fecha com suas certezas.

Pensando na “experiência do usuário”, as redes desenvolveram ferramentas e algoritmos que recortam e recontam o mundo para nos mostrar só o que queremos ver. Uma realidade ilusória, feita sob medida para cada um de nós, para satisfazer nossos gostos, interesses e crenças. Se algo não aparece na minha timeline, não existe. Se os outros não concordam comigo, eu ignoro. Se um dado me contradiz, é falso. Mas, se confirma o que penso, só pode ser verdadeiro. E ponto final.

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Mentiras, radicalismos e obscurantismos existem desde sempre, claro. Mas agora encontram nas bolhas, filtros e caixas de ressonância das redes sociais um ambiente perfeito para a proliferação.

Esse fenômeno renovado ganhou um nome: pós-verdade, termo que a Oxford Dictionaries escolheu como “palavra do ano 2016” e definiu como “circunstâncias nas quais a opinião pública é mais influenciada por emoções e crenças pessoais do que por fatos objetivos”.

Os efeitos da pós-verdade estão aí para quem quiser ver. Ano passado, um dos responsáveis pela campanha do Brexit admitiu: “fatos não funcionam, é preciso se conectar com a emoção das pessoas. Daí o sucesso de Trump”. Em vez de lidar com a realidade, é muito mais eficiente incitar o medo, o ódio, a nostalgia, o orgulho ferido e essa ilusão tão reconfortante de que podemos escolher o que é verdade e o que é mentira.

Desde que a Casa Branca defendeu publicamente sua noção de “fatos alternativos”, as vendas de 1984, romance de George Orwell, aumentaram quase 10.000%. Pode parecer inusitado, mas faz sentido: nessa que talvez seja a mais clássica das distopias, é um Ministério da Verdade que estabelece o que é fato e o que é falso, e as pessoas são levadas a “rejeitar as evidências que aparecem diante de seus olhos”. Para o Big Brother e o Partido que controlam o universo ficcional do livro, não pode haver ciência, nem método empírico, nem pensamento crítico. “A própria existência da realidade é negada”.

Orwell começou a escrever 1984 antes do final da Segunda Guerra. Pensava no destino das sociedades sob os totalitarismos de Hitler, Stalin e Mussolini. Em algum momento dos anos 1990, o futuro que Orwell imaginara pareceu coisa do passado, pois a utopia da revolução digital prometia liberdade de informação, transparência, democracia, diálogo, tolerância, progresso e inteligência.

Vinte e tantos anos depois, não deixa de ser irônico que as tecnologias da internet estejam levando o mundo na direção contrária — e que os leitores americanos se sintam de volta à distopia de Orwell. Melhor que ninguém, ele descreveu como nossa obstinação em negar a realidade cria sociedades inteiras iludidas por suas próprias mentiras. Resta saber o que veremos quando abrirmos os olhos.

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