A literatura e seus benefícios para a vida

A literatura e seus benefícios para a vida

Estudos dizem que quem lê é mais inteligente, interessante, bacana, feliz e atraente. Ler faz bem. Mas e se fizesse mal? Você deixaria de ler?

Renato Prelorentzou

07 Abril 2017 | 10h56

De uns anos para cá, começou a aparecer um monte de artigos e estudos bem interessantes sobre os benefícios da leitura. Não exatamente da leitura de relatórios, memorandos, jornais ou livros sérios e rigorosos. Mas da leitura de ficção mesmo. Contos, romances, poesia. Assim como as caminhadas matinais e a dieta glúten free, a literatura, dizem esses tantos estudos, faz bem para o corpo, a mente, o amor e os negócios.

Porque quem lê ficção tem vocabulário mais vasto, conhecimentos mais variados, mais história para contar, maior capacidade de se expressar e de defender seus pontos de vista. A leitura aprimora a criatividade e a inteligência emocional e, por isso, aumenta as chances de mandar bem numa entrevista de emprego, de manter um casamento feliz, de subir na vida e se realizar como ser humano.

O motivo de tanto sucesso é a famosa empatia. A leitura, diz Alain de Botton, escritor e fundador da The School of Life, é uma máquina que nos permite ver pelos olhos dos outros, sentir na pele dos outros e viajar a mundos distantes. “A literatura é um grande simulador de realidade”, ele continua, uma forma de imaginar cenários possíveis, de viver emoções e situações que jamais poderíamos testemunhar em vida.

Lendo um livro, você pode ser uma senhora londrina à espera dos convidados. Lendo outro, um jagunço nas veredas do sertão. A todo momento, quem lê se pergunta: e se estivesse no lugar dessa personagem? E se fosse uma outra? É esse exercício de imaginação que gera a empatia, pois, entre a introspecção da leitura e a projeção nas histórias alheias, quem lê conhece melhor a si e aos outros, aprende que há infinitas possibilidades, infinitos modos de viver e se relacionar.

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E não é só isso. Além de trazer benefícios a cada um, a leitura pode curar todo o mundo. Numa época de intolerâncias e extremismos, os livros de ficção formam melhores cidadãos, pessoas melhores, mais compreensivas e abertas ao diálogo, o que é fundamental para a democracia. A literatura, dizem esses tantos estudos, ensina humanidade aos humanos.

Tudo isso é muito bacana e lisonjeiro para quem gosta de ler, mas não deixa de ser curioso lembrar que nem sempre foi assim. Ao longo da história, não foram poucos os que disseram que a leitura é mero escapismo, que a ficção é pura frivolidade, que os livros são sórdidos e perigosos, um tipo de arte que compromete a lucidez e alimenta falsas expectativas em seus apreciadores.

Platão acusava a poesia de corromper o espírito. Rousseau denunciava a devassidão moral das obras ficcionais. Os autores de muitos dos clássicos da literatura criaram protagonistas que caíram em desgraça porque adoravam ler e sonhavam com uma vida tão aventuresca quanto a dos heróis dos livros que liam: Dom Quixote, o jovem Werther, Julien Sorel, Emma Bovary tinham a ficção por hábito, mas a literatura não lhes fez nada bem.

É difícil saber o que mudou de lá pra cá. Sem dúvida, mudou muito o tipo de histórias que lemos. Os grandes romancistas que ridicularizavam a leitura estavam, é claro, defendendo seu novo jeito de fazer literatura — e isso talvez tenha mudado nossa percepção sobre sua pertinência e potencialidade.

Mas talvez tenha mudado, sobretudo, nossa maneira de lidar com nossos gostos e interesses. Hoje, parece que cada mínimo ato do cotidiano precisa ter uma função, precisa ser um passo rumo à tal “alta performance”. É inegável que a leitura de ficção tenha seus benefícios — e defendê-la sempre será infinitamente melhor que rechaçá-la. Mas ler e escrever literatura querendo que ela seja útil é, no mínimo, reduzir o mundo de possibilidades que a ficção abre a cada página. Um mundo em que precisamos de motivos para ler talvez seja um mundo que nem a leitura poderá salvar.

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