‘A chegada’ e a arte de viver quando tudo pode dar errado

‘A chegada’ e a arte de viver quando tudo pode dar errado

Renato Prelorentzou

02 Dezembro 2016 | 17h01

A chegada parte de várias premissas comuns aos filmes hollywoodianos de invasões extraterrestres: assombrosas naves alienígenas surgem em vários pontos do planeta e desencadeiam pânico em todo o mundo. Autoridades do governo convocam especialistas para enfrentar a situação. E aí entra em cena uma figura solitária, que até então vinha levando a vida no silêncio do anonimato e do trabalho — e que agora tem que salvar a humanidade.

Partindo de tantos lugares-comuns, não são poucos os momentos em que o diretor Denis Villeneuve ameaça levar A chegada pela trilha de algum outro filme que você já viu. Quando aumenta a tensão militar, você logo teme que tudo se transforme em Independence Day ou Guerra dos Mundos. Enquanto os especialistas pesquisam e filosofam, você se lembra de Interestelar ou Contatos Imediatos de Terceiro Grau. Nos momentos mais épicos, não é impossível se lembrar até mesmo de 2001: uma odisseia no espaço. E, se o filme tivesse um tom um pouco diferente, poderia ser a história de origem de um super-herói — algo na linha do Batman de Christopher Nolan.

Mas aos poucos Villeneuve vai se desviando e encontrando o próprio caminho. Seus alienígenas — contrariando uma curiosa premissa hollywoodiana — não falam inglês. E é por isso que seu herói não é um militar machão pronto para destruí-los, mas a Dra. Louise Banks, uma linguista renomada que parece mergulhar no trabalho para esquecer o trauma da morte da filha.

A partir daí, Villeneuve usa uma cinematografia ao mesmo tempo grandiloquente e intimista para revelar que, na verdade, A chegada é um estudo de personagem: a história do aprendizado da Dra. Louise, de tudo o que ela tem de passar para aprender a língua dos alienígenas e finalmente descobrir por que eles estão aqui e o que querem de nós.

Alguns spoilers de A chegada depois da imagem.

Arrival-Amy-Adams

Amy Adams como a Dra. Louise Banks de ‘A chegada’

No instante em que consegue escrever o idioma dos alienígenas, Dra. Louise descobre que sua estrutura gramatical lhes permite vivenciar o tempo de maneira circular e, portanto, antever o futuro. É claro que, como heroína do filme, ela vai usar esse superpoder que acabou de ganhar para salvar o mundo. Mas isso quase não tem importância.

Porque, nesse mesmo instante, nós descobrimos que as cenas que pareciam memórias do passado da Dra. Louise são, na verdade, flashbacks de seu futuro. E sentimos que A chegada começou a questionar outras de nossas premissas.

Qual é pior coisa que pode acontecer a uma pessoa? Acabar um casamento? Receber o diagnóstico de uma doença fatal e incurável? Perder uma filha? Tudo isso acontece na vida da Dra. Louise. E o mais comovente é que, na reviravolta final, entendemos que ela sempre soube que tudo isso iria acontecer e, ainda assim, escolheu viver cada um desses momentos.

É aí que compreendemos que A chegada não é só um filme sobre alienígenas, nem sobre a necessidade de nos comunicarmos e nos entendermos para além das fronteiras nacionais e culturais. É sobre o tempo. Sobre nossa forma de ver e viver o tempo. E sobre nossas liberdades e responsabilidades a cada escolha.

Se alguém desse spoiler da sua vida, você a viveria mesmo assim? Se você soubesse o que vai acontecer no seu futuro, mudaria suas escolhas no presente? E se soubesse que esse seu futuro será insuportavelmente doloroso, escolheria a vida apesar de tudo?

É claro que não há resposta certa.

Com sua cinematografia nostálgica — é estranho falar em nostalgia num filme em que futuro e passado se confundem — os momentos finais de A chegada parecem dizer: quando pôde experimentar o tempo como nenhum de nós jamais poderá, quando adquiriu um saber sobre-humano, a Dra. Louise tomou a mais humana das decisões. Decidiu apreciar cada momento, viver o presente, livre da aflição do futuro. Mas nada impede que o espectador discorde dessa mensagem otimista. Ou concorde e discorde ao mesmo tempo.

A chegada é baseado em um conto de ficção científica que Ted Chiang publicou em 2002, sob o título The story of your life, a história da sua vida. Esse título original talvez seja a prova maior de que, antes de tudo, A chegada é uma história de mãe e filha. É a história que a mãe conta à sua filha: a história de como conheceu seu pai e escolheu lhe dar a vida, para que ela e o mundo pudessem vivenciar a experiência única de sua presença, mesmo sabendo que seria por breves e sofridos momentos.

Por tudo isso, A chegada é, ao mesmo tempo, a história de todos nós. Nessa nossa época sombria, de tantas incertezas quanto ao futuro, o filme deixa uma pergunta: como continuar mesmo sabendo que tudo pode dar muito, muito errado? Deve ser por isso que tanta gente sai do cinema em silêncio.

 

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