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Uma ode a Cazuza – e ao que há de mais errado com o evento

Eliana Souza

13 Setembro 2013 | 23h32

Roberto Nascimento

“Vamos pedir piedade, senhor, piedade, para essa gente careta e covarde” ou “Mais uma dose. É claro que eu tô afim”. É provável que o refrão de Blues da Piedade, ou a abertura de Por Que a Gente É Assim, pérolas de Cazuza, talvez sejam as frases mais rock n’ roll que escutaremos em português nessa temporada de Rock in Rio. Diz muito sobre a postura do festival perante a música que se faz hoje no País que elas sejam de autoria de um ídolo morto há mais de duas décadas: o pequeno espaço que as bandas nacionais mais relevantes tinham, no Palco Sunset, em 2011, foi sutilmente enxugado, até deixar alguns rappers, como BNegão e Flávio Renegado como representantes do que acontece agora no País.

“O rock ronca in Rio”, cantou o genial Tom Zé já na última edição do festival. E a visão de Frejat, tocando uma respeitável guitarra, mas desferindo frases geniais de um gênio morto certamente pede o mínimo de reflexão sobre o estado da curadoria de um festival que esgota todos os seus ingressos em menos de quatro horas – e mesmo assim aposta no denominador mais comum, o feijão com arroz que satisfaz sem arriscar como uma novela das oito escrita pela tépida patota de autores consagrados.

A lembrança de Cazuza pedindo piedade aos caretas e covardes, assim, nos faz pensar sobre a quem o poeta estaria dirigindo essas palavras se estivesse sobre o palco Mundo, no primeiro show desta noite de quinta-feira. Justiça seja feita a alguns dos envolvidos na homenagem: Frejat, como fez no ano passado, mostrou a competência para solos e riffs que manteve também, em seu show no Rock in Rio de 2011. Quando lembrou Cazuza, pediu uma lembrança ao jornalista e produtor musical Ezequiel Neves, que descobriu o cantor. Também arriscou-se a pensar pelo poeta: “Sempre me perguntam o que eu acho que ele estaria pensando hoje em dia. Não sei. Só sei que ele estaria adorando ver o povo na rua nessas manifestações”, disse, e foi ovacionado pela multidão, que ainda não preenchia todo o espaço da Cidade do Rock.

Ney Matogrosso, um pouco fora de seu elemento, não decepcionou em sua versão de Brasil. Tampouco havia espaço para uma interpretação primorosa do cantor em meio ao arranjo stonesiano da música. Muito menos poderíamos esperar de Rogério Flausino, vocalista do Jota Quest, cuja versão destestosteronizada de uma voz de soul man é uma deprimente ode a tudo o que há de errado com o Rock in Rio (há muitos possíveis acertos também, como shows de Beyoncé, Justin Timberlake, Bruce Springsteen). Quando o cantor encarna o showman “bacana”, pede-se piedade, senhor, piedade. “Cazuza iria reclamar e adorar ao mesmo tempo”, disse Frejat antes do show sobre a homenagem que teve sua curadoria. Quanto à interpretação de Flausino, as dúvidas ficam no ar.

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