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Salif Keita bota para requebrar no Sesc Pompeia

Daiane Oliveira

12 de junho de 2013 | 20h40

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Roberto Nascimento – O Estado de S. Paulo

Talvez o aspecto mais marcante de um show de Salif Keita não seja a música, e sim o efeito dela em plateias como a de ontem, no Sesc Pompeia. Durante uma hora e meia, o cantor de afropop malinês envolveu a choperia em um possante transe rítmico. Sua banda tocou o fino – e o brejeiro – sem esforço, navegando por mantras de polirritmia africana e faixas do recente disco Talé, de 2012. Sua voz, firme e forte aos 63, preencheu o recinto com alma e pureza.

Mas a resposta que o conjunto teve do público foi o grande nome da noite. Assim que Salif subiu ao palco, sucedeu uma fantástica gama de gestos e passos. Corpos possuídos pela pulsação do grupo. Quadris mais malemolentes do que o de costume. Até quem não sabia dançar dançou. Um senhor de paletó afrouxou a gravata e lembrou seus dias de carnaval de rua. Um hipster fez uma dancinha parecida com o YMCA, mas de letras indecifráveis. Garotas brevemente ensaiaram uma coreografia. Junto aos conterrâneos de mais molejo, os de DNA afro e os familiares com os suingue cíclico do Oeste africano, formou-se uma bela foto rítmica de tribos e idades brasileiras. Salif e banda foram apenas o flash.

Eis a grandeza do mestre albino do Mali, descendente de reis e rainhas do ex-império africano: a forma e função de sua música, como a de toda a diáspora africana de pista, ambiciona contracenar. Trata-se de um meio, não um foco, com músicos que perpetuam uma vibração, sem mudanças, em versões estendidas.  Portanto, o que se ouve em um disco como Talé não se compara às mesmas faixas tocadas em show. Quem sabe faz ao vivo, e Salif não só se supera, mas cresce com o diálogo hipnótico entre corpo e música.

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