Rogéria dizia que era ‘a travesti da família brasileira’
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Rogéria dizia que era ‘a travesti da família brasileira’

Adriana Del Re

04 de setembro de 2017 | 23h42

Luiz Carlos Merten

Na entrevista que deu ao Estado – na estreia de Divinas Divas, o belo documentário de Leandra Leal sobre as pioneiras do travestismo no Brasil -, Rogéria reafirmou o que nunca se cansou de dizer. Que era “a travesti da família brasileira”. Rogéria partiu. Ela morreu nesta segunda, 4, aos 74 anos, vítima de um choque séptico no Hospital Unimed-Rio.

Quem já viu o filme sabe que Leandra conta por meio de um grupo de artistas travestis e transexuais a própria história. Menina, ela já vivia nos bastidores do Teatro Rival, na Cinelândia carioca. O teatro pertenceu a seu avô, Américo Leal, e ali as ‘divas’ fizeram shows memoráveis, inclusive o que deu origem ao filme, um dos melhores do ano. Divinas Divas começa de forma muito sugestiva. Com as fotos desses homens que se transformaram em mulheres De fundo, Nelson Gonçalves canta Escultura. É perfeito para definir do que trata o filme.

Rogéria na estreia do documentário ‘Divinas Divas’, dirigido por Leandra Leal, em São Paulo. Foto: Alex Silva/Estadão

Rogéria nasceu Astolfo Barroso Pinto no dia 23 de maio de 1943 em Cantagalo, Rio. Tinha 74 anos. Como dizia, metaforicamente, nunca quis se desfazer do Pinto. “Não sou louca de achar que sou mulher”, mas como artista ela foi – e (quase) perfeita, se não fosse o detalhe. Dizia que já era ‘viado’ na barriga da mãe e nunca sofreu discriminação. “Minha mãe sempre aceitou como sou e, quando tentavam me discriminar, eu baixava o Astolfo.” Garoto, já brincava de Cleópatra, liderando as legiões romanas formadas pelos meninos, da família e do bairro. “Não dava pra nenhum pra me respeitarem. Se alguém quisesse faltar ao respeito, eu baixava o pau. Batia mesmo.”

Muito jovem, foi para Paris. “Aquele clima seco transformou meu cabelo, que jás usava grande. Virou uma juba. Quando veio a cabeleira, liberei a mulher e virei Rogéria.” Na Espanha, não queriam que participasse de shows porque não era operada. Na França, foi cantar com orquestra. “Cheguei e ninguém me deu bola. Achavam que eu devia ser uma brasileira de m… Pensei comigo – ‘Vou ter de me impor.’ Soltei a voz cantando em francês. Me aplaudiram no final.”

No Brasil, participou de shows, filmes, novelas. Foi vedete de Carlos Machado (“As pessoas nem sabem mais quem foi ele”) e, em 1979, venceu o Mambembe por uma peça com Grande Otelo. Enfrentou a ditadura fazendo espetáculos transgressores numa época de muita censura. Sobreviveu a tudo e a todos. “Dores, só de amores, que foram muitos.” O público classe A sempre a admirou e respeitou, como artista. Fez o crossover. “Fiquei uns dias em São Paulo para lançar o filme (de Leandra). Botava tênis e ia ao supermercado. Das caixas aos funcionários, às donas de casa e aos senhores na fila, todo mundo queria fazer selfie comigo. O povo me ama. Sou vitoriosa.” Nunca foi de fazer passeata por direitos de gays, mas sabia que sem seu pioneirismo, e das demais divas, o movimento LGBT talvez não tivesse avançado tanto no País.

Nunca se esqueceu do que lhe disse a mãe.”Se você vai ser mulher, que seja de classe. Puta, não.” Respondeu a uma pergunta indiscreta do Estado – já que nunca operou, xixi sentada ou de pé? “Depende da disposição. Mas se faço de pé, levanto a tampa. Homem é muito porco, mija tudo. E eu seco. Essa história de última gota não é comigo não.”

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