Rock in Rio USA: Bruno Mars e John Legend levam fúria e calmaria para o encerramento
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Rock in Rio USA: Bruno Mars e John Legend levam fúria e calmaria para o encerramento

Pedro Antunes

17 de maio de 2015 | 08h20

Las Vegas
Nenhum dos dois faz o tipo de bom-moço, muito pelo contrario, alias. Diferentemente de Ed Sheeran e Taylor Swift, que se apresentaram no Rock in Rio na noite de sábado, 15, Bruno Mars e John Legend, principais atracões do quarto e ultimo dia de festival, destacam-se pela referência ao soul e às raízes da musica negra.

Na sexta, a combinação voz e violão parecia ser o necessária para garantir um lugar entre as atrações do festival. Foi assim do primeiro  show, com James Bay, ao ultimo, de Taylor Swift, cujo inicio de carreira foi marcado justamente pelo estilo de country pop, sempre com o instrumento a postos.

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No sábado, contudo, havia algo diferente ali, capaz de reunir 48 mil pessoas, cinco mil a mais do que o dia anterior. Era nostalgia. Não daquele tipo que cheira a naftalina e é extremamente dispensável. Grande parte dos artistas de peso que se apresentaram nos dois palcos do Rock in Rio, Main Stage e Mercedes-Benz Evolution Stage, no encerramento da primeira edição do Rock in Rio em Las Vegas, bebem de fontes marcantes. E o fazem de forma bastante reverente. Se Mikkey Ekko, que abriu as atividades no Evolution Stage, foi ofuscado pelo sol forte que esquentou a City of Rock, versão em inglês da Cidade do Rock, Mayer Hawthorne conseguiu uma impressionante recepção, mesmo diante de um público diminuto.

Hawthorne, um dia, ja foi apontado como o “soul man” a ser observado de perto pelos entendidos do gênero, mas hoje parece estacionado na escada da fama. O terceiro álbum, Where Does This Door Go, lanado no ano passado, foi menos eficiente em manter a aura de fenômeno. Encarregado para subir ao palco as 16h30 (em Brasília, 20h30), ele conseguiu reunir quase uma centena de pessoas para enfrentar o calor e, veja só, fazê-las dançar. “Obrigado por estarem aqui”, disse ele. “Sei que estamos tocando cedo. Está quente. Agora, sim, está parecido com o Rio de Janeiro”, brincou.

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Depois de um pasteurizado hip hop de Big Sean, inaugurando as atividades no Main Stage, a banda canadense Magic! já reuniu um público razoável a espera de Rude, maior (ou único) sucesso do grupo. A faixa, que está em alta rotação nos bares da Las Vegas Boulevard, principal avenida da região de entretenimento da cidade, teve o efeito desejado na Cidade do Rock. Trata-se de um reggae pop romântico que beira o genérico e poderá ser ouvido também no Rio de Janeiro, na edição realizada em setembro deste ano.

A disposição de Nasri, vocalista do grupo, é elogiavel, mas para por aí. Tem ar de “amante latino” e o visual composto por calca branca apertada e camiseta regata só ajudam a compor o personagem.  O repertorio além do hit é praticamente desnecessário, assim como uma cover de Message In The Bottle, do Police. A referencia da banda de Sting estava escancarada ainda antes disso, mas a versão só comprovou a teoria.

A estranheza indie de Empire of The Sun destoou da sonoridade coesa do line-up do dia, mas faz justiça aos seus heróis dos anos 70 e 80, criando texturas completas nos sintetizadores e vocais quase inaudíveis, de tao modificados. Quando querem colocar o publico para dançar, como com Walking on the Sun, eles o fazem. Só quando querem. O grupo australiano escolhe caminhos mais tortuosos, numa recusa a se entregar ao pop. Bobagem. Mas uma bobagem respeitável.

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Joss Stone, velha conhecida do publico brasileiro e do Rock in Rio, é outra que fara uma jornada dupla no festival, passando por Vegas e Rio. Suas referências voltam ainda mais no tempo, Evidencia suas raízes musicais com uma versão de I Put a Spell On You. A cantora dos pés descalços faz o tempo voltar a  1956, quando foi a canção foi lancada por Jay Hawkins. Mais provável, contudo, que Joss tenha se inspirado em Nina Simone que, assim como Annie Lennox, gravou a faixa.

A cantora de norte-americana encerrou as atividades no Evolution Stage e o público pode se concentrar diante do Main Stage. Todo o gramado foi tomado por pessoas, casais e grupos de amigos sentados. Pessoas em pé se posicionaram a frente do palco quando John Legend deu início a sua performance. Veio a calmaria. O coro de vozes vinha e todos os lados, inclusive daqueles sentados. E foi um show que pedia esse clima. Legend transformou a algazarra de festival em um momento contemplativo. Criou-se um laço genuíno entre público e artista, embalados por baladas do músico, no auge da forma.

Legend foi alçado ao posto de segunda força musical da noite quando Sam Smith, queridinho do Grammy, com quatro gramofones recebidos na última cerimônia, anunciou que seria obrigado a cancelar algumas das apresentações programadas, como o show em Las Vegas, para ser submetido a uma cirurgia na garganta. E Legend encerrou a apresentação justificando a promoção, com Glory, música com a qual ele ganhou o Oscar neste ano, na categoria de melhor canção original, criada para o filme Selma.

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Por fim, a fúria. No bom sentido. A força de Mars, um hitmaker de marca maior, é ainda maior no palco do que nos discos. Performer desde a tenra infância, quando se apresentava com a banda da família e fazia imitações de Elvis Presley e Michael Jackson, o rapaz de Honolulu dança e canta no palco com entusiasmo capaz de fazer Justin Bieber ter pesadelos e acordar sem fôlego.

Prestes a chegar aos 30 anos, completados em outubro deste ano, o Mars tem realizado uma carreira çmusical impecável. Emula a energia do motown, versa sobre dramas contemporâneos, ora baseado em experiências com substâncias ilícitas, ora com baladas de amor grudentas, daquelas que não saem da cabeça por horas a fio. Seu segundo disco, Unorthodox Jukebox, chegou ao topo de duas paradas norte-americanas. Somente Elvis conseguiu ter cinco singles no liderança do ranking Billboard 200 em menos tempo que ele, na categoria de cantor solo.

le desfila canções com apelo radiofônico preciso, como Treasure, Granede, Billionaire, Marry You e When I Was Your Man. Soa como um greatest hits de um artista com décadas de carreira. Mesmo que tenha somente dois discos, Mars entra na lista dos melhores performers do pop. Certamente, o melhor do segundo fim de semana desta primeira edição do Rock in Rio. Na disputa com a também impecável Taylor Swift, Mars venceu na base da fúria.