As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

‘Roberto Zucco’ é uma das atrações imperdíveis das Satyrianas

Marcio Claesen

25 de novembro de 2010 | 17h23

Se o cinema são imagens em movimento, por que não também o teatro? Ao menos em Roberto Zucco essa afirmação é verdadeira e faz parte dos trunfos do espetáculo que está em cartaz no Espaço dos Satyros e integra o Festival Satyrianas neste final de semana. O grupo, exímio pesquisador de novas propostas de encenação, fez, aí, um trabalho bastante elogiável nesse campo.

Na entrada, um aviso: quem sofre de vertigem é aconselhável não se sentar em lugares altos. A plateia, dividida em duas arquibancadas, é posta, durante os 80 minutos do espetáculo, de um lado a outro, configurando várias interpretações para o espaço cênico.  Aproximando o público das cenas e, ao mesmo tempo, criando múltiplos espaços para as mesmas, Rodolfo Garcia Vásquez, o diretor da montagem, conseguiu colocar um elenco de quase 20 pessoas no palco sem que ele parecesse amontoado. O termo ‘subutilizado’ aqui não existe. Todos os cantos do espaço recebem a ação. Mesmo com uma movimentação das estruturas que sustentam o público a qual precede quase todas as cenas, em nenhum momento há queda no ritmo. Ágil e preciso, o tempo-ritmo das cenas está à altura da proposta cênica.

Escrita por Bernard-Marie Koltès em 1989, que não chegou a vê-la montada uma vez que faleceu no mesmo ano, Roberto Zucco trata de um assassino serial e solitário e também muito safo – nenhuma cadeia consegue segurá-lo por mais que algumas horas. O personagem, que dá nome ao espetáculo, vaga pelas ruas de Paris com aambição de ser um indívíduo invísivel, “transparente” como ele afirma. O rosto bonito – além do indefectível ar de mistério que carrega – atrai algumas pessoas. Entre elas, uma garota que com o assassino perde a virgindade e ganha uma obsessão. O espetáculo acompanha os passos e crimes de Zucco e, ao mesmo tempo, a transformação da garota e o que isso acarreta em sua família.

Mesmo com muitos atores jovens, o elenco é quase uniforme quanto a qualidade da interpretação. Robson Catalunha, que interpreta o assassino, dá a dimensão certa de um personagem que oscila do frágil ao perverso, que é incapaz de desenvolver afeto genuíno por um ser humano, seja ele quem for. Cléo de Páris, como a irmã obcedada da jovem que é deflorada pelo anti-herói, apresenta nuances de voz poderosas que fornecem a sustentação para um papel difícil de uma jovem que transtorna de maneira gradual, ascendente e irreversível.

Os elementos visuais integram-se às cenas de forma não só plasticamente bela como bastante funcional. A cena do parque onde o assassino fará mais uma de suas vítimas é exemplo de recursos bem usados e boa disposição do numeroso elenco no palco.

Ao final, embarcamos nos universos da jovem, de sua irmã, da cafetina, da madame e, claro, de Roberto Zucco de tal maneira que nos sentimos cúmplices de seus dissabores, da amargura e desilusão que carregam, ingredientes caros aos personagens do universo de Koltès. Na saída, a praça Roosevelt, ao lado de fora, pode continuar movimentada pelas animadas conversas regadas à muita cerveja da classe teatral, mas um pouco desses seres tão solitários ficará conosco.

Roberto Zucco – Espaço dos Satyros. Pça Roosevelt, 214, Consolação, tel: 3258-6345. Quinta, 20h; sexta-feira, 21h; sábado, 21h e domingo, 18h30. Em cartaz até 19/12.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: