Quadro de Pollock, do acervo do MAM-Rio, não consegue lance mínimo
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Quadro de Pollock, do acervo do MAM-Rio, não consegue lance mínimo

Ubiratan Brasil

15 Novembro 2018 | 21h23

Tonica Chagas, Especial para o Estado, Nova York

O quadro Nº 16,pintado em 1950 pelo americano Jackson Pollock e posto à venda pelo Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio, não conseguiu comprador na noite desta quinta-feira, 15, na Phillips, em Nova York. Com estimativa de preço não apresentada no catálogo do leilão e informada previamente apenas a interessados, a pintura de Pollock teve lance máximo de US$ 15,7 milhões, abaixo do que esperava por ele a direção do museu brasileiro.
Em março, quando anunciou a venda, o MAM calculava obter US$ 25 milhões pelo quadro, mas a expectativa foi reduzida recentemente para em torno de US$ 18 milhões. Nº 16 (ou Number 16, seu título original em inglês) constava entre os 39 lotes de arte do século 20 e contemporânea colocados à venda, ontem à noite, na última das três sessões com obras dessa categoria realizadas pela Phillips esta semana.

Imagem da obra “Nº 16”, de Jackson Pollock. Foto MAM-RJ

Femme Dans la Nuit, de Joan Miró, com estimativa entre US$ 12 milhões e 18 milhões, foi vendido por US$ 22,59 milhões, já somadas as taxas e a comissão da casa de leilões (o preço da batida do martelo foi de US$ 19,8 milhões). O óleo sobre tela (129,9 x 162,6 cm), com a data de 22 de março de 1945 inscrita no reverso, é parte de uma série de 14 pinturas de grande formato que o pintor espanhol criou entre 26 de janeiro e 7 de maio daquele ano – o último deles feito no mesmo dia em que a Alemanha assinou sua rendição incondicional na 2ª Guerra Mundial.

Momento do leilão da tela de Pollock. Foto Phillips

Artistas, críticos, curadores e colecionadores se manifestaram contra a venda de Nº 16 desde que ela foi anunciada. A direção do MAM argumentou ter sido esta a forma encontrada para enfrentar as dificuldades financeiras do museu, instituição privada que teria custo anual em torno de R$ 6 milhões e déficit de R$ 1,5 milhão.
É a primeira vez que um grande museu brasileiro se desfaz de um item de seu acervo para se capitalizar. Segundo administradores do MAM, com o dinheiro da venda pretende-se criar um fundo para que o museu seja autossustentável por pelo menos 30 anos, melhorando sua infraestrutura e atualizando o acervo de arte brasileira, que é seu foco principal.
“A venda do Pollock se dá num quadro de incertezas e falta de transparência sobre como os recursos serão aplicados”, diz o artista plástico Luiz Zerbini, um dos cerca de 300 integrantes do Grupo Pró- MAM que assinaram manifesto contra a venda. “Isso não significará a ‘salvação’ do MAM. O dinheiro vai acabar e a solução, dirão eles, será vender outra obra.”
O Pollock vendido pelo MAM é tido como exemplar do apogeu do “período de gotejamento” que destacou o pintor americano na arte moderna. Ele faz parte de um grupo de 16 conhecidos, pintados em quadrados de masonite idênticos, de 56,5 centímetros. Pollock tinha dezenas dessas placas, lisas de um lado e texturizadas do outro, que sobraram de um trabalho de serigrafia feito por seu irmão Sanford, em 1948. No Nº 16, a imagem abstrata formada pelo gotejamento de linhas de tinta desenhadas no ar forma-se sobre o lado texturizado que Pollock pintou com tinta de radiador de alumínio.
Nº 16 foi doado ao MAM, em 1952, pelo político e magnata americano Nelson Rockefeller. Na época, o Rio ainda era a capital federal brasileira e o museu era abrigado, temporariamente, no prédio do atual Palácio Gustavo Capanema, então o Ministério da Educação e Saúde do segundo governo de Getúlio Vargas. Além do Pollock, Rockefeller doou também obras de Robert Motherwell, Fernand Léger e Yves Tanguy.