Pressa e fome de rebelião contra os preconceitos marcam Virada Cultural
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Pressa e fome de rebelião contra os preconceitos marcam Virada Cultural

Marcio Claesen

06 de maio de 2012 | 17h44

Jotabê Medeiros – O Estado de S. Paulo

Pouca política, muita marra. Pouca comida, muita farra. Apesar dos banners colocados pelo chef Alex Atala em seu estande (“Veta Dilma”, alusão ao desejo de ver refutado o texto do Código Florestal aprovado no Congresso Nacional), a oitava edição da Virada Cultural não foi marcada por grandes arroubos da vontade política. É mais a avidez e a pressa que deixam lembranças. A fila de três quilômetros que estendeu-se pelo pelo Minhocão em busca de pratos populares de grandes chefs da gastronomia estava em busca de diversão e arte,  é claro, mas principalmente de comida e novas experiências.
 

A política que compareceu nessa Virada não foi a partidária, mas a noção clássica de política: o combate à repressão social, do Estado, comportamental, o estímulo à derrubada dos preconceitos e das barreiras de sexo e classe. Apresentações antológicas dos grupos Suicidal Tendencies e Titãs deflagraram, no domingo, a fome de rebelião.

 


       

O público, às 9h30, rompeu as grades de proteção dos Suicidal Tendencies e juntou-se ao grupo no palco, em mergulhos temerários rumo à multidão, em uma dança frenética e sem regras. Os Titãs revisitaram uma fase em que arremetiam furiosamente contra o “sistema”, e sua velha eficiência retornou como que por mágica à pauliceia, em hits atemporais como Polícia e Bichos Escrotos.
 
No palco da República, as meninas Flora Matos e Lurdez da Luz invertiam o axioma do hip-hop, de que a rima é coisa dura e de macho, e tornaram o ritmo, por uma tarde, refém de versos mais macios, danças mais sensuais e impregnadas dos dramas femininos mais cotidianos.
      

A Virada foi marcada por uma mais ampla diversidade de gêneros do que em anos anteriores – rap, carimbó, hardcore, blues, surf music, teatro alternativo, teatrão, pole dance, erudito, psicodelia, pop, brega. Dois atos artisticos sem letras – a guitarra chorosa e virtuosa de Popa Chubby, americano que tocou com Aretha Franklin e Ray Charles, e a surf music do grupo Man or Astro-Man – já podem figurar entre algumas das melhores apresentações da década na cidade.
 
Pinduca, o rei do carimbó paraense, colocou o Arouche para dançar com sua música e seu senso de humor desbragado, e chegou a festejar um time de futebol “alienígena”, o Paissandu, em plena praça de conflitos do trio de ferro paulista.
     
Uma trágica morte, mais grandes problemas com o consumo desenfreado de álcool, conduzem ao paradoxo fundamental da Virada: para quê tanta pressa? A Virada só dura um dia, mas tudo que ela oferece está disposto pela cidade em doses seguras e mais reflexivas ao longo do ano todo.

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