Negra Li mostra suas raízes em novo disco
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Negra Li mostra suas raízes em novo disco

O Estado de São Paulo

03 Dezembro 2018 | 08h43

Por Pedro Rocha, especial para o Estado

Ao longo da sua carreira de quase duas décadas, Negra Li, revelada no movimento de hip-hop e rap paulistano, passou pelo pop e pela MPB em seus mais recentes trabalhos, como o álbum Tudo de Novo (2012), até retornar, agora, às suas origens em Raízes, disco que já está disponível nas plataformas digitais. As raízes são, mesmo, no plural. Raiz africana, musical e também capilar.

O álbum vem sendo preparado já há alguns anos, desde antes de ela dar à luz Noah, seu segundo filho, em julho do ano passado. Após uma pausa por conta do nascimento do bebê, o projeto foi retomado e a cantora voltou inspirada pela nova maternidade. “Cada momento me deixou de uma forma diferente. Quando eu tive a Sofia (hoje com oito anos), quis fazer MPB, estava me sentindo mais mulher, gostava de usar saião”, afirma a cantora ao Estado, numa entrevista por telefone, que começou com Noah em seu peito, até ser entregue ao pai.

“Com o segundo filho me senti mais jovem, escrevi as músicas muito rápido”, diz Negra Li. A artista, de 39 anos, no entanto, fala como se já fosse um pouco mais velha. “Tive muita liberdade para fazer esse disco como queria, todo o discurso. Pela primeira vez estive presente até mesmo na mixagem, participei de tudo”, explica. “É um espelho da minha maturidade, uma vez li que quando a gente chega aos 40 não aceita muita coisa, não deixa passar nada.”

A cantora Negra Li no clipe de ‘Raízes’. Foto: Maurício Nahas

O disco Raízes, para a cantora, é uma volta ao começo, no hip-hop, porém com batidas mais modernas. Ritmos como MPB, samba e reggae, porém, se misturam e não foram deixados de fora. O trabalho conta, dentre outras participações, com vocais, por exemplo, de Seu Jorge. “A gente tomou cuidado para não perder o que eu já tinha conseguido. Eu ganhei a liberdade de cantar de tudo e hoje tenho um público de dentro e fora do hip-hop”, acredita Negra Li, que diz não querer desapontar ninguém. “Você sempre quer levar sua arte para o maior número de pessoas, então tivemos o cuidado de misturar.”

O primeiro single do álbum, porém, é um hip-hop mais integral. A música que dá título ao disco, que contou com participação do rapper Rael, teve um clipe lançado no Dia da Consciência Negra, e traz versos críticos como “minha dor é de cativeiro, a sua é de cotovelo”. “Essa música veio para falar das pessoas que querem diminuir a nossa dor, dizer que é ‘mimimi’, menosprezar a nossa luta”, explica Li. “Quando você tem uma ferida, ela não vai sarar se você ignorar, tem que colocar o remédio certo. A consequência dos tempos de escravidão ainda está por aí.”

A música é uma das que também falam sobre as raízes capilares dos povos africanos. “Raízes também representa o meu cabelo natural, que é um cabelo que tem muita história.” A questão é tratada ainda na faixa Mina. “Essa música cantei de um jeito doce, para as crianças assimilarem”, afirma. “Minha filha tem muito orgulho do cabelo dela, mas vejo que algumas amiguinhas não têm. Ainda temos esse tipo de problema e representatividade importa.”

O tema da representatividade se aflorou em Negra Li especialmente depois de se ver como a mutante Tempestade, do universo X-Men, num desenho dos ilustradores Gil Santos e Loud, que retrataram nomes do hip-hop nacional como grandes heróis das HQs. “Nós, da periferia, sempre fomos abandonados. Os nossos super-heróis eram os Racionais, que lutavam por nós”, diz a cantora, que cresceu no bairro da Brasilândia, zona norte de São Paulo. “Esse quadrinho me fez entender que eu tenho uma missão, nada mudou.”

É por isso, que, na opinião dela, o seu lugar na cena do hip-hop brasileiro não foi preenchido, mesmo com anos vagando por outros ritmos. “Fiz falta nesse movimento, eu tinha essa representatividade.” Li, que nos últimos anos tem se dedicado bastante também à carreira de atriz, não se arrepende de suas andanças. “Precisei desses anos para amadurecer a ideia.”

Ela agora volta ao rap, misturando o canto de uma forma natural. “Não é fácil trabalhar as duas técnicas”, ela acredita, no entanto. Negra Li, que foi solista do coral da Universidade de São Paulo, admite que, por um tempo, teve a necessidade de se afirmar como cantora. “Teve uma fase que eu queria provar que cantava, não sabia separar as coisas.”

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