Na Flip, Gregório Duvivier, Charles Peixoto e Eliane Brum conquistam público com leitura
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Na Flip, Gregório Duvivier, Charles Peixoto e Eliane Brum conquistam público com leitura

O limite entre prosa e poesia foi o tema da mesa que reuniu, na hora do almoço desta quinta-feira, na Flip, a jornalista Eliane Brum, o comediante e poeta Gregório Duvivier, o poeta Charles Peixoto e o jornalista Miguel Conde, que fez a mediação

Maria Fernanda Rodrigues

31 de julho de 2014 | 14h45


Maria Fernanda Rodrigues

Enviada especial – Paraty

O limite entre prosa e poesia foi o tema da mesa que reuniu, na hora do almoço desta quinta-feira, na Flip, a jornalista Eliane Brum, o comediante e poeta Gregório Duvivier, o poeta Charles Peixoto e o jornalista Miguel Conde, que fez a mediação. Foi a primeira mesa literária desta edição da festa, que começou ontem à noite com uma homenagem a Millôr Fernandes, e ela comprovou que leituras de poesia funcionam – ainda mais quando se tem no palco nomes conhecidos do grande público, como Duvivier.

Eliane Brum contou que a poesia a alcançou primeiro pela palavra oral, em suas andanças como jornalista e por meio das histórias que ouvia. Como quando perguntou a uma mulher o que fazia uma parteira e ouviu: “A parteira é chamada a povoar o mundo nas horas negras da noite.”

Para uma de suas reportagens, ela acompanhou 115 dias da vida de uma mulher com um câncer incurável. Testemunhou, como disse, o seu morrer para escrever uma história que ela jamais leria. “Eu queria que aquela reportagem acabasse o mais rápido possível porque era brutal demais, mas ao mesmo tempo eu não queria que acabasse porque seria o fim dela”, conta. Foi a poesia que ajuda neste momento. “Há certas realidades que precisam ser inventadas para serem suportadas”, disse, e contou que depois daquilo começou a escrever seu primeiro livro. Ao terminá-lo, estava “dilacerada com a experiência da ficção”.

A jornalista contou também sobre o encontro com Sonia, uma menina com olhos de velha. “E nós jornalistas sabemos que quando encontramos uma criança com olhos de velha é porque aconteceu um crime ali. Sonia respirava a morte porque a morte respirava dentro dela. Antes de voltar para o Brasil, ela me agarrou e disse: não me deixe morrer.” Foi um confronto com a impotência e ali entendeu que carregaria sempre esse sentimento.

Brum faz um pacto com seus personagens. É seu papel contar a história delas e transformar o silêncio em palavra escrita. Hoje sabe que a palavra não pode salvar e é insuficiente para dar conta da vida. “Essa é a tragedia, e essa é a graça.”

A jornalista disse isso tudo ao tentar responder a pergunta do mediador Miguel Conde sobre como o tema da poesia e da prosa se encaixavam na obra dela e dos outros dois participantes do debate.

Gregório Duvivier se disse envergonhado, já que era “só um cara com um canal no Youtube e estava ao lado de Brum, ganhadora de todos os prêmios jornalísticos, pessoa que salvou populações ribeirinhas, mulheres.” O roteirista do Porta dos Fundos leu trecho da peça Liberdade, Liberdade, de Millôr Fernandes, seu ídolo, e preferiu falar sobre o humor, sobre sua duração, a responder a questão proposta por Conde – que sugeriu, depois, que Duvivier fazia poesia sobre o que gosta e humor sobre o que odeia. “Adorei essa definição. Eu gostaria de fazer poesia com a polícia militar, mas ela não permite esse tipo de liberdade”,

Ele disse que tenta, também no humor, equacionar o afeto. “Só o afeto salva, mas volta e meia o humor cai num lugar tentador. Às vezes perco essa medida e me arrependo, como no texto que escrevi para Sarney e me arrependo. Embora ele mereça, ninguém merece.” Mas foi só ao ler alguns de seus poemas de forma performática que arrancou aplausos da plateia.

Charles Peixoto também foi bastante aplaudido ao ler seus poemas. Antes disso, comentou que era difícil enfrentar a multidão logo de manhã e careta. Peixoto está lançando um livro depois de mais de suas décadas de silêncio. “Fiquei decepcionado quando fiz o Marmota e vi que estava matando árvore para dar de comer a cupim”, disse. “Contiuei escrevendo, é um impulso. Espero que dê certo dessa vez, que alguém compre, que ele não encalhe todo”, completou. Poeta marginal, ele disse que
talvez agora estejam vendo que aquilo o que faziam era tão ruim. “Leminski é um mistério. Não sei o que ele fez lá em cima. Não consigo entender, poesia vender 100 mil exemplares é uma loucura.”

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