Morre Vida Alves, pioneira da televisão brasileira
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Morre Vida Alves, pioneira da televisão brasileira

Adriana Del Re

04 Janeiro 2017 | 00h45

A série Nada Será Como Antes, exibida recentemente pela Globo, retratou, de maneira ficcional, o nascimento da TV brasileira. E, de certa forma, homenageou os pioneiros que ousaram – e ajudaram a construir a história da nossa TV a partir da estaca zero. Entre eles, está a atriz Vida Alves. Vida morreu, aos 88 anos, na noite de terça-feira, 3, por falência múltipla dos órgãos – o velório e o enterro ocorreram na quarta, 4 -, deixando vários legados. Protagonizou, com o ator Walter Forster, o primeiro beijo da televisão brasileira, na primeira telenovela da América do Sul, Sua Vida Me Pertence, na TV Tupi, que estreou em dezembro de 1951. Também deu o primeiro beijo gay da TV brasileira, em cena com Geórgia Gomide, no teleteatro Calúnia, em 1963.

Mas, mais do que ajudar a quebrar barreiras na teledramaturgia – e fazer parte de marcos históricos -, Vida, que também era escritora, produtora e diretora, foi importante na preservação da memória da TV brasileira ao fundar o Museu Pró-TV, em 1995, em sua própria casa, em São Paulo. No acervo, estão reunidos fotos, vídeos, figurinos, depoimentos, entre outros materiais. O museu tornou-se fonte para pesquisadores, além de prestar consultorias, realizar palestras, entre outras ações. Só para citar atividades recentes, o Pró-TV contribuiu com Nada Será Como Antes e com a exposição de Silvio Santos, no MIS, em São Paulo. “Ela acabou abdicando da própria vida por uma causa. Não pensava só nos pioneiros, mas também nas novas gerações”, diz o diretor executivo do museu, Elmo Francfort. Segundo ele, “a semente plantada por Vida terá continuidade”. “O museu continua suas funções normalmente. Thais Alves, sua filha, é a presidente desde agosto.”

Despedida. Nascida em Itanhandu, Minas Gerais, Vida Alves se mudou com a mãe e os irmãos, aos 6 anos, para São Paulo, após a morte do pai. Começou no Clube do Papai Noel, de Homero Silva, na Rádio Difusora de São Paulo. Continuou a carreira na rádio, até ser contratada por Walter Forster, na Rádio Tupi, aos 18 anos. Lá, ela permaneceu por 22 anos e, como foi muito comum com atores de rádio na época, migrou para a televisão, após Assis Chateaubriand criar a primeira TV brasileira, a Tupi, em 1950.

Apesar dos vários papéis que interpretou, Vida ficou marcada pelo primeiro beijo na TV. Mas não se importava em sempre falar sobre o assunto, ao longo de mais de 60 anos. A ideia do beijo, ousada para a época, foi proposta pelo ator Walter Forster, que também era autor de Sua Vida Me Pertence. Vida contava que levou um susto com a proposta. Afinal, ela estava casada havia pouco tempo com o engenheiro italiano Gianni Gasparinetti, a quem teve de pedir autorização.
“Ele (Forster) escreveu o beijo, porque não tinha espaço na televisão para uma novela, que era produto inferior, os grandes teatros que eram importantes. Por isso, ele queria uma coisa chamativa, e a coisa chamativa foi o beijo”, contou ela, em entrevista a Jô Soares. “Acho que inventei o beijo técnico”, brincou. Não há qualquer registro daquele beijo: na ocasião, o fotógrafo alegou que era algo que ninguém ia publicar.

Nos últimos anos, Vida também ficou conhecida como a avó da cantora Tiê. A atriz disse, certa vez, ao Estado, que percebeu, desde que a neta era criança, que ela tinha facilidade de comunicação. No Facebook, Tiê fez uma despedida emocionante: “Minha amiga, minha avó, minha parceira, minha musa beijoqueira. 88 anos de muita luz, amor, arte e vida. Vire estrela e descanse em paz. Te amo pra sempre e vou sentir saudades todos os dias”.

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