Médico de bonecas restaura lembranças e carinho em Buenos Aires
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Médico de bonecas restaura lembranças e carinho em Buenos Aires

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19 de setembro de 2017 | 11h15

Irene Valiente/ EFE

Em um pequeno, mas mágico, local de Buenos Aires, cerca de 400 bonecas antigas se amontoam entre dezenas de pernas, braços, olhos e cabelos compridos que já pertenceram a outras. Ali, o doutor Julio Roldán se encarrega de restaurá-las e devolver a seus donos as lembranças, a alegria e o carinho que simbolizam.

Com uma cabeça de plástico na mão e um avental onde está escrito “Dr. Roldán”, o médico recebe, sempre sorridente, todos que precisem de uma “cura” ou, simplesmente, que querem saber mais sobre o trabalho original ao qual se dedica há meio século.

Julio Roldán, o doutor de bonecas de Buenos Aires

Julio Roldán, o doutor de bonecas de Buenos Aires (foto: David Fernández/ EFE)

“Recupero afetos”, resumiu este ouvires – como ele mesmo se define -, de 70 anos, em entrevista à Agência Efe, na qual é a única clínica de bonecas que resta na cidade.

“Podem te dar de presente um Rolls-Royce, um anel de ouro, mas sempre o que vai permanecer é o afeto da boneca, porque o vínculo familiar que geram é ‘único’ e todas elas escondem histórias bonitas, tristes, alegres, e, além disso, sempre ‘verídicas'”, continuou o médico.

Roldán trabalha em uma pequena escrivaninha, que, quando faz bom tempo, coloca do lado de fora do consultório para poder “operar”, sob a luz do sol, seus pacientes, todos eles diferentes entre si porque, como diz o médico, “não há dois iguais”.

Ele trabalhou em Pedrito, um boneco japonês de 80 anos que consertou com peças fabricadas por ele mesmo, e que mostra orgulhoso e inevitavelmente emocionado após tantas semanas com ele.

Algumas vezes, é “agoniante” a quantidade de lembranças que se amontoam em tão poucos metros quadrados, não só pelas que vêm impregnadas nas próprias bonecas, mas também pelas que foi acumulando o doutor durante quase uma vida dedicada a isto.

Roldán contou como se tivesse sido ontem o dia em que foi consertar sua primeira boneca, uma dos anos 60 que estava com mecanismo de fala estragado e sua voz era “muito fanhosa”, ou a mais antiga que recebeu: uma autômata japonesa de 140 anos que não se movia bem.

O médico também se lembra perfeitamente da que mais lhe deu trabalho, pois tinha deixado de falar e andar e que, por mais que tentasse, só conseguia fazer funcionar desmontada.

“Depois de uma semana eu já estava alterado, abri a porta e a joguei quase na calçada da frente. Certamente, se fez em 20 pedaços. Você sabe como foi difícil depois juntar tudo isso de volta?”, relata Roldán antes de admitir que, ainda que nunca mais tenha feito isso de novo, o golpe fez com que ela voltasse a andar “como nunca”.

Todas estas experiências serviram para ele aprender uma original profissão que iniciou quando era menino e vivia em uma casa de barro em Villa Tulumba, povoado da província de Córdoba.

Ali, Roldán e os seus 11 irmãos fabricavam bonecos de barro junto com seu pai, um trabalho no qual, já então, se destacava.

Nestes 50 anos, mudou muito o seu público. Desde meninas e meninos pequenos, passando por colecionadores, até quem chega agora, na sua maioria bisavós, avós, mães e pais da Argentina, mas também de Brasil, Chile, Itália e Espanha.

Às vezes chegam sozinhos para recuperar uma destas lembranças em forma de boneco e às vezes com alguém para transmitir ao médico seu amor por estes mágicos e históricos brinquedos.

Produtores que buscam bonecas antigas para utilizá-las em filmes, programas ou séries de televisão também aparecem para consultar o médico. Porque se há um lugar para encontrar a que se procura, essa é a clínica de Roldán.

Apesar de ser consciente de que estão em perigo de extinção, o profissional não tem medo: “Seguramente estão perdendo o valor que tinham antes por todos os avanços tecnológicos, mas também há uma coisa que não vamos perder nunca, que são as famílias que querem que seus netos, filhos, bisnetos continuem brincando com bonecas”.

“Sou fã do que faço”, insistiu o artesão, admitindo que gostaria de que o ofício continuasse “por toda a vida”, mas que é difícil porque não se pode aprender em uma universidade, mas “se herda ou se aprende desde pequeno”.

Perguntado sobre que outra coisa acredita que poderia ter se dedicado, ele não dúvida em responder: “Se eu nascesse de novo, quero a minha mesma família, os meus 11 irmãos, nascer no campo, viver no campo e fazer esse mesmo tipo de trabalho”, concluiu o médico.

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