Marky Ramone e a mística do punk rock
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Marky Ramone e a mística do punk rock

João Luiz Sampaio

14 Setembro 2013 | 18h48

Jotabê Medeiros

À frente da banda do baterista Marky Ramone, o cantor Michelle Graves coçou o nariz nervosamente enquanto cantava, sentado na beirada do palco, “Now i Wanna Sniff Some Glue”, uma canção do clássico álbum “Ramones”, sua estreia, em 1976. Um gesto de outsider que recorre a efeitos duros e honestos para se reconhecer como gente. A canção, uma das melhores da jornada, é de uma época em que Joey Ramone deixava um testamento essencial do punk rock ao dizer: “Alguns álbuns custando meio milhão de dólares para fazer e levando dois ou três meses para serem tocados”.

Essa consciência de que um mundo opulento e artificial destruiria a alma do rock ainda pode levantar uns 3 mil malucos numa tarde quente na Cidade do Rock – mesmo que seu som soasse como uma banda cover dos Ramones. O encontro entre Marky Ramone e Michelle Graves foi rápido, barato e indolor na segunda noite do Rock in Rio. Tocando faixas como “Gimme Gimme Shock Treatment”, “Rock’n’Rol High School”, “Oh Oh Oh I Love Her So”, “Jude is a Punk” e “I believe in Miracles”, o grupo conseguiu levantar algumas rodas de pogo e espalhar uma poeira de integridade por aqui.

Marky Ramone está quase toda semana em São Paulo, é quase um artista-residente. Nada disso, entretanto, tira a autoridade de quem esteve lá, na bateria da banda mais essencial do punk rock, a mais proletária, mais despojada. Essa autoridade ele empresta para três ou quatro comparsas quando quer reavivar a chama, e sempre funciona. É cem vezes mais honesto Marky levando seu circo pelo underground do que Tico Santa-Cruz profanando o legado de Raul, que ele nunca vai compreender de verdade.

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