Mallu Magalhães não segura o peso de Moacir Santos
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Mallu Magalhães não segura o peso de Moacir Santos

Eliana Souza

20 Setembro 2013 | 17h53

Julio Maria

Mallu Magalhães jogada aos leões. O Palco Sunset merece aplausos pela ousadia. Mallu, pela coragem. E a Banda Ouro Negro, pela capacidade de não pensar em departamentos (pop, erudito, acadêmico) quando faz música. As intenções foram as melhores na junção de Banda Ouro Negro, especializada na obra do gigante maestro Moacir Santos, com Mallu Magalhães, mas não é o suficiente. A prática é muitas vezes ingrata, não tem bons modos nem respeita as boas vontades que a antecedem. E pode ser implacável. A fofura de Mallu não basta para dar vida, qualquer vida que seja, aos temas de Moacir e do universo que ele habita.

A segunda apresentação do Sunset foi provavelmente a mais ousada desta edição, embora o produtor do palco, Zé Ricardo, considere a união de Kimbra com o grupo Olodum o auge de seu experimentalismo. Ricardo fala em levar informação a um público que muito provavelmente não sabe muito de Moacir nem de Banda Ouro Negro. Consegue sucesso em termos, já que o que a plateia via era ‘Mallu e orquestra’, e uma Mallu diferente, por vezes tensa, por vezes desafinada, cantando preocupada em não errar.

O início do show foi assim. Mallu entrou no conforto de seu grupo para fazer Cena, Ô Ana, Olha Só Moreno e Wake Up In The Morning. Tudo singelo, pequeno e fofo, da forma como ela ficou conhecida ainda criança. Quando chamou a Ouro Negro, os problemas começaram. Verde diante da plateia grande, recebeu os tubarões de uma big band que não costuma brincar. Zé Nogueira no sax, Jorge Helder no baixo, Jurim Moreira na bateria, Armando Marçal na percussão, Andrea Ernest Dias na flauta. A imagem destas pessoas ali atrás de Mallu só as engrandecia ainda mais. Mas um vacilo logo na largada derrubou boa parte do show. A canção Lost Apetite seria introduzida com o violão de Mallu, mas ela não achava a divisão correta. Puxava as cordas no ritmo, mas não no timing. Mario Adnet, ao seu lado, pedia que acertasse a falha, mas aí o nervosismo tomou conta. O grupo não entrou, esperando que Mallu refizesse sua parte. “O que eu faço, maestro?”, perguntou a Adnet. O melhor foi parar e começar de novo, aí sim, no tempo correto. Um detalhe que seria só um detalhe não fosse ele uma falha no momento crucial.

Mallu recuperou-se bem em vários momentos, mas manteve-se oscilante. Antes de deixar o palco tensa para a Ouro Negro fazer três temas de Moacir (Coisa Nº 6, Amphibious e Coisa Nº 4), teve ainda problemas com o fone de retorno, que precisou ser trocado no meio de sua apresentação, enquanto ela cantava. Voltou então para Nanã, o tema maior de Moacir, e transpareceu mais fraqueza. Fez ainda April Child e Sambinha Bom antes de fechar com Velha e Louca. O público é generoso e torce para tudo dar certo. Não aplaudiu nunca com entrega total, mas não vaiou. Algo que, diante do grau de risco que o Sunset atingiu nesta tarde, já é um prêmio.

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