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Frejat em feliz repeteco no Rock in Rio

Eliana Souza

20 Setembro 2013 | 21h26

Roberto Nascimento

Os repetecos de Frejat no Rock in Rio são pontos para a velha ordem que rege a curadoria do festival com uma noção pop empobrecida e estagnada, mas também sustentam a tese de que, num evento deste tamanho, um capaz veterano pode fazer tanto pelo rock de uma noite quanto uma banda inédita. Embrenhado em sua fase de bluesman amadurecido, Frejat, de 51 anos, colocou mais uma vez (a outra havia sido em 2011) a multidão para cantar, em comunhão, os clássicos mais clássicos do rock nacional.

Subiu ao palco Mundo nesta sexta-feira à noite pouco depois das 18h30, De cara, o guitarrista jogou para a plateia com Divino Maravilhoso, de Caetano. Duas músicas depois, Minha Menina, de Jorge Ben, consolidou o tom rádio MPB que a primeira metade de sua setlist mostrou. Não Quero Dinheiro, de Tim Maia (seu cantor preferido), completou a conquista da Cidade Rock.

E, se apostou em um belo apanhado de covers, Frejat ao menos o fez com o ímpeto de uma inspirada banda de casamento. Quando chegou no refrão da música de Tim, e metade do Rock in Rio explodiu em delírio coletivo com a melodia – já havia deixado claro que, em termos de Brasil, seu show merece o repeteco. Mais vale um Frejat cantando covers do que 20 Rogérios Flausinos entoando “nanana”.

E, de fato, mesmo que desprovida de novidades, uma apresentação de um padroeiro do rock nacional que esteve no primeiro Rock in Rio tem um inegável apelo e uma pontualidade ritualística em um festival desses.

Cinco dias na agenda do festival já deixaram claro que refinamento e novidade podem ser trocados imperceptivelmente por nomes consagrados que ainda fazem boas apresentações. Mesmo que em um mamute como o Rock in Rio valha mais o que toca alto, o que sacode a massa, Frejat consegue estes efeitos sem comprometer seu pedigree rock-n’-roll.

Quando enveredou por suas parcerias com Cazuza, o show ganhou peso, ficou sujo como blues curtido há de ser. Chiando em faíscas de metal oitentista, sua guitarra liderou a banda com técnica e riffs óbvios, mas que funcionam no meio de um festival situado em um universo quase paralelo onde não há concorrentes, onde a contemporaneidade pouco importa e o rock jamais morrerá – mesmo que ele acene da cova há mais de uma década.

Assim, por que não Bete Balanço e seu dengoso e eternizado riff de guitarra em acompanhamento à malandragem lírica de Cazuza? Certamente é mais interessante ouvi-la de novo do que assistir a um Matchbox Twenty sem muito a dizer.

Mais uma dose, pediram os fãs. “Porque a gente é assim”, respondeu Frejat com sua guitarra obscena, que teve seu grande momento no final do show, quando o músico, em excelente forma instrumental, a fritou como Robertinho do Recife em um solo. Da mesma forma, o clima de Por Você, com suas amadas dedicações de amor, colocou a plateia em transe.

Em 2011, o ex-Barão Vermelho abriu a noite de shows do penúltimo dia. Fez sua estreia nos palcos do festival em carreira solo, com a turnê do disco Intimidade entre Estranhos, de 2009. Desde então, não lançou nada, apenas um videoclipe de Amor é Quente, outro hit de sua setlist na sexta-feira à noite.

Foi a segunda vez que o cantor subiu ao Palco Mundo nesta edição de Rock in Rio. A primeira foi para abrir o festival, há uma semana, quando recebeu artistas nacionais como Ney Matogrosso, Rogério Flausino e Maria Gadú para homenagear Cazuza. Na ocasião, Frejat também representou o legado de seu parceiro com o afinco que aplica em seus shows solo, deixando na poeira versões pífias como a que Maria Gadú fez para Bete Balanço, ou a em que um Ney fora de seu elemento releu Brasil. E, à medida que seu conciso show caminhou para Puro Êxtase, a banalização de ideias na curadoria do Rock in Rio deixou de ser relevante e ouviu-se apenas uma guitarra nervosa, embebida em vaidosos excessos e trejeitos roqueiros dos anos 80, recontando a velha história do rock nacional.

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