Dinho Ouro Preto manda “saquear Brasília”
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Dinho Ouro Preto manda “saquear Brasília”

Eliana Souza

14 Setembro 2013 | 20h56

Julio Maria

O silêncio já começava a ficar estranho em um festival que, mesmo tendo trilhado sua carreira solo pop, preserva o espírito de rebeldia ao menos no nome. Como se os muros da Disney do rock fossem impenetráveis, como se a fantasia não pudesse ser ofuscada por dilemas mundanos, o rock estava em relativo silêncio. Até que Tico Santa Cruz, do Detonautas, puxou um coro contra o governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral, e Dinho Ouro Preto mudou de vez o tom. “A gente adora falar mal de político. Não sei nem a quem dirigir o que eu tenho a dizer. Então vai para esse Natan Donadon, o primeiro presidiário congressista do País. E vai para o Congresso, por ter mantido esse cara por lá. Vai para Brasília, pelo conjunto da obra.” Mais do que aplaudido, foi coberto de gritos por uma plateia de punhos fechados ao alto. E sem perder o timing, voltou à carga. “Acho que o pessoal olha pra gente lá de Brasília e nos vê assim”, disse, colocando no rosto um nariz de palhaço. Começou então a cantar Saquear Brasília, música do mais recente disco do Capital Inicial, Saturno, feita antes de uma multidão acuar a segurança e a polícia em Brasília, ameaçando invadir o Congresso Nacional durante as recentes manifestações no País.

Dinho já havia feito desabafo parecido. No Rock in Rio de 2011, falou para mais de 60 mil pessoas de sua indignação com relação ao fato de o jornal O Estado de S. Paulo estar sendo censurado desde julho de 2009, proibido de publicar matérias da Operação Boi Barrica. Na investigação sigilosa, Fernando Sarney, filho do senador, aparece como suspeito de fazer caixa 2 na campanha de Roseana Sarney ao governo do Maranhão de 2006.

Depois de seu desabafo na canção que termina sem metáforas, pedindo literalmente que as pessoas saqueiem Brasília, Dinho emendou Independência e conseguiu criar um interessante bloco politizado dentro de um festival que parece não querer problemas maiores nem servir de estandarte.

O ato de Dinho veio depois de um começo de show truncado, provavelmente pela emoção do cantor. Eufórico, ele se atrapalhava com as palavras, ditas rápidas demais, e algumas vezes perdia o controle delas. Dizia um “cara” e dois “tá ligado” entre uma e outra e olhava para o público incrédulo, apesar de estar em um Rock in Rio pela quarta vez. Não parecia previsto o pulo que ele deu para cantar Fátima com a plateia, deixando a banda sozinha por um longo período e tendo dificuldades para reencontrar o tempo certo.

Em uma hora de show, que a banda respeitou com cuidado, eles comprimiram uma espécie de retrospectiva. E conseguiram incluir ainda uma homenagem a Champignon, o baixista do Charlie Brown Jr que se suicidou recentemente. “É difícil entender o que aconteceu, eu gostava muito desses caras”, disse, lembrando também de Chorão, morto há seis meses. Disse e pediu à plateia que o ajudasse a cantar uma canção em homenagem a eles, feita ao violão e voz com Só os Loucos Sabem, de Chorão. Comoveu sobretudo por terminar dizendo “você deixou saudades, quero te ver outra vez.” Lembrou ainda de Raimundos, com Mulher de Fases, e terminou nostálgico mas não menos punk rock com Veraneio Vascaína.

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