Artista Rosana Paulino resgata suas raízes em exposição na Pinacoteca
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Artista Rosana Paulino resgata suas raízes em exposição na Pinacoteca

O Estado de São Paulo

08 Dezembro 2018 | 11h08

Por Pedro Rocha, especial para o Estado

Na sequência da exposição Mulheres Radicais, a Pinacoteca do Estado de São Paulo encerra o ano com uma mostra individual da artista paulista Rosana Paulino. Na exposição, intitulada A Costura da Memória, aberta ao público neste sábado, 8, as raízes e a história de Rosana se misturam com a de várias brasileiras.

Há mais de duas décadas, a artista insere em seu trabalho as questões das mulheres negras na sociedade contemporânea. O título da mostra é quase literal. Logo no início da carreira, Rosana se apodera de técnicas usadas por sua mãe, como a costura, e também de representações físicas da sua memória, como um álbum de família.

Na sala de entrada da exposição, estão duas obras que exemplificam muito bem essas técnicas, como a série Bastidores, de 1997, que traz a costura calando, sufocando e cegando mulheres, e também na obra Parede da Memória, uma das mais antigas da exposição, de 1995, e que faz parte do acervo da Pinacoteca. “Entram aqui duas questões muito fortes, de gênero, até pelos objetos que estão aqui, há uma discussão sobre modelos de beleza, a costura como uma ideia política; e também a questão do racismo científico e como isso vai impactar a formação do Brasil”, explica a artista, ao mostrar sua exposição ao Estado.

Obra de Rosana Paulino, ‘Parede da Memória’. Foto: Divulgação/Pinacoteca de SP

Ao longo da carreira, Rosana se debruça por outras técnicas, como instalações, desenhos, gravuras e esculturas. A grande reunião de obras, com cerca de 140 peças da artista, faz desta, na Pinacoteca, a maior exposição individual de Paulino no Brasil. A curadoria foi de Valéria Piccoli e Pedro Nery, que decidiram agrupar os trabalhos numa mistura de temática e data. “A exposição não é cronológica, mas tem encontros de alguns períodos”, diz Nery.

Em seu trabalho, Rosana utiliza todas essas técnicas, e até desenvolve novas, para criticar a visão colonialista da sociedade e questionar o efeito de conceitos históricos deturpados.  “A temática às vezes pede alguma solução e eu vou procurar a técnica”, explica. “Começo a minha carreira, para pensar o que é ser uma pessoa negra no Brasil por meio de um álbum de família. A medida em que amadureço como artista, percebo que não dá para discutir a sociedade brasileira só com o álbum, então busco outras estratégias.”

Um outro exemplo de inovação técnica é o livro de artista História natural?, crítico ao racismo científico, em que ela utilizou uma impressora caseira e muita experimentação para chegar num resultado final de sobreposição de imagens sobre papel e tecido. “Para fazer esse álbum, tive que desenvolver algumas técnicas, a história do racismo científico foi forjada, tem que ser borrada, não é limpa. Queria uma técnica de gravura que transmitisse isso.”

A exposição de Rosana vem no final de um ano em que outra instituição paulista, o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, o Masp, dedicou todo o seu trabalho à temática da diáspora africana, com destaque para a mostra Histórias Afro-Atlânticas. Para Paulino, porém, a discussão precisa ser ampliada. “São Paulo às vezes é uma bolha, em relação ao Brasil, e ainda assim a gente está tratando esses assuntos com atraso”, acredita. “Temos um ranço, no Brasil, como se questões ditas das minorias não tivessem que ser discutidas, como se não tivesse um espaço na arte.”

Para Rosana, os artistas devem tratar aquilo que os incomoda, contrapondo a ideia de que a arte deva ser universal. “Para mim, o motor da arte é o que me afeta”, diz. “E o que me afeta é perceber a situação do que é ser mulher, de quantas mulheres são mortas todos os dias no Brasil, o que é ser negra. Nós estamos atrasados em acolher as demandas que estão fora da agenda.”

Num momento em que pessoas questionam, no País, a luta dos negros e das mulheres, Rosana acredita que exposições sobre os temas são necessárias. “O Brasil nunca foi um País acolhedor, no sentido da discussão, as pessoas fingem que não existe, e nesse momento mais ainda”, analisa.

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