A redenção do Rock in Rio nas mãos do Iron Maiden
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A redenção do Rock in Rio nas mãos do Iron Maiden

Eliana Souza

23 Setembro 2013 | 01h25

Julio Maria

E então, depois da produção menos áudio e mais visual de Beyoncé, da guitarra lunar do Muse e das apropriações soul de Justin Timberlake, depois da ferocidade inoxidável do Metallica, das cartas de amor do Bon Jovi e do rock braçal de Bruce Springsteen, depois de sete dias juntando rock de verdade com rock de mentira, o Rock in Rio colocou homens de um lado, meninos de outro e, em sua última noite, voltou a ser Rock in Rio.

Os ingleses do Iron Maiden, atração nas edições de 1985 e 2001, não foram escalados para o posto mais alto de um festival que teve público total estimado de 595 mil pessoas por conveniências de agenda. Ao contrário de 2011, quando a chuva e a decadência de Axl Rose enterraram a despedida da festa, o Iron entregou o produto da melhor relação espetáculo/rock-n’-roll do mercado sem perdas para nenhum dos lados. O início do fim começou às 0h10, com uma explosão que parecia anunciar mesmo o Apocalipse.

Antes de tudo vieram imagens nos telões laterais mostrando destruição e forças da natureza, como geleiras imensas despencando no mar e nuvens em movimentos acelerados. Logo depois de aparecer Jesus Cristo em um crucifixo prestes a incendiar, duas explosões com fogos de artifício na beira do palco anunciaram a chegada da banda, correndo dos camarins para perto da plateia ao mesmo tempo em que tocava Moonchild, de 1988. Bruce Dickinson veio de preto, muita roupa, medalhas, cabelos mais longos que em sua última aparição no Brasil. Steve Harris, baixista fundador da banda, era sua antítese, de bermudas, camisa sem mangas e dentes cerrados. O show que fizeram, também mostrado em São Paulo na última sexta-feira, faz parte da turnê Maiden England, com muitas músicas do álbum Seventh Son of a Seventh Son, de 1988.

Enquanto canta 2 Minutes to Midnight, a imagem da múmia Eddie, o mascote da banda desde os anos 80, aparece pela primeira vez nos telões. Ele começa a falar com a plateia. Diz que aquela é uma noite em que o mundo está vendo o Rio de Janeiro e que, por isso, quer ouvir muitos gritos. Anuncia Afraid to Shoot Strangers para lamentar “notícias recentes”, provavelmente sobre os atentados no Quênia que, até a noite de ontem, haviam matado 78 pessoas. Frenético, sem entrar em detalhes, corta rápido para outro e outro tema, como se quisesse usar cada espaço de seu tempo.

The Number of the Beast é recebida com uma onda sonora da plateia e uma chuva começa, tímida, os primeiros pingos em sete noites. A introdução na guitarra de Wasted Years, às 1h10, da manhã é redentora, salvaria um show inteiro por si só. Estava ali o metal em sua mais clássica tradução, sem deaf, thrash, speed ou qualquer prefixo criado depois que eles ergueram um patrimônio mantido por um paredão com três enormes guitarristas, Dave Murray, Adrian Smith e Janick Jears, pelo baixo monumental de Steve Harris, a bateria de Nicko McBrain e o vocal de Bruce. Combustível suficiente para queimar pelos próximos dois anos, ou até o Rock in Rio anunciar as próximas atrações.

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