Um ano do disco ‘Letrux em Noite de Climão’: o amor, definitivamente, não é fácil, mas é ótimo
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Um ano do disco ‘Letrux em Noite de Climão’: o amor, definitivamente, não é fácil, mas é ótimo

Pedro Antunes

11 Julho 2018 | 10h40

“Um ano de estrada com Letrux Em Noite de Climão me fez perceber que esse disco não é meu, não é da banda”, diz Letícia Novaes, a Letrux. Doze meses depois da sua estreia com o novo nome e nova estética, ela percebe que seu climão não é só seu.

É, na verdade, um disco para todos ou cada um. Não é por acaso que Em Noite de Climão tenha entrado nas listas de melhores discos de 2017 que valem a pena. A estreia de Letrux é brutal, como “o caldo que você me deu”, pra citar um verso da própria. É desespero e esperança, na mesma medida. Depende do ouvinte.

Letrux (Foto: Antonio Brasiliano)

Principalmente, do estado do coração de quem escuta Letrux Em Noite de Climão.

“Esse disco é do mundo!”, ela diz.

Letrux segue: “As pessoas tem as interpretações mais alucinadas sobre o disco… E tudo bem!”

Letícia Novaes e banda deram início à celebração de um ano de ciclo de disco com shows especiais. Na sexta-feira, 6, foi em São Paulo, com participação da Luedji Luna. Na próxima, 13, será no carioquíssimo Circo Voador – na apresentação no Rio, Letrux terá a companhia de Linn da Quebrada e Bloco Toco-Xona. Veja o evento no Facebook para mais informações sobre a performance no Circo.

Mais Letrux (Foto: Antônio Brasiliano)

Em um ano, afinal, tudo muda – sim, estou deliberadamente caindo no lugar-comum de usar essa expressão. Letrux Em Noite de Climão muda porque o ouvinte de 2017 não era o mesmo de hoje, de 2018.

Porque esse jornalista/blogueiro (???), por experiência própria, pode dizer o mesmo. Viveu (ou vivi, afinal, ninguém aqui é o Pelé para se tratar por terceira pessoa) altos e baixos desde que teve a chance de ouvir, nos fones de ouvido, na redação do jornal O Estado de S.Paulo, a transformação de Letícia Novaes, ex-Letuce, em Letrux.

Na época, veja só, chamaram a atenção versos de Além de Cavalos:

“Vai dar trabalho cobrir essa tinta /
Vai doer quem sabe mais ainda / 
Não aguento mais olhar pra pele / 
E ver o seu nome tatuado /
E saber que o meu virou uma cobra /
Sendo que você agora é a própria”

Sim, tenho aqui, na pele do braço esquerdo, quase escondida, um riscado sobre o qual, às vezes penso, “hmmmm… será que foi uma boa ideia?” O fato, amigos, é que foi naquele momento. A tatuagem está lá até hoje. Como todos os amores que passam, que foram bons antes de serem ruins. E que foram ruins antes de serem bons, como canta – adivinhem quem? – Letrux.

E, um ano depois, é mais fácil perceber do que cantava ela no disco Em Noite de Climão. O que Letrux faz ali é não ter vergonha de sorrir um amor, de suar com uma transa boa e querer por mais. É não se importar em amar intensamente, descaradamente, destrambelhadamente, imperfeitamente.

É possível rir disso  tudo, afinal. Como Letrux o faz em Ninguém Perguntou Por Você:

“Já tive tudo com você /
Dois filhos com você /
Na minha cabeça com você /
Tudo com você /
Conta conjunta com você /
Suruba com você /
Na minha cabeça com você /
Tudo com você”, diz o pós-refrão, que é bom demais.

Amor perfeito, afinal, só existe em fotinho de casal postada no Instagram, com uma porção de filtros à disposição, uma dezena de tentativas de poses e cliques até encontrar o momento ideal. E isso tudo também é lindo, também.

Não é um suruba, nem dois filhos, nem conta conjunta, como canta Letrux, mas é algo. Cada relacionamento tem a sua entrega e a sua doação.

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Acontece que Em Noites de Climão parte do fim disso tudo. Do que ruiu, da vida fora daqueles universo de dois (ou três, ou quatro, enfim…) com o fim de um relacionamento. Letrux, em seus versos, não quer diminuir o peso de um término. Também não zomba daquilo que se fez durante uma relação.

Letrux em Noite de Climão é o mais tragicômico retrato de um fim que a música entregou em 2017 – da mesma forma que Tim Bernardes fez, com seu disco solo Recomeçar, uma narrativa de fim e recomeço.

Cruel e real, na mesma medida, é a percepção de Letícia Novaes, como Letrux, sobre o fim.

A narrativa criada ali parte desse momento de pós-dor, de alguns rancores ainda guardados, mas também entrega a esperança. As faixas nos conduzem pelo mar tumultuado que é a vida que deixa de ser compartilhada com quem se ama.

Mas também se deleita com as delícias que o “estar só” traz consigo. Veja bem, como nessa música aqui, Que Estrago:

Letrux Em Noite de Climão, aliás, não rejeita a possibilidade de que, logo logo, a vida volte a ser a dois. Como em, Flerte Revival, que coloco abaixo:

Se numa canção, vive-se a bad, na outra, deseja-se um novo romance ou dar uns beijos, que seja.

Também atriz, Letícia vive cada personagem dessas canções com intensidade. E, pessoal, pouco me importa se versos x ou y são autobiográficos. Gosto deles quando são autobiográficos para mim.

Como disse a própria autora. Letrux em Noite de Climão é um disco do mundo, de fins e recomeços. De choros e novas alegrias. Desse balanço eterno no qual esquecemos de sair quando ainda éramos criança e, ainda, sobe e desce. A identificação com o disco muda com o passar do tempo, com cada nova vivência. E, portanto, é um disco um pouquinho meu. E, possivelmente, um pouquinho seu também.