Quando ouvi Belchior, em Fortaleza, chorei
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Quando ouvi Belchior, em Fortaleza, chorei

Pedro Antunes

30 Abril 2017 | 14h57

Dois escorpianos, dois nascidos em 26 de outubro, com quarenta anos entre eles

FORTALEZA* – Raquel Virgínia, uma das duas vocalistas da banda As Bahias e a Cozinha Mineira, anunciou que a próxima canção seria uma versão de Belchior, filho de Sobral, no Ceará. Engasguei. Supus que era a fumaça do cigarro, inalada de forma equivocada. Não era.

No palco montado no encontro da Avenida Almirante Tamandaré com o mar, a banda apresentava as canções do disco de estreia, o elogiado Mulher, lançado no ano passado, como parte da programação do festival Maloca Dragão, realizado nas ruas de Fortaleza pelo quarto ano consecutivo.

Era noite de sábado, 29. Naquela noite, 4,1 mil quilômetros dali, Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes inspirava pela última vez. Morria – uma apneia durante o sono, segundo revelaram depois -, sem contato com o mundo externo. Fugido, escondido na cidade Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul.

Conheceria ele o trabalho das Bahias? Sabia como sua música era reverenciada pelo País afora?

Raquel escolheu Na Hora do Almoço, canção com a qual Belchior despontou. Com ela, ele venceu o festival da Tupi, em 1971, e assim começou uma carreira que teve seu ápice no fim dos anos 1970, com o discaço Alucinação, de 1976, lançado quando ele tinha 30 anos.

Belchior tinha 30 anos quando nos deu sua obra prima. Eu tinha 30 anos quando, nas ruas de Fortaleza, cidade onde o cantor e compositor morou depois de deixar o município de Sobral, a 240 de quilômetros da capital, ouvi Na Hora do Almoço e chorei.

Enquanto algumas lágrimas escorriam pelas bochechas e se embrenhavam na barba escura, perdi a noção de tempo e espaço. Busquei, por dentro, imaginar  onde estaria Belchior. Supus que a emoção tivesse relação com a interpretação das Bahias. Hoje sei, não era. 

Raquel cantou a primeira estrofe:

“No centro da sala, diante da mesa / No fundo do prato, comida e tristeza / A gente se olha, se toca e se cala / E se desentende no instante em que fala”

Assucena Assucena, dona da outra voz, continuou:

“Cada um guarda mais o seu segredo / A sua mão fechada, a sua boca aberta / O seu peito deserta, sua mão parada / Lacrada e selada / E molhada de medo”

Triste. Havia (e há) tristeza nesses versos. Uma melancolia escarrada e, infelizmente, embebida de conformismo. Em 1971, Belchior encarava o cotidiano com olhos tristes, talvez marejados, tais quais os meus. Assim o fez, repetidamente, nos anos seguintes.

“Medo, medo, medo, medo”, dizia outro trecho de Na Hora do Almoço.

Belchior expunha um olhar desalentado pelo mundo ao redor. Era, contudo, um jovem ainda com aspirações, não o homem de 70 anos morto milhares de quilômetros distante de onde nasceu.

Havia esperança naquela melancolia, de início. Elas batalhavam, sem saber qual seria a vencedora. Ele queria mudar as coisas, queria amar, mas foi atropelado pela vida, pela falta de reconhecimento, pelo rareamento dos shows. Sabemos quem levou a melhor. 

Dois escorpianos, ele e eu. Dois nascidos em um 26 de outubro, com quarenta anos entre nós. No momento de sua morte, chorava por ele sem saber. A tragédia de suas canções, às vezes escondida, às vezes escancarada, não poderia preparar ninguém para o que viria a seguir com o cantor e compositor, fugido, sem deixar pistas, com um rastro de dívidas deixado para trás.

Na manhã deste domingo, 30, a morte de Belchior foi anunciada. A fuga dele, da vida, dos credores, dos fãs, chegou ao fim. Se derrubei lágrimas antes, sem saber o motivo, choro agora, complemente ciente da razão: por expor lágrimas tão íntimas e, por algumas horas, inexplicáveis. Despedia-me de Belchior, sem imaginar que ele também se despedia de todos nós.

*O repórter viajou a Fortaleza a convite do festival Maloca Dragão