[Outra história] Promessas de fim de ano
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[Outra história] Promessas de fim de ano

Pedro Antunes

17 Dezembro 2016 | 00h48

Sentou na mesa de sempre do seu bar.

Sim, ele “tinha” um bar para chamar de seu e, nele, uma mesa que era a sua preferida.

papel e caneta

Osório, o verdadeiro dono do bar, passou para cumprimentá-lo, perguntar se queria a cerveja de sempre (“Quer aquela Serra Malte?”) e se gostaria de beliscar algo (“Que tal aquela porção de fritas?”).

Ele aceitou a cerveja, recusou as fritas. Não queria ficar com as mãos engorduradas.

Osório deixou-o e ordenou para o único garçom do turno que fosse lá na geladeira pegar a Serra Malte mais gelada que encontrasse para o cliente. Voltou para atrás da caixa registradora a fazer as contas que só os donos de bares sabem como fazer.

Augusto, pelo menos esse era o nome que ele achava ter o garçom ainda novo no pedaço, trouxe logo a cerveja, despejou-a desajeitadamente no copo e partiu sem dizer uma palavra. Augusto, a partir daquele momento o nome seria esse, não era muito de conversa.

Naquele dia, ele agradeceu pelo silêncio.

Uma golada, duas goladas depois, revirou a mochila em busca do pedaço de papel amassado encontrado dias antes. No topo da folha sulfite, o título: “Promessas para 2016”.

Esquecera completamente daquela noite de 31 de dezembro de 2015 quando, ao lado dos amigos, decidiu colocar no papel o que gostaria de fazer no ano que iniciaria em alguns minutos. Cada um dos cinco fez o mesmo.

Estavam bêbados, é claro. Ele, prevendo o blecaute no dia seguinte depois da mistura insalubre de cerveja, champanhe e gin tônica,  enfiou o papel na mochila na esperança de encontrá-lo, eventualmente, ao longo do ano.

Dia 17 de dezembro de 2016, o ano quase no fim, e ele enfim achou a lista do que aquela versão dele com muito  álcool no sangue havia desejado para os próximos 12 meses.

E o primeiro item era ridiculamente pertinente.

1) Beber menos.

Era óbvio que a primeira promessa da lista não fora levado a risca. Afinal, passou a ser frequentador do mesmo bar por noites sem fim, sempre na mesma mesa, com um caderno de anotações, a rabiscar histórias que imaginava um dia escrever.

O segundo item estava mais próximo. Isso o deixou mais satisfeito.

2) Escrever mais.

Se houve algo ele fez durante 2016 foi escrever. Escreveu ficção, sobre histórias reais. Colocou, em palavras, aquilo de mais dolorido que às vezes tinha dentro de si. Publicou indiretas e diretas. Pagou por elas, as diretas e as indiretas.

Escreveu muito. De alguns textinhos ou textões, tinha orgulho. De muitos, vergonha. Mas parou de apagá-los. Decidiu deixar registrado, como um álbum de fotografias, dos momentos que tivera neste longo ano de 2016.

Pois bem. De dois itens, cumprira um e ignorara outro. O terceiro colocou a balanço de novo no negativo.

3) Parar de fumar.

Riu. E o fez com um cigarro entre os dedos da mão esquerda. Ainda fumava o malboro vermelho de 2015, de 2014, de 2013.

Em 2016, tentou parar pelo menos duas vezes. Numa das vezes, aguentou poucos dias. Na segunda tentativa, ficou um mês longe do vício. Recaiu logo, é verdade, mas tinha orgulho daqueles dias sem cigarro.

Deu mais um gole na cerveja que já estava no fim – precisaria chamar Augusto para pedir mais uma daqui a pouco -, tragou mais uma vez o cigarro que já estava no fim. Apagou-o no cinzeiro e voltou sua atenção à folha de papel sobre a mesa.

4) Fazer mais exercícios.    

Esse item não deveria valer como negativo, ele pensou. Qual pessoa promete fazer mais exercícios no ano seguinte, se imagina com inscrição na academia feita, e realmente cumpre?

Resolveu manter o placar em 2 a 1. Descartou o quarto item.

Engasgou com a quinta promessa.

5) Se entregar realmente para alguém.

Tossiu como se tivesse 60 anos de idade e fumado por 50 deles. Tossiu muito, engasgado pela fumaça.

Não esperava por essa promessa. Também não esperava que essa, justamente essa, ele tivesse cumprido. Ele se entregou para alguém em 2016. Para ela. E fez tudo errado depois disso.

Perdeu-a.

Com raiva, de si mesmo, buscou o caderno de anotações. Rasgou uma folha e se colocou a escrever.

Promessas para 2017: 

1) Não fazer promessas para 2017.

Dobrou a folha e colocou-a no bolso traseiro da calça jeans. Chamou por Augusto – o nome dele era, na verdade, Afonso, ou Afonsinho, para os mais chegados -, pediu mais uma cerveja. Puxou outro cigarro do maço.

Aspirava a fumaça com uma velocidade maior do que o normal. Levava o copo à boca com mais frequência também. Lembrar-se de tudo o que vivera com ela tinha esse efeito sobre si.

– Oi – ouviu ele, acompanhado de um leve toque no seu ombro direito.

Reconheceu-a pela voz. Pelo toque. Era mesmo ela. Aquela com a qual cumprira o quinto item da lista de promessas para 2016.

Ela segurava sem muita força a coleira da cachorrinha Diana, uma vira-lata que o reconheceu, mesmo depois desse tempo todo, e já subia nas pernas dele e lambia-lhe as mãos.

– Você cortou o cabelo. 

Foi isso que ele conseguiu dizer a ela enquanto afagava a cabeça da cachorra e se levantava. Tudo ao mesmo tempo. Assim, no susto.

– Você ficou bonita.

– Obrigada.

Ela desviou o olhar, mirou os carros que passavam ao lado. Passou a mão livre pelos cabelos mais curtos do que a última vez que ele a vira.

– Não sabia que você passeava com a Diana por essa rua – ele disse. E era verdade.

– Não passeamos, mesmo. Hoje, quis inventar um caminho diferente e te vi aqui… Você não tinha parado de fumar??? 

Ele deu nos ombros. Não sabia o que responder. Tinha voltado, mesmo. E fumara com muito mais frequência desde o retorno.

Os dois se olharam por um tempo. Ele não sabia dizer por quanto tempo. Ela esboçou um sorriso bonito. Fez que iria embora. Ele foi mais rápido.

– Você quer tomar uma cerveja aqui comigo? 

Ela, dessa vez, topou. Não fez careta. Nem disse que “sim” querendo dizer “não”. 

Puxou a cadeira, amarrou a coleira da Diana no pé da mesa e sentou-se diante dele. E, de repente, foi como se ela sempre estivesse ali, diante dele. Como se nunca tivesse partido. O bar dele poderia muito bem ser o bar deles. 

Afonsinho, quieto, porém ligeiro, já surgiu com um novo copo americano para ela. Serviu a cerveja desajeitadamente como sempre e se foi, calado.

Brindaram olhando nos olhos. Beberam, ainda em silêncio.

– Preciso ir ao banheiro. É rapidinho.

Ele saiu apressado e entrou no bar. Cruzou com Osório, que conversava animadamente com um grupo de amigos sobre o campeonato brasileiro vencido pelo Palmeiras. Viu Afonsinho, do outro lado do balcão, a preparar uma caipirinha, algo que definitivamente não era a sua especialidade. 

No banheiro, buscou o papel dobrado no bolso traseiro da calça.

Promessas para 2017:

Rabiscou o número 1 da lista. Escreveu um novo.

1) Entregar-se de novo para ela. E, dessa vez, não estragar tudo.

[O Outra História passou algumas semanas em silêncio. Em branco. Um tempo necessário. Volta hoje, nas primeiras horas de sábado, 17 de dezembro, dia das novas promessas para o ano que está por vir]

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