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[Outra história] Pessoas erradas, na hora certa

Pedro Antunes

04 de novembro de 2016 | 08h08

Ouça enquanto lê:

Gabriela esperava, sentada, na mesa do bar de sempre. Tomás estava atrasado, como sempre.

Com os dedos ansiosos, ela mexia no celular sem prestar atenção ao aparelho.

No Facebook, duas notificações de eventos os quais ela não iria.

No Instagram, a foto postada por ela no dia anterior continuava a ganhar likes. Eram 65 já.

No Tinder, um novo match.

Um sujeito de 34 anos, Gabriel, cujas fotos mostravam o gosto por mergulho e esportes radicais. Um sujeito, na verdade, por quem havia se interessado pouco, mas Gabriela arrastou a foto dele para a direita no aplicativo porque estava entediada e queria massagear a autoestima se aquele tipo achasse a garota de óculos e cabelos preto bonita para os padrões dele.

Era uma bobagem, ela sabia. Uma bobagem daquelas feitas em noites de solidão, já deitada na cama, depois de beber duas ou três taças de vinho.

Gabriel, o sujeito fã de esportes radicais – “nem tão radicais assim”, pensava Gabriela, ao notar que apesar da descrição dele dizer tal clichê, as fotos só serviam para mostrar o rapaz descamisado, com o abdómen definido a mostra – enviou-a um “oi, gata”. Gabriela suspirou com desprezo. 

– Desculpe, me atrasei para sair do trabalho – disse, Tomás, ao tocar no ombro da moça levemente e dar-lhe um beijo na bochecha.

Surpresa, ela apagou a tela do celular rapidamente. Como se estivesse cometendo algum crime virtual. E não estava.

– Temos um novo match no Tinder? Posso ver o cara? – disse Tomás, com aquele sorriso grande, cheio de dentes brancos.

Era aquele sorriso que conquistava as moças mais idiotas, pensava Gabriela. Moças como ela, mesma, concluiu.

– Isso não interessa, Tom – respondeu a garota, secamente.

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Ela guardou o celular de volta na bolsa. Ele serviu a cerveja já pedida por Gabriela nos dois copos da mesa.

– Dia difícil, Gabi? – ele arriscou.

– Tempos difíceis.

Ela agarrou o seu copo e deu um longo gole na cerveja gelada.

A noite, quente e suada, parecia gritar por aquilo. Tanto quanto as manhãs, chuvosas e cinzas, clamam por uma caneca enorme de chá quente.

– Precisamos conversar – disse ela, só depois de terminar de beber todo o líquido contido no copo americano e servir a si mesma.

– Vixi.

Isso que ele foi capaz de dizer. “Vixi”. Nada poderia irritar Gabriela mais do que o descompromisso do garoto a sua frente.

– Estamos nos vendo há, o que, seis meses? – perguntou ela.

– Não sei dizer. Acho que sim. Alguns meses mais, outros menos. Mas talvez seja isso.

– Ok. O que quero dizer é que nosso prazo de validade acabou, Tom.

Gabriela estava irritada. Não com Tomás que, diante dela, olhava-a confuso com a irritação dela.

Gabriela estava irritada consigo, mesma, por ter se deixado envolver com alguém como Tomás.

Tomás integrava o novo, talvez não tão novo assim, tipo de homem. Era um falso bom moço.

Tinha nas suas palavras doces, no jeito fofo e carinhoso e no sorriso largo, seu charme.

No fundo, era só alguém egoísta. Cujas conquistas vinham aos montes. E aproveitava-se da fragilidade emocional de algumas garotas, com doses moderadas porém eficientes de doçura, para levá-las para a cama.

Falsos bonzinhos, tais quais os assumidamente galinhas, não se importam verdadeiramente com quem está com eles.

A diferença reside na forma como eles se apresentam. Sujeitos como o Tomás enganam as garotas. Galinhas, não. Uma boa trepada, duas, talvez alguns meses de trepadas sensacionais, mas só isso.

Tomás e sua tribo fantasiavam suas intenções – as transas – com as falsas promessas. Sugeriam um relacionamento com determinada garota, enquanto secretamente  (ou não tão secretamente assim) faziam o mesmo com mais um sem número de outras garotas.

– O que quero dizer, Tom. É que eu precisei de você, mas não mais.

– Você me usou, é isso?

Veja só, pensou Gabriela, os falsos bonzinhos têm, entre suas características, uma boa lábia. A capacidade de manejar as palavras, transformá-los em vítimas da história.

– Talvez tanto quanto você tenha me usado como “a garota para dormir abraçadinho nas noites de terça-feira” durante esse tempo todo. Agora, acabou, Tom.

Ele ficou em silêncio. “Ponto para mim”, comemorou Gabriela. 

Gabriela havia terminado o terceiro copo de cerveja. Tomás ainda bebericava o seu primeiro.

– Você se lembra de como eu estava seis meses atrás. Estava em pedaços. E acho que você, de alguma forma, me ajudou a colar isso tudo no lugar.

Gabriela conheceu Tomás em uma festa no centro da cidade. Razoavelmente charmoso, o rapaz conseguira avançar pela parede invisível que Gabriela construíra para evitar com que qualquer pessoa chegasse perto demais.

Três meses antes, Gabriela havia sido traída pelo então namorado, perdido o pai e convivia com a instabilidade no emprego.

Ela era um bagaço até encontrar Tomás. Ele fora uma boa companhia durante aquele período duro de reconstrução. Nunca passou disso, contudo.

– Naquela época, eu achava que não precisava de alguém. Era emocionalmente instável demais para ter algo legal com um cara. Você, com as suas promessas, oferecia o fiapo de relacionamento que eu precisava.

– Eu não entendo – disse ele, por fim. 

– Eu precisava de companhia e doses moderadas de amor. E isso você me deu.

– Eu te dei mais do que isso, Gabi – arriscou o rapaz.

– É claro que não, Tom. Eu fui só mais uma. Fui a garota da terça-feira, que, eventualmente, poderia se tornar a garota da quinta e, dependendo da sua agenda e da minha, a garota do fim da noite de sábado.

Gabriela seguiu:

– E o mais bizarro dessa história é que, depois de algum tempo, fui capaz de sair com outros caras, dormir com eles, e nunca tive coragem de contar para você, enquanto sabia que você pegava todas que sorrissem de volta para você. Fui tão estúpida!

– Nunca prometemos nada para o outro – disse Tomás, já sem conseguir se esconder na pose de bom moço.

– Aí que você se engana. Ou se esqueceu. Você me disse muitas coisas vazias, como promessas que nunca iria cumprir. E, olha, ainda bem. Fico feliz em nunca ter me apaixonado por você.

O copo de cerveja em frente a Tomás suava, quase intocado. Ao redor do casal (casal?, talvez seja melhor “dupla”), amigos aproveitavam o happy hour, riam, discutiam futebol e outras bobagens que se grita em bares em noites quentes de terça-feira como aquela.

– Eu não estava pronta para estar sozinha. Agora, estou – disse Gabriela por fim.

– Eu só quis ajudar você – tentou Tomás.

– Não minta para si, mesmo. Você soube usar a minha fragilidade para me comer. E transamos muito bem, isso eu admito.

Silêncio.

Gabriela colocou a bolsa no colo e passou a procurar dentro dela a carteira.

– Você foi a pessoa errada. Na hora certa.

Ela sacou uma nota de dez reais e a deixou sobre a mesa.

– Não estava preparada ainda para a pessoa certa. Seria a hora errada.

Gabriela levantou da mesa, esboçou um “tchau, Tom, boa sorte”, e foi embora.

Mais leve.

Livre.

Tomás pegou o próprio celular, abriu seu WhatsApp, e abriu o chat que tinha com Vanessa.

“Me avisa quando puder me ver? Sinto sua falta”, escreveu a garota.

Digitou.

“Estou livre hoje. Vamos sair?”

[Às sextas-feiras, o ‘Outra coisa’ se transforma em ‘Outra história’, fiapos de histórias criadas para acompanhar manhãs cinzentas demais]

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