[Outra história] Página em branco
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[Outra história] Página em branco

Pedro Antunes

23 de novembro de 2016 | 08h00

Uma a uma, as luzes dos apartamentos vizinhos se apagam. 

Ouça enquanto lê:

Nunca acreditei em bloqueio criativo. Soava como uma desculpa de preguiçosos. A página em branco não é tão ameaçadora, pensava. Pela quinta madrugada seguida em claro, a observar as luzes das janelas dos prédios em frente ao meu se apagando, uma a uma, percebi que estava errado.

A noite se aprofunda numa escuridão cinzenta e sem estrelas de São Paulo.

Encostado no parapeito da janela, debruçado perigosamente, queimo os cigarros perdido em pensamentos. Às vezes, esqueço de tragar. Apenas observo a fumaça se dissipar no ar. Dançando, elas se vão.

Dançando, você se foi também. Com ele. Sempre com ele. Numa noite quente, suada. Os braços dele enrolados aos seu corpo. A boca dele na sua. A sua mão na nuca dele, puxando-o para perto de ti.

Suspiravam e trocavam palavras sacanas ao pé do ouvido, supus. Num canto daquela festa qualquer, encostado a uma janela a fumar, como sempre, só poderia supor o que acontecia ali. Mantinha uma distância segura do seu perfume.

Mas reconheço aquele sorriso tímido e ao mesmo tempo cheio de desejo que ela dá. Já o tive, certa vez. Isso foi antes, contudo. Antes de tudo. Antes do fim.

A página em branco era assustadora. Não eram as palavras que faltavam. Na verdade, elas eram tantas, tão dolorosamente abundantes, que poluíam. Faltava clareza para encontrar um caminho entre sentimentos feridos.

O computador ligado iluminava a sala com a brancura da página órfã de um texto. Tentei a técnica de copiar descaradamente o sentimento alheio para sair da minha própria escuridão. Toquei discos aos montes, para mim mesmo, enquanto fechava os olhos para me concentrar nas canções.

Deitado no sofá que um dia dividimos, chorei. Talvez pela dor dos outros que cantavam aquelas canções tristes, talvez pela minha própria dor. Talvez por ambas. Ou até por nenhuma; aquelas lágrimas entaladas só precisavam escoar para algum lugar.

John Lennon

John Lennon

Foram noites produtivas de alguma forma. Nunca a máquina de lavar trabalhou tanto, pobre coitada. Lençóis, toalhas, camisetas, calças, cuecas e meias. Tudo separado por cor, como diz a regra nunca seguida por falta de tempo. Madrugadas vazias e sem sono acrescem um bom punhado de horas livres para se fazer isso.

A cada nova lavagem, o apartamento era invadido pelo cheiro do amaciante novo. Algo floral, não sei dizer ao certo. Disfarçava a fumaça dos malboros fumados – ou deixados a queimar. Usava a mesma marca que ela havia indicado certa vez. Não sei se era reconfortante ou se doía mais sentir o cheiro das roupas dela se espalhando pela casa. Na falta de outro, usava aquele.

Existe algo de bonito de acompanhar as primeiras horas da manhã acordado. Os carros voltam às ruas. Os pássaros começam a cantar, normalmente, entre 4h e 5h. É quando sei que o sol está chegando. A chegada do dia significa horas no trabalho, longe dessa página em branco. Outras coisas para ocupar a cabeça.

As manhãs de terça-feira são especialmente melhores. É quando dona Ângela vem para me ajudar a arrumar a bagunça e limpar aquilo que sou incapaz de fazer sozinho. Ela sempre chega às 7h, com pães quentinhos comprados na padaria da rua e passa um dos melhores cafés que você tomará na vida.

Hoje, não foi diferente.

– Ai, menino, você precisa parar de fumar. Até o corredor está cheirado a cigarro – diz ela ao abrir a porta e me encontrar na janela (fumando, obviamente), com as roupas usadas no dia anterior.

Ela nota o computador ligado, a página em branco, mas não diz nada, por enquanto.

– Você está péssimo – completa enquanto começa a ferver a água para fazer o café.

Dona Ângela, aposentada, não precisaria mais trabalhar. Reclama de dores no joelho direito. Tento convencê-la a ficar quietinha e descansar. Há anos, ela vem em casa porque “não quer me deixar sozinho”, como ela costuma dizer. Tomamos café da manhã juntos e ela me mostra fotos dos netos, cada vez mais crescidos, e conta com orgulho sobre o emprego da filha.

– Você ainda está mal por causa dela, não é? – ela pergunta. Confirmo com a cabeça, enquanto levo a caneca de café à boca.

– Qual era o nome dela, mesmo?

– Clarissa.

– Por que você não conversa com ela?

– É complicado. Estou há dias tentando escrever algo, mas não consigo.

– Esse é o problema da geração de vocês. Vocês se escondem nessas máquinas. Escrevem, mandam mensagens, e deixam de conversar olhando no olho. Por que você não liga para ela? Tenta marcar algo. Pelo menos assim você vai saber o que ela ainda sente por você. Se ela não quiser mais nada, você vai saber logo de uma vez.

– Acho que você tem razão.

– Isso. É como um band-aid. Tire logo de uma vez.

John Lennon

John Lennon

Encontro o celular no bolso, busco o nome dela nos contatos. Sento no sofá, aquele sofá que onde já adormecemos tantas vezes ao assistir TV, e ligo para ela.

– Alô? – ela atende do outro lado da linha.

– Oi. Quanto tempo.

– Oi. É mesmo.

– Tô ligando para saber se você não gostaria de me encontrar. Para um café, uma cerveja, sei lá – sugiro. 

– Escuta, Olavo, eu tenho algo para contar.

Não digo nada.

– Eu e o Diego… Nós estamos namorando.

Continuo sem saber o que dizer.

Ela e ele. Sempre ele.

– Achei que você deveria saber por mim.

Meus segundos em silêncio parecem durar algumas horas. Horas nas quais sinto como se meu estômago estivesse recebendo socos e pontapés. 

– Entendi. É… Bom… Boa sorte para vocês, eu acho. Preciso desligar. Beijo.

Jogo o aparelho celular no sofá, aquele que nunca mais seria meu e de Clarissa. Puxo mais um cigarro do maço e me ponho a fumar, recostado na janela.

– Como foi? – perguntou dona Ângela, com aquele olhar de quem já sabe que as coisas não correram como eu esperava.

– Você tinha razão. Era melhor conversar do que escrever algo – respondo.

– Talvez eu tenha demorado demais – digo, por fim.

Vou até o computador para desligá-lo depois de cinco dias. Darei um descanso para ele. E para mim, mesmo.

Eu estava errado. Algumas páginas morrem em branco.

E nós fomos uma delas.

(Todas as sextas-feiras, o ‘Outra coisa’ ganha uma ‘Outra história’. Ou deveria ser assim. Às vezes, uma semana passa em branco, noutra, o texto surge numa terça-feira pela manhã)

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