[Outra história] ‘Oi, sumida’
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[Outra história] ‘Oi, sumida’

Pedro Antunes

23 de setembro de 2016 | 09h04

Ouça enquanto lê:

O celular avisou a chegada de uma nova mensagem de texto.

“Oi, sumida”, escrevera Alexandre.

Catarina olhou para a telinha do aparelho e soltou um suspiro. De desgosto.

Largou o celular no sofá e se dirigiu para a cozinha. Era tarde da noite, o dia havia sido cheio e ela tinha fome.

Abriu a geladeira em busca de algo para comer e encontrou uma garrafa de vinho branco pela metade.

– Vai ser isso, mesmo – pensou. 

Sua gata, Margarida, roçava nas pernas dela enquanto Catarina buscava uma taça no armário da cozinha. Distraída, ela derrubou a primeira que encontrou.

– Puta merda – disse ela. Dessa vez, em voz alta.

Recolheu os cacos e espantou Margarida, curiosa, que insistia em querer saber o que era aquele vidro todo espalhado pelo azulejo branco. Catarina pensava no que deveria responder a Alexandre. Supôs que deveria discorrer longamente sobre o fato de ela, a verdade, não ter sumido. Ele, sim, era o sumido.

Há dois meses, eles se conheceram por um daqueles aplicativos de paquera. Ele, galanteador, dizia que ela era a garota mais bonita que havia encontrado por ali. Ela não acreditou, é claro, mas aceitou o elogio do engenheiro mesmo assim.

Jeff Tweedy, do Wilco (Foto: Zoran Hires / Divulgação)

Jeff Tweedy, do Wilco (Foto: Zoran Hires / Divulgação)

Logo, a conversa migrou para o WhatsApp.

– Esse Tinder parece uma grande micareta – disse Catarina a Alexandre quando eles finalmente se encontraram, duas semanas depois do “match”. Ele riu. 

Saíram três vezes no total. Ele não a fazia perder a noção do tempo ou coisa parecida. O beijo deles ao fim do terceiro encontro também não foi nada de excepcional.

Foi um beijo ordinário, como aqueles que acontecem quando as duas pessoas estão mais preocupadas em chegar logo em casa para se preparar para o dia seguinte de trabalho do que na troca de carícias em si.

Depois do terceiro date, contudo, Alexandre, o sumido, desaparecera. Ela também não o procurara. Eram dois sumidos, essa era a verdade.

Ele provavelmente havia voltado para a micareta do Tinder em busca de uma nova “garota mais bonita que encontrei por aqui”. Ela, em casa, estava mais preocupada em encher a taça com o vinho branco gelado. Dessa vez, sem quebrá-la.

Voltou ao sofá e encontrou o celular com a mensagem exibida na tela. Havia perdido a fome.

Colocou música para tocar e o shuffle a surpreendeu com The Rat, do The Walkmen.

Uma canção raivosa cujo segundo verso a pegou direitinho. “You’ve got a nerve to be calling my number”, gritava o vocalista.

Decidiu ouvir a música mais três vezes, até sorver todo o vinho que havia naquela taça. Margarida, irritada com aquele barulho todo do The Walkmen, deixou a dona sozinha e foi procurar um canto mais silencioso daquele apartamento apertado para se aninhar.

Com a segunda taça de vinho nas mãos, novamente sem derrubá-la, Catarina lembrou da conversa que tivera com Ana, colega de trabalho, no café da tarde.

– E então ele nunca mais apareceu – dizia a amiga.

Falavam do flerte que ela tivera com um rapaz dois anos mais novo, advogado. A história era longa demais e Catarina não havia prestado tanta atenção assim. O fato é que Guilherme, o advogado, também havia sumido.

– As relações hoje são assim, amiga – consolava Catarina.

Ela há tempos percebia como tudo havia se tornado perecível. De todos os lados, homens e mulheres. Ninguém mais parecia interessado em manter qualquer relação que durasse mais do que alguns encontros, um sexo qualquer, e partir para a próxima.

– Você também nunca mais o procurou, certo? – tentou Catarina.

– Não. Comecei a sair com o Carlos, outro que não deu certo – contou Ana.

Catarina riu na hora. Depois, estirada no sofá, já sem sapato, com a terceira taça de vinho na mão, se pôs a pensar. Não em Alexandre, o sumido, mas na barreira criada por ela, mesmo sem perceber. Tão presa em seus problemas e nas suas desilusões amorosas,  Catarina pode ter deixado alguém escapar.

Alguma história que poderia ser bonita, se ela estivesse disponível para aquilo tudo. Emocionalmente, inclusive.

– Oi, boa noite, eu gostaria de pedir uma pizza – disse ela, ao telefone. Depois de tanto vinho, a fome reaparecera.

Pedido feito e com os celular em mãos, decidiu ouvir um pouco de Wilco. A banda sempre lhe trazia paz. Deu o play em Just Say Goodbye, do novo disco deles, e procurou pelas últimas mensagens trocadas com Gabriel. Um moço bonito, artista plástico, de papo gostoso. Margarida,  gata, aprovou a mudança de trilha sonora e voltou a se aconchegar no colo da dona. 

“Então, fechado! Você me avisa quando puder nessa semana?”, escrevera o rapaz.

“Pode deixar!”, foi resposta dela, seguida de um emoji de piscadela. 

E, sabe-se lá o motivo, Catarina não pode. Não se encontrou com Gabriel, sujeito com quem havia passado horas conversando em uma festa de amigos em comum.

O relógio marcava 23h13. Não era tão tarde assim. Pensou numa forma de puxar um novo assunto com o rapaz. 

– Que merda, Alexandre – disse ela, em voz alta.

Digitou as únicas palavras que conseguiu pensar. Catarina riu de si própria ao enviar a mensagem.    

“Oi, sumido”

(Todas as sextas-feiras, o Outra coisa vira Outra história, uma tentativa de ocupar a cabeça com algo que não seja esse novo show do Wilco em São Paulo – em vão, obviamente)

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