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[Outra história] O problema é você, mesmo

Pedro Antunes

30 de setembro de 2016 | 22h20

Ouça enquanto lê:

Conheceram-se numa daquelas festas nas quais todos parecem ter, pelo menos, dez amigos em comum no Facebook. Encontraram-se entre gente de óculos de lentes grossas e armações escuras, vestidos de tecidos finos e jaquetas de couro. Num daqueles muquifos com cheiro de catuaba, gim tônica e cerveja gourmet.

Ao som de músicas descaradamente pop, riram. Com as brasilidades, dançaram. Quando o DJ colocou um soul sofrido, juntaram os corpos. Quando se beijaram, não tinham mais ideia do que saía das caixas de som. Entrelaçaram-se a noite toda depois disso. E assim permaneceram até a manhã seguinte, até quando já não havia música alguma, só o som da rua que chegava pela janela aberta do quarto dela.

No início da tarde, Fernanda recebeu uma mensagem dele. “Adorei a noite de ontem. Espero que seu dia esteja tão bom quanto o meu. Um Beijo, Fábio”, escrevera o rapaz. Respondeu-o com a mesma candura. Também havia adorado aquela noite.

Saíram mais algumas vezes. E, por mais que ela lutasse contra aquilo, passou a se apaixonar por ele. Fábio era charmoso, gostava das mesmas bandas que ela e, vez ou outra, apresentava-a a discos que ela desconhecia. Ele ouvia o que ela tinha para dizer e compartilhavam a mesma opinião sobre política.

Ela soube que ele havia terminado um relacionamento dois anos atrás. Havia namorado uma garota por três anos, um envolvimento iniciado logo que ele chegou na cidade. O rompimento deveria ter sido traumático. Fábio raramente falava sobre os motivos para o término e Fernanda assumia que aquele era um terreno perigoso para se aventurar.

Por quatro meses, Fernanda foi de Fábio. Ela se entregou ao rapaz, deixou os outros flertes menos interessantes de lado, apaixonou-se sem querer. Uma daquelas coisas inexplicáveis. Fábio nunca foi dela, contudo.

Ela percebeu o desinteresse dele crescer, a troca de mensagem minguar, os beijos rarearem, o sexo se tornar mecânico. Sem saber o que fazer, aceitou, melancólica, que Fábio não a queria. Combinaram de sair na noite de uma quinta-feira. Ele não deu sinal de vida. Fernanda, orgulhosa, também não.

O relacionamento não teve uma chance real de acontecer e, ainda assim, chegou ao fim com um melancólico “combinado, me avisa o melhor horário para você, beijos, Fernanda”, enviado por ela no dia anterior ao sumiço.

Ele eventualmente dava sinais de vida pelas redes sociais. Curtia alguma foto dela no Instagram ou postagem no Facebook, assistia a todos os vídeos do Snapchat e do Story, mas só. Nenhuma outra interação e isso a deixava louca.

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“O que ele quer?”, Fernanda perguntava aos amigos. A resposta era basicamente a mesma: “Ele não quer deixar você se afastar demais para quando ele quiser voltar”. A ideia de alguém fazer isso com outra pessoa a deixava indignada.

Fernanda não encontrou Fábio por seis meses, por mais improvável que isso fosse. E não pode acreditar quando enfim voltou a ver o rosto do rapaz. Estava no mesmo muquifo onde o conheceu, novamente enebriada pelo cheiro de catuaba, gim tônica e cerveja gourmet.

Ela vestia seu vestido de tecido fino, ele usava uma jaqueta de couro. O cabelo dela estava mais longo, preso em um rabo de cabelo. A barba dele, mais curta, evidenciava que ele havia ganhado alguns quilos.

– Gostaria de uma catuaba, por favor – disse Fernanda, debruçada no balcão do bar.

– Me vê uma cerveja – disse Fábio, ao lado dela. 

– Oi – começou ele. – Quanto tempo!

Fernanda precisou se conter para não ir embora de deixar o rapaz falando sozinho.

– É, faz um bom tempo – respondeu, seca, a garota.

– Escuta, queria te dizer algumas coisas. Pedir desculpa, também.

Fernanda ouvia o que ele tinha a dizer atentamente, em silêncio, enquanto bebericava a catuaba gelada. Ele continuou:

– Passei por um meses difíceis, no trabalho, na vida. Eu não soube lidar com a gente, entende? As coisas começaram a andar rápido demais e eu não consegui acompanhar. Me desculpe.

– Eu não consigo acreditar que você está fazendo o tipo de bonzinho. Você tem ideia no que eu pensei? Imaginei o que pudesse ter feito, dito, sei lá! E sabe qual foi a única coisa que fiz? Foi gostar de você. Acreditar no que você me dizia. Sério, cara. Você desapareceu por seis meses, sei lá, e vem me pedir desculpas. É surreal isso. 

– Não é isso – arriscou o rapaz, que continuou:

– Só queria dizer que o problema não é contigo. Eu tinha muita coisa na cabeça na época. Não estava preparado para um relacionamento. Minha ex reapareceu, tudo ficou confuso. O problema sou eu.

– Pode parar, Fábio. Já não quero escutar. O problema não sou eu, mesmo. O problema é você.

Fernanda virou as costas e deixou Fábio para trás. De vez.

Naquela noite, bebeu, fumou, dançou e riu como há muito não fazia. Cruzou olhares com Fábio um punhado de vezes, mas percebeu que não sentia mais nada pelo rapaz. Percebeu outros rapazes olhado-a. Flertou com alguns deles.

Um em especial, Gustavo era o nome dele, chamou a atenção da garota de verdade. Conversaram muito naquela noite. Ele ouviu a história de Fernanda e Fábio, riram com o clichê escolhido pelo sujeito para justificar o sumiço.

Seis meses depois, Fernanda e Gustavo planejam morar juntos com a desculpa de dividir o valor do aluguel, embora todos os amigos saibam que, na verdade, eles não conseguem viver longe um do outro. Fernanda e Gustavo são felizes na medida do possível durante a dura entrada nos 30 anos. E, sempre que podem, brincam com motivo que os juntou.

– Sabe, Gustavo, o problema não é você, sou eu – costuma brinca Fernanda, nos braços do namorado.

Eles sempre riem. E se beijam.

[Todas as sextas-feiras, o Outra coisa se torna o Outra história, essa tentativa pífia de ocupar a cabeça durante as longas esperas entre entrevistas em um estúdio de TV no Canadá com internet bastante limitada]

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