[Outra história] O dia do seu casamento
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[Outra história] O dia do seu casamento

Pedro Antunes

14 de novembro de 2016 | 06h47

Acordou com um embrulho no estômago.

Correu para o banheiro, debruçou-se sobre o vaso sanitário. E nada.

Ouça enquanto lê: 

Não havia nada ali que quisesse sair. Parecia ocorrer uma guerra nuclear dentro dele. Talvez fosse a garrafa de vinho bebida inteiramente no gargalo pela falta de copos limpos, desacompanhada de qualquer alimento, cobrando o seu preço.

A dor de cabeça, enfim, se fez notar. Ótimo, ele pensou. Ótimo.

As lembranças de uma noite confusa também. Depois de entornar o vinho, saíra para encontrar Rafael, amigo dos tempos de colégio, em um bar qualquer no centro da cidade. De Uber, é claro, ou assim esperava.

Ao deixar o banheiro, viu no sofá uma morena bonita, de vestido estampado, deitada ali. Dormia, ainda bem.

Voltou ao banheiro. Encontrou o celular ainda no bolso da calça jeans não tirada para dormir.

“Rafa, cara, me ajuda. Quem é essa garota que está aqui comigo?”, escreveu.

Uma eternidade parece ter passado desde que enviara a mensagem. Imaginava-se com cabelos brancos, longos, barba gigantesca, escondido no próprio banheiro, a esperar pela resposta que jamais viria.

A dor de cabeça lhe lembrava, contudo, de que não havia se passado tanto tempo assim. Ou, supunha, a ressaca já teria ido embora.

Hesitou em abrir a porta e dar de cara com a moça desconhecida que dormira na seu apartamento. Conjecturou a respeito das possibilidades que haviam ali.

Backstage portrait of the Vaccines after their performance at thVa

The Vaccines, quando eles ainda eram ‘cool’

Ele, afinal, nunca foi um bom galanteador. Era possível contar nos dedos (de uma mão, acredite) o número de garotas recém-conhecidas com quem havia passado a noite. A conquista, para ele, sempre fora algo complicado. Logo, essa seria a sexta garota desconhecida a aceitar ir com ele para casa após algum xaveco milagroso?

A resposta não chegava.

Outra questão lhe atormentava. Não se julgava pronto para qualquer relação interpessoal ainda. A ferida deixada aberta por Carol seis meses atrás ainda lhe parecia dolorosa o bastante para ser transformada em uma transa de consolo. Ele não se sentia pronto para isso.

E nada de Rafael responder ao seu chamado.

Ok, pensou ele. Precisaria lidar com a estranha. Pensou de que forma a acordaria, aquela de quem ele sequer lembrava o nome. Faria um café, na esperança de que ela despertasse com o barulho que faria na cozinha? Sacudiria a moça na esperança de que ela se mostrasse tão confusa quanto ele? Voltaria para o quarto e fingiria dormir na torcida de que ela levantasse e fosse embora?

Droga, Rafael, responde a p… da mensagem!, pensou.

– Edu? – disse ela, ao bater na porta do banheiro.

Gelou.

– Ahm, Eduardo?

Não havia outra escolha. Olhou-se no espelho rapidamente, tentou acertar o cabelo farto incorrigível. Respirou fundo e abriu a porta.

Deu de cara com a moça bonita – de voz bonita, um tiquinho rouca, mas deliciosa.

– Oi – disse ele, sem jeito.

– É, oi. Desculpe, ouvi a porta do banheiro batendo e você ficou uma eternidade aí dentro. Pensei que estivesse passando mal.

Ele riu. De nervoso, provavelmente, porque não havia graça nenhuma naquilo. Impossibilitado pela própria timidez, decidiu agir sem pensar.

– Quem um café? – sugeriu.

– Aceito.

Ouça enquanto lê (2): 

Passou pela desconhecida sem olhá-la nos os olhos, de cabeça baixa, e avançou até a cozinha com passos apressados. Encheu uma panela com água, Colocou-a no fogo. Colocou café (muito!) no filtro. Fez tudo sem desgrudar os olhos dos afazeres, mas ouviu os passos dela se aproximarem.

– Escuta – começou ela, também se mostrando constrangida com a situação toda – ia pedir um Uber, mas a tarifa estava dinâmica na madrugada. Dormi esperando ela voltar ao normal.

– Não tem problema. Esse sofá é ótimo. Sempre durmo nele – ele respondeu.

Nenhum dos dois disse uma palavra por um tempo. Ela recosta o corpo na geladeira e olha para as sapatilhas pretas, sem salto, como se houvesse algo importantíssimo ali, naquele momento. Ele terminava de passar o café.

Dessa vez, a iniciativa foi dele.

– Preciso dizer uma coisa… Não lembro o seu nome.

Ela riu.

– Sabe, eu imaginava isso. É Carina.

Ele, idiotamente, esboçou falar um “prazer, Carina, sou o Eduardo”, enquanto apertava desajeitadamente a mão dela.

Serviu o café em duas canecas. Uma para ele, outra para ela. Desculpou-se por não ter pão em casa e ela disse que não precisava, assim que terminasse o café, iria embora.

Enquanto bebericavam o café amargo, já que nenhum dos dois gostava de tomá-lo com açúcar, descobriu algumas das coisas da noite anterior. Ela e uma amiga se juntaram à mesa de Eduardo e Rafael.

Rafael e a amiga logo começaram a se beijar, deixando os dois a conversar. Ele, bastante bêbado, como ela notara, falou por horas da Carol, do término, da saudade. Carina disse que até uma ligação da ex-namorada ele recebeu.

– Depois da ligação, você pediu uma rodada de cachaça para todo mundo.

Ela riu. Ele também. Nada falado por ela, contudo, surgia nas suas lembranças. Culpou a cachaça, depois do vinho e da cerveja, pelo total blecaute. Conferiu as últimas chamadas recebidas no celular. O nome da ex-namorada estava lá. Falaram por quatro minutos e vinte e sete segundos.

Em dado momento, Rafael e a amiga decidiram ir embora. “Tenho bebida em casa”, sugeriu Eduardo, disse Carina – e ele continuava sem se lembrar disso tudo.

Dividiram um Uber até o apartamento dele, onde conversaram mais. Segundo ela, ele não parava de falar da ex-namorada. O que não a incomodou, garantiu a moça. Falaram também de música. Ela era arquiteta, gostava de música pop bem feita, dos tropicalistas e muitas coisas mais.

– Desculpa se isso for grosseiro, mas a gente… – ele não soube como continuar a pergunta.

– Se a gente se pegou? – ela riu. – Não, não.

Ela contou que ele dormiu no sofá, depois de tanto conversar. E o levou até a cama, meio bêbado, meio dormindo. Foi quando decidiu pedir por um Uber, não encontrou nenhum por perto e cochilou no sofá.

– Ah, tá explicado – disse ele, depois de dar o último gole no café já morno. Ela já havia terminado o dela.

Ela disse que já era hora de ir embora. O relógio ainda marcava 9h, mas ele entendeu. Ela buscou suas coisas deixas pelo apartamento, a bolsa e o casaco. Ele se dirigiu à porta e a abriu. 

– Você parece ser um cara legal. Me adiciona no Facebook. Vamos continuar conversando. Quem sabe, quando você lidar com tudo isso que tem aí dentro de você, a gente possa sair de novo.

Ele confirmou com a cabeça e um “claro, pode deixar”.

– E espero que hoje não seja um dia muito ruim. Vai se distrair, fazer alguma coisa.

– Por que? – ele perguntou.

– Hoje é o dia do casamento da Carol. Ela te ligou para contar isso, não lembra? 

Ele não respondeu.

– Eu preciso ir. Meu Uber chegou. Tchau.

Carina deu-lhe um beijo no rosto e foi embora.

De repente, todas as lembranças daquela noite voltaram de uma vez. A ligação, a cachaça, o vinho, a cerveja, o choro. Foi como ser atacado por uma avalanche.

Fechou a porta correndo. Precisava vomitar.

[Todas as sextas-feiras, o ‘Outra coisa’ se transforma numa ‘Outra história’… O que, como sabemos, não é uma promessa cumprida, afinal é segunda-feira de manhã, em um feriado prolongado, e cá está mais um texto. É só mais uma das promessas não cumpridas pelo autor do blog]